sábado, 31 de março de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
Do dia - 22
![]() |
| Auto-retrato com orelha ligada (1889), Vincent Van Gogh A minha mais impressiva recordação de Amesterdão é a do último andar do Museu Van Gogh. É um museu pequenino e moderno, em frente a um parque verde e amplo, igual a tantos outros da cidade, mas que por ser o meu primeiro parque holandês, lembro-me de combinar com a amiga que me acompanhava um pique-nique de fim de tarde que acabámos por não fazer. No museu, a obra do pintor é apresentada ao público por andares: cada fase, um andar. No último andar, os quadros são poucos. Quatro, apenas. Nos seus últimos dias no sanatório, Vincent Van Gogh teria, efectivamente, pintado menos. Lembro-me que o caqui e o castanho-argila, cores que nunca associei ao meu pintor de céus estrelados e girassóis, bateram-me naquele verão em cheio no osso do peito. |
quinta-feira, 29 de março de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
A Aula de Música
terça-feira, 27 de março de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
Diz que é uma espécie de épica - 3
"Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se."
domingo, 25 de março de 2012
Obituário: António Tabucchi (1943 - 2012)
“Daqui a pouco, quando deixar de ouvir a minha respiração, abra essa janela de par em par, deixe entrar a luz e os barulhos do mundo vivo, são seus, meu é o silêncio. E vá-se embora imediatamente, feche a porta e deixe ficar o cadáver, aquilo não sou eu, (...)”
António Tabucchi
Tristano morre
sexta-feira, 23 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
Deus me perdoe
quarta-feira, 21 de março de 2012
Do dia - 21
A Forma Justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Nome das Coisas
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Nome das Coisas
Do dia - 20
Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda
Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome
José Tolentino Mendonça
O Viajante sem Sono
escolhe o relento
a noite tem brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda
Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome
José Tolentino Mendonça
O Viajante sem Sono
Do dia - 19
Possibilidades
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em fila para o número.
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.
Wislawa Szymborska
Paisagem com Grão de Areia
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em fila para o número.
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.
Wislawa Szymborska
Paisagem com Grão de Areia
terça-feira, 20 de março de 2012
segunda-feira, 19 de março de 2012
Do dia - 18
![]() |
| Henry e Jane Fonda, s/a, s/d O Dia do Pai começa por ganhar importância nos primeiros anos de escola, mas, por incrível que pareça, esta coisa moderna de os filhos prepararem na escola prendinhas para oferecer ao pai no seu dia, o mítico postal, não é de agora. Fontes referem que há cerca de 4000 anos na Babilónia, o jovem Elmesu teria moldado o primeiro destes cartões em barro. Nele, desejava sorte, saúde e longa vida ao pai. No entanto, terá sido apenas em 1909, nos EUA, que uma rapariga, Sonora Louise Smart Dodd, terá decidido levar a cabo a institucionalização deste dia que no seu país se celebrará sempre em Junho. Sonora perdera a mãe aos 16 anos e, única filha mulher e mais velha do casal, terá ajudado o pai a criar os irmãos mais novos, num percurso cheio de desafios em que a admiração que a figura paterna lhe terá grangeado, levou à criação de um dia homólogo ao da mulher e, consequentemente, a uma visão mais globalizante e congregadora da educação e das funções parentais, de inegável actualidade. Em 1972, Richard Nixon torna oficial o Father's Day. A fotografia que encima este post levou a melhor relativamente a uma série de outras que tinha guardadas para hoje. Acho que porque um dia todas as meninas têm o olhar de Jane Fonda. Depois crescemos, o brilho apaga-se, e conseguir amar os nossos pais nas suas fraquezas, no seus defeitos, na sua humanidade, é a prova maior da força deste amor de sangue, coração e história, laços para a vida. Há dois ou três dias no ano em que voltamos a ser pequeninos, eu sei que volto, hoje é um deles. |
sábado, 17 de março de 2012
Gente gira - 7
sexta-feira, 16 de março de 2012
Sexta-feira
É este o primeiro single do álbum de Boss AC, "AC Para Os Amigos", já à venda. Qualquer semelhança com esta crise global que, até prova em contrário, se instalou mesmo para ficar não é mera coincidência.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Albert Einstein (14 de Março 1879 - 1955)
![]() |
| A secretária de Albert Einstein (1955), Ralph Morse - Time & Life Pictures |
Por que celebra o Google, hoje, o aniversário de Akira Yoshizawa, o criador do origami, em detrimento do de Albert Einstein é algo que me ultrapassa em absoluto e, pessoalmente, emotivamente, quase me ofende. Tenho na minha secretária, de tempos a tempos tão desorganizada quanto esta, sob o candeeiro, um origami oferecido por uma amiga muito querida. Associarei sempre origamis a boas pessoas, boas manhãs, boas tardes, sempre, mas sempre, a coisas boas. Já sei que o senhor Akira morreu há poucos anos, mas mais: cometeu a proeza de vir ao mundo num 14 de Março e partir noutro 14 de Março. Dois 14 de Março, numa vida assim bonita, é obra, sem dúvida. Mas, como não lembrar o génio e a figura de Einstein, cujos trabalhos revolucionaram a Física e com ela o conhecimento que temos do mundo, do nosso mundo, actualmente? A teoria da relatividade, a física quântica, a física estatística, o efeito foto-eléctrico, as flutuações termodinâmicas, ou o Manifesto Russell-Einstein não são do domínio público, mas todos, todos, usamos Einstein como sinónimo de génio. É um universal linguístico: tanto se diz/ouve em Português, em Inglês, em Francês, em Espanhol, etc. "A ordem é um fenómeno da escassez", diz Bertold Brecht, tanto quanto diz esta secretária. Mais do que o Nobel, impressionam nesta vida totalmente dedicada à ciência, e parcialmente à violeta, os 300 artigos científicos que publicou, para além de 150 outros trabalhos de natureza não-científica, impressiona esta inteligência e este trabalho incansáveis, originais, extraordinários. Princeton ficou para sempre mais pobre. Nós, os que queremos saber, também.
