sexta-feira, 1 de março de 2019

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Saudades de casa

Escrevendo sobre literatura de viagens, Paul Bowles disse que “não há nada que eu mais aprecie do que ler uma descrição exacta feita por um escritor inteligente daquilo que lhe aconteceu quando estava longe de casa”. Se à frase de Bowles retirar os adjectivos, ficará o leitor com uma ideia aproximada do relato que se prepara para ler e que narra a minha estadia breve na Madeira a fim de participar na 6ª edição do Festival Literário e de como, por mero acaso, descobri um suculento escândalo religioso dentro da comunidade inglesa da ilha no século XIX. 
Curiosamente, Paul Bowles visitou a Pérola do Atlântico em 1960, experiência relatada na revista Holiday e posteriormente incluída no livro Viagens. Chegou à ilha da única maneira que era possível na altura, por mar. Ainda não havia pista de aterragem e, segundo o escritor, o serviço de hidroaviões tinha sido suspenso dois anos antes. Entre outras coisas, ficou impressionado com a robustez física dos madeirenses, os seus rostos talhados à mão e a tristeza de que eram capazes num local unanimemente considerado pelos visitantes como abençoado. “Um pássaro pode pousar no pátio de uma prisão e levantar voo outra vez sem sequer perceber onde esteve”, disse-lhe um dos seus interlocutores, um sábio madeirense que definiu bem os frequentes desencontros culturais entre turistas e residentes, em qualquer parte do mundo. 
Cinquenta e seis anos depois, a Madeira é um lugar muito diferente daquele que Paul Bowles conheceu. Agora há uma moderna pista de aterragem que entra pelo mar para que os aviões não o façam. Quanto à robustez física dos madeirenses, tal como descrita por Bowles, como se se referisse a uma espécie montanhosa de homens, não a pude confirmar e os primeiros rostos em que reparei, os dos recepcionistas do hotel, não me pareceram especialmente artesanais. Simpaticamente recebido pelo pessoal da organização, almocei e fui descansar. 
A meio da tarde, da varanda do meu quarto, observei um casal de turistas, cinquentões, estrangeiros, num inesperadamente trepidante desafio de ténis de mesa. Lembrei-me de uma passagem de um romance de Penelope Fitzgerald em que, referindo-se aos reformados de uma típica aldeia inglesa, dizia que, a certa altura, se tinham dedicado à aguarela. O pior, segundo a narradora, é que eram todos bastante bons. Este casal de mesa-tenistas também me surpreendeu não só porque estavam os dois devidamente equipados como por demonstrarem um assinalável domínio do jogo. A mulher era uma virtuosa dos ataques contínuos, submetendo o seu par a rajadas consecutivas a que ele, numa exibição de enorme solidez defensiva, respondia com um mínimo de desespero, um estoicismo destinado a esperar o erro da adversária que, na voracidade do ataque, perdia lucidez. 
Os quinze minutos que dediquei à observação deste confronto foram dos melhores da minha estadia na Madeira. Foram, sem qualquer dúvida, os mais agonísticos visto que, apesar do que se diz do meio literário, estes encontros decorrem num clima de urbanidade e respeito, nos limites da deferência. Nos melhores casos, reinam a hipocrisia e a dissimulação que a nossa civilização levou séculos a aprimorar e que algumas bestas, em nome da sinceridade e de outras deficiências de carácter, gostariam de destruir. 
Saí do hotel e dirigi-me ao centro da cidade. No caminho cruzei-me com alguns ciclistas, poucos, mas em número suficiente para perceber que nem o relevo acidentado de uma ilha vulcânica desencoraja o extremista dos velocípedes. Apesar disso, é muito maior o número de transeuntes que se servem de canadianas, andarilhos, cadeiras de rodas ou dos braços sardentos e flácidos dos seus companheiros de viagem. Ao reparar nas centenas de sexagenárias britânicas que se passeiam pela cidade, não pude evitar o pensamento algo perverso e infantil que nem o repouso insular nem o clima unânime impediram que uma delas, talvez não representativa do todo, mas cujo caso não se pode ignorar, se tenha atirado às águas do Atlântico, perseguindo a nado, loucamente, um navio de cruzeiro, num daqueles actos que a literatura considera sublimes e os médicos da Casa de Saúde Câmara Pestana, recorrendo a pesados compêndios comidos pela traça, tratam prosaicamente com os poucos meios que restam ao estado social. 
Ter Esperança 
Caminhava sem um destino concreto, melhor, sem um itinerário rígido porque, na verdade, ia à procura da livraria Esperança, cuja fama já conhecia antes sequer de ter embarcado no avião e que, depois disso, já me tinha sido recomendada duas ou três vezes por entusiastas, cujo encantamento atribuo menos à sumptuosidade da livraria do que aos anos e anos de frequência de livrarias de centro comercial, sem alma, sem personalidade e, algumas, até sem livros publicados há mais de dois meses. A Esperança – justo nome porque os que ali entram fazem-no com a tranquila expectativa de encontrar o livro que procuram, qualquer que seja –, que encontrei mais de uma hora depois de a isso me ter proposto, tem aquela disposição enganadoramente caótica de certas bibliotecas pessoais afluentes e ao visitar cada um dos três pisos do estabelecimento, o leitor entra num mundo de auto-suficiência epistémica, um lugar dentro da cidade mas dela independente, uma cidade-estado, um enclave com leis e costumes próprios, embora não tão organizado a ponto de se preocupar em codificá-los. 
Será acertado dizer que, mais do que a um fruto do obstinado espírito humano, a Esperança, no seu emaranhado de 107 mil volumes – de histórias da Condessa de Sègur a um volume de homenagem ao Liceu Salvador Correia, em Luanda, da dramaturgia de Jaime Cortesão à arquitectura de Raul Lino, de inúmeras biografias de Che Guevara a estudos sobre as aparições de Fátima, dos vários volumes da história das mulheres à investigação de Marianna Birnbaum sobre essa mulher fascinante do século XVI, a judia portuguesa Gracia Mendes – se assemelha a uma floresta, um território tão favorável ao papel dos livros como o clima e o solo da Madeira são propícios a todos os tipos de vegetação. 
Diz-se que ao chegarem à Madeira, os portugueses deitaram fogo à ilha e que esse incêndio incontrolável foi um inferno que durou sete anos, mas que a natureza não demorou a cobrir de novo a terra de um manto de múltiplos verdes e outras cores. Por obra das viagens dos navegadores e das trocas ocasionadas pelas mesmas, acrescentou-se à flora local espécies trazidas de outras paragens, sobretudo tropicais, e que aqui medraram como se nunca houvessem conhecido outro solo. Ao percorrer os apertados espaços entre estantes, ocorreu-me a ideia fatal de um incêndio e de como todo aquele património acumulado ao longo dos anos desapareceria em pouquíssimo tempo, consumido pelas chamas. Porém, é fácil acreditar na ilusão de que há nesta livraria qualquer coisa incerta e rara e que, por essa razão, tudo o que o fogo consumisse a própria natureza do lugar trataria de repor. Bem sei que, acontecendo uma tal tragédia, o desfecho não seria tão afortunado, mas a luxuriante vegetação bíblica desta casa com mais de cem anos inspira-nos ideias absurdas e distorce a ideia que temos do poder efectivo dos livros sobre a realidade. 
Só que antes de ter chegado à Esperança, tinha-me de facto perdido. Quando dei por mim, estava numa pequena rua de nome de maus augúrios: Rua do Quebra-Costas. Ao olhar para o fim da rua, vi a escadaria íngreme que conduz a outro arruamento e que, quase de certeza, era a razão para tão peculiar topónimo. Avancei até meio, fiando-me numa inspiração de última hora que me salvasse do confronto com os aparatosos degraus, e então reparei que, à minha esquerda, havia uma clínica dentária e, do lado oposto, um portão aberto e uma placa a indicar a igreja inglesa. O edifício de linhas neo-clássicas, modesto como uma biblioteca, é de uma elegância parlamentar. Infelizmente a igreja estava fechada e, por isso, limitei-me a passear pelo jardim tranquilo, onde me cruzei com uma senhora portuguesa de bata que, acompanhada de uma cadelinha muito velha e cega de um olho, ia recolhendo as folhas do chão. No muro à volta, azulejos assinalam as estações da via-sacra, placas singelas homenageiam antigos servidores da igreja, familiares dos fiéis perecidos na I Grande Guerra, amigos, desconhecidos. Num dos bancos do jardim, uma placa lembra Sandra Berry (1950-2005), “a faithful servant and a true friend.” Quando passei o portão, de volta à rua do Quebra-Costas, já tinha planeado o meu regresso no dia seguinte. 
O jogo em cima da mesa 
O jantar de quinta-feira foi ao ar livre, nas imediações do casino. Alguém, cujo nome a bebedeira que se seguiu varreu-me da memória, aproveitou a ocasião para elaborar um panegírico à arquitectura de Oscar Niemeyer, ao seu empenho cívico e, como se falasse de uma tartaruga centenária, à sua longevidade. Então falou sobre curvas e a inspiração para as mesmas, a orografia brasileira, tão amada pelo arquitecto, e a linha recta, por ele tão odiada, mas que dá muito jeito quando se tem pressa. Outro dos presentes, quem também já não sei, murmurou que aquilo era arquitectura bêbeda, vistosa. 
A discussão foi interrompida quando um de nós, menos interessado em discussões geométricas reparou que, aos quinze minutos de jogo, o Liverpool já perdia por 2-0 com o Borussia Dortmund para a Liga Europa. O que se seguiu foi um dos grandes momentos na história dos festivais literários em Portugal e o mérito é todo de Jürgen Klopp, essa idealização do treinador-estrela cujo comportamento, alternando entre o nonchalant e o furioso, sugere que tudo o que acontece de bom às suas equipas não têm tanto que ver com o seu génio táctico, sendo antes uma espécie de vénia que o universo lhe faz, um agradecimento cósmico por ele ter escolhido tão bem a sua profissão. Claro que a perder por 2-0 nenhum treinador é genial e o 3-1 contra a sua antiga equipa parecia enterrar antecipadamente a lenda de Klopp. Depois de o Liverpool ter encetado a recuperação, tivemos de interromper por várias vezes a refeição, para nos certificarmos do que estávamos a testemunhar. Quando os ingleses empataram, alguém – dessa vez fui eu – percebeu que um quarto e salvífico golo aos 90 minutos não só era previsível como se tornara inevitável. Portanto, o salto aparentemente tresloucado que dei no momento do golo tinha alguma profundidade filosófica: mesmo que tudo esteja escrito não nos devemos abster de festejar quando isso acontece. 