domingo, 11 de março de 2012
Da minha infância
A minha infância é a minha avó a dar-me a comida à boca, passeando-me pelo quintal. A minha avó tinha um quintal imenso com centenas de avencas e fetos. E a comida ia.
sábado, 10 de março de 2012
Max Aub no Porto
É hoje. É no Gato Vadio (Gato Vadio: Rua do Rosário, 281, Porto). "Crimes Exemplares", de Max Aub, lidos por Osvaldo Manuel Silvestre e Rui Manuel Amaral, pelas 17h00. A menina recomenda.
Não percam!
sexta-feira, 9 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
Dia Internacional da Mulher
![]() |
| Anjo (1998), Paula Rego (1935 - ) |
Não é de agora a desigualdade laboral entre homens e mulheres. Em 1857, um grupo de operárias de uma fábrica têxtil de Nova Iorque, que ganhava um terço do salário dos seus colegas homens, convocaram uma greve para reivindicarem a redução do dia de trabalho de 16 para 10 horas. Em resposta à luta, foram trancadas na fábrica e queimadas vivas. 130 morreram. Enquanto dia político, de chamada de atenção para os direitos inalienáveis das mulheres, este dia celebrou-se como Dia Nacional, por iniciativa do Partido Socialista da América, a 28 de Fevereiro de 1909 em Nova Iorque. Mas seria apenas no ano seguinte, em Copenhaga, no encontro da Internacional Socialista, que um Dia da Mulher, de carácter internacional, mas sem data fixa, foi determinado e estabelecido com a finalidade de honrar o(s) movimento(s) pelos direitos da mulher e simultaneamente arranjar apoios para que aquela pudesse ter direito de voto.
Ao longo da história, este dia tem servido de base a vários protestos, pelo que ainda hoje é válida a promoção de uma participação equalitária dos dois géneros no desenvolvimento sustentável, na construção da paz e na luta pelo respeito dos direitos humanos, etc.
Pensamos na mulher assim, há quem a considere assim, entra-nos, mais do que devia, em casa, à hora do jantar, assim, assim e assim. E, vinte segundos depois, assim. A imagem clássica é a modos que assim ou assim e (quase) ninguém sabe o sofrimento e a vida dura de alguém assim. Há caminho feito, é certo, mas o caminho é longo e os andadores são poucos.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Morrer só o estritamente necessário
Em seu artigo publicado no jornal Il Foglio Quotidiano (ano XVII, n. 29, pag. 2), na sexta-feira posterior à morte da autora, o crítico italiano Alfonso Berardinelli fala em “ceticismo produtivo”, citando a própria poeta, em sua declaração de que “O poeta moderno é cético e desconfiado”, segundo ela, “também – e talvez, sobretudo – nos confrontos consigo mesmo”. Mas se este ceticismo e desconfiança em relação ao poeta e à poesia no mundo contemporâneo levavam-na a uma textualidade de hesitações diante do que anteriormente, entre os poetas românticos, por exemplo, seria visto como a busca de verdades ou o que mais se aproximasse destas, Wisława Szymborska nunca temeu buscar no mundo e suas ocorrências e catástrofes uma espécie de parâmetro ou balança moral e ética que, ao mesmo tempo, parece ligá-la justamente àqueles poetas românticos que viam na natureza uma manifestação do divino. Cética, sim, mas nascida em um país tão marcado pela cultura judaico-cristã como o é a Polônia, a estes parâmetros e verdade intuídos no que chamaríamos de leis (tão pouco misericordiosas) da natureza, e aí reside talvez sua diferença em relação aos poetas românticos que a precederam, como Blake ou Keats, a busca por conhecimento na poesia da polonesa parece operar-se entre o que se aprende com a natureza e o que se desaprende com a História. Em seu trabalho, conhecimento e sabedoria não parecem ser operações de adição ou acumulativas. Pelo contrário, a poeta parece dizer que é por subtração de certezas que chegamos a algumas verdades talvez ligeiramente menos instáveis. Seu poema sobre a estratégia da holotúria diante de seus predadores parece-me bastante emblemático neste aspecto. Se cedo ou tarde a existência há-de devorar-nos, Szymborska sugere que colaboremos com o que tanto tememos justamente para postergá-lo. Parece-me um pensamento de grande coragem, de uma tenacidade ética gigantesca. Em seu discurso On courage and resistance, quando recebeu o Prêmio Oscar Romero, a escritora norte-americana Susan Sontag (1933 – 2004) — outra escritora tão apaixonada pela fortitude ética — escreveu: “Nós somos carne. Nós podemos ser perfurados por uma baioneta, feitos em pedaços por um homem-bomba. Podemos ser esmagados por uma escavadeira, fuzilados dentro de uma catedral.”