Quando subi para o quarto, Klopp ocupava-me dois terços do espaço mental. O restante terço aproveitei-o para visitar o site da Holy Trinity Church da Madeira. O sono e o álcool não foram suficientemente fortes para que eu não reparasse no nome de um capelão – reverendo Richard Lowe – cuja substituição, na década de 40 do século XIX, tinha sido directamente solicitada pelos fiéis à rainha. Fiquei de investigar o assunto no dia seguinte e adormeci em dois segundos, não sem antes pensar uma última vez em Jürgen Klopp. 
Na manhã seguinte, desci para o pequeno-almoço um pouco antes das nove horas. Do cimo da rampa que dá acesso ao restaurante a visão é extraordinária. O espaço, amplo e com vista para o Atlântico, recebe uma generosa luz que transforma aquilo que pode parecer uma gaiola envidraçada num miradouro futurista. Depois de alimentado, fui para o exterior, junto da piscina, de onde se vêem os navios de cruzeiro atracados. Ao mesmo tempo, e esse é que é o espectáculo digno de nota, a luz flutua por entre as nuvens em fulgurações caprichosas como se planeadas por um designer de luz, como no momento em que um raio de sol incidiu verticalmente sobre um pequeno ponto no mar, lembrando os ensaios de uma peça. 
De regresso ao hotel, cruzei-me com o casal que vira no dia anterior a jogar ténis de mesa e, pela maneira como falavam um com o outro – com a firmeza polida dos militares – e como andavam – resolutos, ágeis – reforcei a impressão de que entre os dois havia a tensão física de quem se apresta a entrar em competição. Eram o contrário daqueles casais adoráveis em que a simples postura à mesa conta a história da progressiva adaptação de um ao outro, casais a quem o desgaste natural dos anos, em vez de afastar, aproxima, eliminando as arestas próprias daquela idade tão nociva para os amores em que ainda se tem a impertinência da juventude e o encantamento inicial já se perdeu. Calculei que este casal seria de uma têmpera diferente e diferente seria a sua história: a de dois espíritos competitivos que, em conjunto, se estimulam e exasperam, fazendo da paixão uma longuíssima batalha pois sabem que uma certa dose de belicismo é necessária para que no amor – sobretudo no amor – se realizem feitos grandiosos. 
Dirigi-me de imediato à Rua do Quebra-Costas. Desta vez, encontrei a igreja aberta. A autoridade emanada por um edifício como este é de natureza muito diferente da de uma igreja católica. Aqui, a autoridade, rigorosamente humana, é mais civil do que transcendente. O edifício não foi construído para maravilhar, nem para comover, mas para se impor pela justeza inequívoca das suas propostas. Ao fundo da igreja, de frente para o púlpito, há quatro painéis circunspectos com a declaração de fé, os dez mandamentos e o Pai-Nosso. A simplicidade é a de um edital: a crença, os deveres e a oração como os pilares de uma vida boa. Ao centro, está o real brasão de armas do Reino Unido com a divisa de Henrique V, “Dieu et Mon Droit”, e a divisa da Ordem da Jarreteira, “Honi Soit Qui Mal y Pense”. 
Como no exterior, ali dentro há várias placas em memória de antigos membros da igreja. Por exemplo, é lembrado Robert Trail que, em Maio de 1914, casou naquela igreja com Mildred, filha de Charles John Cossart. Robert morreu a 1 de Dezembro de 1917, perto de Cambrai, durante a I Guerra Mundial. Dois anos depois, a 23 de Dezembro de 1919, o seu sogro morreu e é também recordado numa placa afixada atrás do púlpito, onde se pode ler a seguinte frase: “A good life hath but a few days. But a good name endureth forever.” Outra figura homenageada é a do cirurgião Michael Grabham que, durante quarenta anos, serviu no hospital Victoria Jubilee, em Kingston: “To the relief of human kind he dedicated his rich talents, rare gifts and the fruit of assiduous research study to show thy self approved unto God a workman that needeth not to be ashamed.” Por fim, há uma placa em memória de Edmund O. Krohn, nascido na Madeira a 13 de Novembro de 1898. Era Segundo-Tenente do 84º Esquadrão da RPC (Royal Pioneer Corps). Morreu em combate aéreo perto da floresta de Saint Gobain, a 1 de Março de 1918, aos dezanove anos. Os pais homenagearam-no desta forma simples. 
Estas placas que lembram os mortos têm toda a dignidade da dor contida e nada do patetismo do sofrimento exibido como galardão. Uma pequena placa num banco de jardim, um azulejo num muro, uma dedicatória numa árvore extraem da morte o seu carácter grotesco, desumano. Mesmo se descontarmos alguns exageros, a crença no valor do bom nome, no trabalho honrado ao serviço dos outros, na dedicação ao bem comum, está longe da celebração meramente piedosa e sentimental do falecido. Além disso, as homenagens, apesar de simples, têm um poderoso efeito cumulativo, como se mesmo aqueles que morreram há um século ou mais, continuassem ali, integrados na comunidade dos vivos, como se a igreja vazia pertencesse tanto a uns como a outros. 
Nesse momento, entrou uma senhora que recolheu os donativos da caixa verde à entrada. Dei-lhe os bons-dias e perguntei-lhe se haveria alguém com quem eu pudesse falar sobre a história da igreja. 
 – There is Kevin, but he lives in the northern part of the island – e acrescentou que Kevin só vinha uma ou duas vezes por semana. Quis ajudar-me de alguma maneira e deu-me uns folhetos com informações úteis sobre a igreja. Por cima da porta da entrada, estava a lista de todos os capelães que serviram a igreja, entre os quais R. T. Lowe. Mas para saber mais sobre ele teria de pesquisar na net e só à noite teria tempo de o fazer. 
 
A ilha desconhecida 
Durante o resto do dia, a parte mais elevada da ilha permaneceu velada pela neblina persistente capaz de atenuar as saudades de casa dos britânicos que, por força do convívio, contraem esse mal latino e que a nós, amantes do desporto-rei, tanto aporrinha pelos incontáveis adiamentos de jogos que lhe devemos. 
Por falta de tempo e energia, não me aventurei para além do centro do Funchal, pelo que tudo o que possa dizer sobre a ilha é fundamentado por observações superficiais num espaço bastante limitado durante um curto período de tempo. No entanto, certas impressões são tão fortes ou tão forte é a necessidade de o escritor as registar que, confrontado com as mesmas, nenhum polícia literário lhes poderá exigir mais do que a obediência à gramática. Veja-se o caso de Raul Brandão, que passou pela Madeira a caminho dos Açores, viagem relatada em As Ilhas Desconhecidas. Nas poucas horas que aqui esteve – uma tarde – não saiu do navio: “Fico todo o dia a bordo, deslumbrado, contemplando a Madeira, a embeber-me no espectáculo da luz, que passa do cinzento ao azul e se modifica a todos os momentos, até ao fim da tarde, em que o mar se torna diáfano e os montes transparentes, com uma grande nuvem pousada em cima.” 
Não sei se o mar, ao fim da tarde, se torna diáfano e os montes transparentes, mas sei que se não tivesse lido estas linhas antes de ter visitado a Madeira certas particularidades da luz ter-me-iam passado despercebidas e, no sábado de manhã, teria ignorado a neblina a desfazer-se nas encostas, como o derradeiro fumo de um incêndio já extinto. Daí que tenha de confiar que, do confronto entre o pouco que vi e o pouco que sabia, alguma verdade me tenha sido revelada. A Madeira, dizem, é um jardim, e naquelas centenas de metros que tive ocasião de visitar é visível o esforço para que a afirmação não possa ser desmentida. Coincidiu a minha visita com a Festa da Flor. Acontecimento menor, se comparado com o fim-de-ano ou o Carnaval, é um barómetro fiável do modo como a Madeira se quer apresentar ao visitante ocasional. Há tapetes de flores espalhados pelas ruas numa profusão infantil de cores. Ao lado de outros turistas vi quatro raparigas em idade núbil, criteriosamente escolhidas e certamente remuneradas, que desfilavam com trajes que deverão menos a tradições vetustas do que à necessidade em fazer de toda a área um laboratório de explosões cromáticas para as quais concorrem também os táxis de um berrante amarelo-Caracas. Esta parte da cidade é uma imensa sala de visitas e tudo o que se pode deduzir é o aprumo dos anfitriões, a sua preocupação em receber bem, mas nada das suas vidas interiores, o que só é mau se estivermos interessados em fazer literatura. 
Fora estas considerações, ocupei o dia com uma entrevista à RDP Madeira, participei no debate sobre religião para o qual fui convidado e que decorreu sem episódios dignos de nota e jantei sushi num restaurante em que os funcionários, tão liberais no fornecimento de vinho, nos compensaram dos almoços no hotel regados a água e Brisa de maracujá. Uma chávena de café ajudou-me a despertar para finalmente fazer uma pesquisa mais demorada sobre o reverendo Richard Lowe. Eis o resultado dessa inquirição: 
O nome de Richard Thomas Lowe (1802-1874) figura na história de Inglaterra graças a dois factos, ambos relacionados com a Madeira. Lowe chegou à ilha em 1826 para acompanhar a mãe tuberculosa e com uma bolsa da universidade de Cambridge para estudar a fauna e a flora locais. Em 1831 publicou em Inglaterra um livro – Primitiæ Faunæ et Floræ Maderæ et Portus Sancti – com o resultado do seu trabalho de exploração ao mesmo tempo que assumia um papel de destaque na igreja inglesa, cujo edifício fora concluído em 1824 sobretudo devido ao empenho do então cônsul, Henry Veitch, responsável pelo projecto arquitectónico e principal angariador das verbas para o concretizar. A posição proeminente de Veitch era incontestável, o que levantava problemas recorrentes com o capelão W. W. Deacon, de quem Lowe era bastante próximo. Numa querela por causa da remuneração, Deacon foi para Londres de licença e Lowe substituiu-o provisoriamente. Como não há nada tão permanente como uma decisão provisória, Lowe acabaria por passar os quinze anos seguintes como capelão da igreja anglicana na Madeira, um cargo que podia agradecer às intervenções insidiosas de um grupo liderado por um tal Stoddard, comerciante