O Elogio de Szymborska por Ricardo Domeneck. Um texto precioso. A ler na íntegra aqui.
terça-feira, 6 de março de 2012
Maria Helena Vieira da Silva (1908 - 6 de Março de 1992)
A primeira vez que fui à Cinemateca foi por causa deste filme, por causa dela, do seu imenso talento, da sua generosidade extraordinária. Hoje é para mim importante recordá-la. Agora que o célebre "Para nascer, Portugal; para morrer, o Mundo." de António Vieira anda na boca de todos os políticos, opinion makers e afins vale a pena pensarmos no quanto sempre fomos capazes de receber o outro, but not our own.
domingo, 4 de março de 2012
A Vida É Um Sopro, Oscar Niemeyer
(...)
Isso aqui não me serve
Não me serve de nada
A decisão tá tomada
Ninguém vai me deter.
Que se foda o trabalho
Esse mundo de merda
É aí no Brasil
Que eu quero viver.
(Eu também, às vezes.)
sábado, 3 de março de 2012
Uma necessidade
- ¿Hoy hay alguna posibilidad de revolución?
- Mire al sur del Mediterráneo. ¿En nuestros países? No. La revolución es una necesidad, no una inspiración poética. No tiene que ver con una edad o con el temperamento, es una maldita necesidad. Y entre nosotros no existe esa necesidad. ¿Que hay injusticias? Claro, pero esta generación pide cuentas de la injusticia directamente a aquellos que la cometen, quiere dialogar con el poder, es fundamentalmente democrática, y las revoluciones no lo son."
Erri de Luca, autor amplamente traduzido no nosso país, cujo Caroço de Azeitona acabei de ler há pouco e recomendo vivamente, aqui.
O avô e o neto
Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido,
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!
Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes p’ra outro dia;
E toda a tristeza minha
Era, ao acordar, p’ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo.»
Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.
E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;
E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»
O centésimo post deste blog recorda o meu avô materno. Se fosse vivo, o meu avô, o único que conheci - o melhor do mundo -, completaria hoje 98 anos.
Diz o avô, entristecido,
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!
Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes p’ra outro dia;
E toda a tristeza minha
Era, ao acordar, p’ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo.»
Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.
E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;
E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»
Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
sexta-feira, 2 de março de 2012
D' A Naifa, de poesia, das minhas pessoas
A Naifa dá amanhã em Braga o primeiro de muitos concertos de apresentação do mais recente "não se deitam comigo corações obedientes", um disco com poemas de Adília Lopes, Ana Paula Inácio, Margarida Vale de Gato, Renata Correia Botelho, entre outras poetas nossas.
Eureka! - 2
"Se tens algo a dizer ou uma mensagem a comunicar, escreve uma carta. Um romance é para contar uma história."
A poesia da língua
«Os sons nasais a que não sei por que bulas se chamam ditongos. As labiais B e P difíceis, de trava- línguas. Os efes que enchem a boca de ar, ou fugidios fogem com fífias fúnebres e funestas, os emes matreiros e murmurados, os vês que no meu Minho se embriagam. Os dês duros e difíceis. Os tês que tropeçam. Aquele che da nossa desgraça beiroa e as sibilantes temerosas dos nossos esses mofinos. O zê que, como os plurais, às vezes se torna je. O éle que se entaramela na língua. O êne que, por fatalidade ibérica, às vezes se molha com um til que lhe não pertence. O erre que ou se engasga como o francês, em Setúbal e nos meninos de Cascais, ou se labializa, fluído de mais, como do dos japoneses falando poltuguês. O gê ora gutural e com que implicam os gagos ora suave como o jota.»
Assinar:
Postagens (Atom)