inglês que detestava o cônsul. No entanto, os verdadeiros problemas de Lowe começaram quando ele, influenciado pelo Oxford Movement (um movimento tradicionalista no interior da igreja anglicana que procurava recuperar alguns dos costumes litúrgicos anteriores à Reforma), tentou introduzir algumas alterações escandalosas, como a marcação de um culto ao fim da tarde de Domingo ou a recolha de ofertas após a comunhão. Desorientado, o cônsul apresentou queixa de Lowe ao Ministério de Negócios Estrangeiros, mas foi o próprio Veitch a ser substituído depois de terem circulado rumores sobre o seu comportamento adúltero e de o terem acusado, de forma bastante criativa, de se ter dirigido a Napoleão Bonaparte, que fizera escala na Madeira a caminho do exílio em Santa Helena, como “Sua Majestade”. O seu lugar foi ocupado por Stoddard.  
O idílio durou pouco. Durante uma licença em Inglaterra Lowe casou-se com a filha de um clérigo. Em 1843, instalados na Madeira, perceberam que a comunidade estava completamente dividida. Muitos fiéis, quando se cruzavam com a mulher de Lowe, mudavam de passeio. Stoddard zangou-se com o capelão e passou para o outro lado da barricada. A partir daí sucederam-se as cartas enviadas por representante de ambas as facções para o Bispo de Londres e para Lord Palmerston, o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Além disso, os detractores de Lowe resolveram enviar uma exposição do caso à rainha Vitória em que acusavam o capelão dos crimes – gravíssimos neste contexto – de “inovação” e “mudança” e da ofensa maior de ter alegadamente feito a oração de costas para a congregação. No entanto, manobras diplomáticas evitaram que a carta tivesse chegado às mãos da soberana. Palmerston, também pressionado pelo conservador Benjamin Disraeli, exigiu a Stoddard que tomasse medidas para controlar o escândalo e autorizou a destituição imediata de Lowe. 
Porém, o capelão, cuja figura ascética, quase espectral, impressionara os compatriotas vinte anos antes, não era homem para desistir à primeira. Assumiu a ruptura e, juntamente com os seus apoiantes, fundou na rua das Aranhas uma igreja que ficou conhecida como a Becco Church. Na década de 50, quando o reverendo Lowe regressou a Inglaterra, muitos fiéis voltaram à casa-mãe, mas a Becco manteve-se aberta durante quarenta e cinco anos, até 1893, quando as facções desavindas se reconciliaram. Porém, a memória do escândalo – considerado o maior da história da comunidade inglesa na ilha – permaneceu. Em 1990, Roy Nash, autor de livros como Explaining Inequalities ic School Achievement: A Realist Analysis e Schooling in Rural Societies, publicou uma obra intitulada precisamente Scandal in Madeira (para quem se interessar por estas curiosidades, diga-se que no site Goodreads os 14 livros de Nash só têm duas votações, ambas de três estrelas). 
No dia seguinte, ao arrumar a minha mala, já não era em Jürgen Klopp e no dramático apuramento do Liverpool que eu pensava mas sim nas sumaúmas, grevíleas e barbusanos que encontrei enquanto passeava pelo jardim; pensava nos três pisos da livraria Esperança e no incêndio que o medo me fez imaginar, na singela e comovente homenagem pública a um tal João de Almada que durante anos cuidou dos jardins da igreja e do cemitério inglês; pensava no azulejo com que um casal decidiu lembrar os mortos na enxurrada de 2010 prometendo que não seriam esquecidos; nessa última manhã na Madeira, era no busto de João Fernandes Vieira, libertador de Pernambuco, na rua de São Francisco que eu pensava e pensava nas raparigas de vestidos cor-de-rosa que se ofereciam ritualmente às objectivas indecorosas dos forasteiros; pensava no casal do ténis de mesa (ainda interrompi as arrumações e espreitei lá para baixo mas a mesa estava vazia e daquele casal de combatentes do amor não havia sinal), pensava nos táxis amarelos e, já a caminho do aeroporto, vendo as Desertas e desejando absurdamente ali refugiar-me um dia e lembrei-me uma última vez do monástico reverendo Lowe que, por motivos de saúde e porque o seu interesse pela natureza da Madeira nunca esmoreceu, regressou várias vezes à ilha. Em 1874 embarcou em Liverpool, na companhia da mulher, com destino à ilha que amava e à qual, por bons e maus motivos, sabia que o seu nome estava eternamente ligado. Perto das ilhas Scilly o barco naufragou e todos os seus ocupantes desapareceram. Richard Thomas Lowe não voltou a ver a Madeira.

Bruno Vieira Amaral, originalmente aqui, agora aqui

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Uma maiêutica

Vivi muito com ele, mais do que normalmente uma criança vive com o avô. A sua atitude comigo foi uma maiêutica. Ensinou-me a descobrir, a amar e a admirar. Mas ensinou-me também a escolher e a criticar. Ele dizia: "Nem todos os intelectuais são inteligentes." Com ele aprendi a rejeitar os exageros, o pedatismo e o cabotinismo (...)
Sophia sobre o avô, na Visão desta semana. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A verdadeira selfie

We are at the end of an era characterized by the self-portrait. This claim is not provocative—we’ve lived as characters for some time and have all felt it coming. So let me rephrase, we live at the end of an era characterized by relentless anxiety around the self as a product: what it means, who owns it, what it costs, what it’s worth. The word celebrity suggests that this value can be quantified and, generally, stands as a catch-all term for the collective disorders (disembodied desire, objectified anxiety, schadenfreude as catharsis) underpinning a cult of self. As two of the leading lights in male egomania, Elon Musk and Kanye West, enter ecliptic phases of digital self-harm, we see that a long-standing crisis is coming to the fore of the treatment of ourselves as characters. The similarity of their breakdowns is uncanny and no doubt representative of a broader crisis in charismatic authority nationwide. Like failed children of the Lacanian mirror stage, the reflection of their own, simplified self-image precipitates a meltdown instead of a progression. 
Yet this era was heralded years earlier, in 2007, when Britney Spears shaved her head and the onlooking public could only digest it as hysterical—the most misogynistic of characterizations. It now feels avant-garde: she assassinated her own character. Indeed, she reclaimed her self as something more than just a brand or commodity. By attacking her appearance (her hair, the root of so much aesthetic femininity) she drew attention to the ways in which our society attaches identity to women. In 2018, the ambivalence toward how to treat one’s digital self, how to create one’s “character,” is a particularly unwieldy knot for women. The collapse of the critical space between one’s personality and one’s online persona erases the distinction between self-expression and self-promotion. Every post now seems to fall into a dangerous trap.
We are currently confronted with questions that, until recently, seemed behind us. Is asserting self-love affirming and feminist, or is it playing into age-old misogynist reductions of women as fetish objects? Where do hashtag trends like “I woke up like this” and “celebrities without makeup” quite fit in? Do they acknowledge the pressures that women face in a gendered society, or do they simply obscure the means of beauty’s production? To break past this surface we must ask: where is the work? I mean, really, who seems to work anymore? All we see is women on vacation—cooly “off duty” in the day, beguilingly gowned at night. Studios and offices serve as backdrops for fashion shoots, not meaningful loci of productivity. All these women “woke up like this”: capturing and captioning themselves from the moment the dawn light began streaming in.
Consuming these images is stultifying. To be digitally femme means to bathe anxiously in the images of others and act impotently in response, liking a photo or congratulating others on their beauty. More stultifying is that this is done in spite of knowing the effort that went into each composition. The selfie is a cover-up, hiding both the means of its own production and the true self.
India Ennenga, Toward a More Radical Selfie

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

What is offensive?

Voltaire has become a kind of mascot for the free-speech side of this debate, and his encounter with the Duc fits the role perfectly. On this view, although Voltaire is outspoken and abrasive, he is ultimately on the side of reason and liberty. Those who take offence are like the Duc: they tyrannically silence others to protect their own sensitivities. The moral of the story is that we must not succumb to the temptation of censoring others, even if their speech is uncomfortable or painful to hear. After all, they are ‘mere words’. 
This argument is premised on a particular conception of what offence is all about. What makes something offensive is that it presents an unwelcome viewpoint that creates discomfort, bruises egos, and hurts feelings. When people take offence, they are trying to silence those who offend them. Call this concept of offence offence-as-hurt.
The main theoretical counter to this view is to argue that offence is not about ‘hurt feelings’, but about real harm. A large body of cross-disciplinary research shows that pervasive messages of exclusion or inferiority directed at disadvantaged or vulnerable groups can cause emotional distress and psychological damage. Words wound, and the wounds are no less real for not being physical. This view has frequently been used to argue for legal prohibitions on hate speech. Call this view offence-as-harm
There is a third possibility that is not often discussed but which, I will argue, does a better job of accounting for many contemporary conflicts over offence. Neither Voltaire nor the Duc would have seen their conflict as a matter of ‘offence’, properly speaking. In 18th-century France, ‘to take offence’ had a very specific meaning: to challenge another man to a duel. In duelling cultures, the challenge was nothing more than a gentlemanly convention for taking offence.To offend meant to insult or to disrespect, not to hurt one’s feelings. And to take offence was to reply to an insult by demanding a show of respect. I call this third alternative offence-as-insult
The duel of honour was a violent practice deeply associated with elitism and is therefore repugnant to today’s moral sensibilities. That said, focusing too much on the differences between offence in the two historical contexts can blind us to important parallels. If the duel seems exotic, the underlying norm of equal respect that was at the heart of honour should be more familiar. The first part of this essay will explain how the duel was used to defend equal status for all gentlemen. The second will show how the same basic concept of offence-as-insult that underlies duelling can make more sense of today’s controversies over offensive speech than either offence-as-hurt or offence-as-harm.
(...)
The concept of honour is the key to understanding such quarrels. Honour was a kind of status, entitling those who possessed it to respectful treatment from others. It was a general social status that, unlike modern legal status, applied across contexts, extending into every aspect of social life. It entitled the gentleman to respectful treatment in the drawing room and on the street, as much as in the courts. As long as this idea of honour held sway, civility manuals explaining the proper behaviour, in any context, towards one’s inferiors and one’s equals were enormously popular.

Clifton Mark, What is offensive? 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Monday mood (32)


Valorizo sobretudo quem trabalha. Há pessoas que valorizam quem é bonito, outras que valorizam quem tem dinheiro, fama, conhecimentos, poder, eu gosto de formiguinhas. Podia dar-me para pior.

Gosto do Ronaldo mais porque ele é trabalhador do que propriamente por ser meu conterrâneo. Mas reconheço na humildade e na abnegação de quem trabalha todos os dias sem se queixar e sem atender ao ruído à volta características do sítio de onde venho. Voltando ao Ronaldo, não faço ideia se ele violou ou não a menina, que tem nome, que não se pode deixar sem nome: Kathryn. Confesso que essa possibilidade me perturba, confesso que já não posso ver a cara nem de um nem de outro, sobretudo  porque me perturba a certeza de, no nosso tempo, neste mundo, nunca o virmos a saber. 

Parece-me também que é muito fácil a quem tem dinheiro, fama, conhecimentos, poder – no fundo é sempre o poder – usar e abusar de quem o não tem, sem sequer o valorizar – perceber, percebem sempre, vá. E também não me surpreende (muito) que, a reboque do feminismo e dos novos movimentos entretanto nascidos, muita menina aproveite para tentar melhorar a sua situação financeira. O que é pena, porque enfraquece a ideologia e descredibiliza os movimentos. 

Ainda assim, o abuso (sexual, moral, etc.) não é de hoje mas é uma realidade ainda hoje, não temos como negá-lo. E se vitimiza mais as mulheres do que os homens, isso resulta da assimetria inerente à relação de poder que coloca tendencialmente o homem no topo da hierarquia. Quando assumirmos isto como sociedade, sem excepções e sem adversativas, quando o não que se diz for o não que se ouve, quando houver mais mulheres no topo da hierarquia – sim, sim, é disto que se trata também – talvez se possa ouvir melhor. 

Não é não é não é não é não é não.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Da divindade do algoritmo

In the ancient world, sortition and the casting of dice or lots (procedures grouped under the heading of cleromancy) were in use at some of the most important points in personal and political life. Election by lots was an integral part of the democratic process in ancient Greece — above all, in Athens. In the Hellenic and Hebraic paradigms alike, the randomness of the outcome was seen as an expression of divine will, which could take care of the future much better, more successfully and wisely than humans with their finite knowledge. Chance stood for a higher necessity, inaccessible to our faulty reasoning and dim awareness of causes and their effects. The Roman goddess Justitia, who later became Lady Justice, was depicted blindfolded, suggesting not freedom from prejudice but that only divine indifference could neutralize the biases as well as the familial, affective, and other attachments that inevitably persist in human decision-making.  
One can imagine a modern instantiation of sortition in public life: electoral tie-breaks decided by casting lots, for instance, or the randomization of waiting lists for organ donations. More often, however, our hopes of deliverance from bias are transferred onto algorithmic decision-making systems, which have been broadly implemented across contemporary societies, ostensibly in hopes of making employment, financial, legal, and other decisions fairer. Many human resource managers, for instance, now resort to data-driven algorithms in order to sift through the pools of job candidates and make appropriate hiring decisions. The gods of old have been carried over into the present and the future in the shape of computational thinking, artificial intelligence, and technological innovation. Though many critics have pointed out how algorithmic systems often conserve rather than eradicate bias, stubborn faith in their superhuman ability to correct an essential flaw in our human condition persists. They allow people to “recuse” themselves from decision-making processes and avoid making sense of causal relationships and phenomena when these are too complex to parse. As a result, human actors believe they have mitigated their biases, as though prejudiced thinking could not be transmitted to and engrained in an automated process.  
Excessive reliance on algorithms not only masks the persistence of bias, but also threatens to make human experience itself appear totally random. It is as though the milestones of your existence, such as getting a job or receiving a rejection letter, befell you out of the blue, with no rhyme or reason, with no one to blame, to praise, or to hold responsible. Would you like to live in a world where everything happened without a why and a because? How would life feel, were you to perceive it, including every major and minor occurrence it was woven of, as part of a strange lottery? How would you string together the story of such a life? What, if anything, would there be to narrate? Where would the descriptors “good” and “bad,” “just” and “unjust,” belong in this mess? Does justice have any meaning outside of human deliberation? 
Michael Marder, Just Randomness.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O perigo do pensamento único

The act of ‘joining up’ to an absolute ideology involves a kind of winnowing. It happens when someone begins to see the world through the lens of a single story. Friction with a teacher at school, or a struggle to find work, or a neighbourhood becoming more culturally mixed, or casual racism begin to seem like facets of one simple problem. And simple problems offer the alluring prospect of simple, radical solutions.  
 (...)  
When Arendt argued that loneliness was the common ground of terror, she was not thinking of individual acts of terrorism perpetrated by those on the margins – but of the terror of authoritarian ideologies and governments being slowly embraced by society’s dominant majority. The ideal subject of these governments, she argued, was not a convinced extremist but simply an isolated individual, too insecure in himself to truly think: someone for whom the distinction between true and false was beginning to blur, and the promise of a movement was beginning to beckon.
Pais, professores, educadores, lede Nabellah Jaffer, In extremis.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

A forma da vida antes dos dinossauros


Last spring, the geobiologist Dominic Papineau and colleagues reported that fossilised microorganisms were identified in 3.77-4.28-billion-year-old iron-rich rock in Quebec: hematite tubes and filaments whose appearance is similar to microorganisms that today live in hydrothermal vents. Others dismissed their findings as ‘dubiofossils’, a term the geologist Hans Hofmann coined in 1972 to describe controversial fossils. ‘Fossils,’ Hofmann wrote, were proven biological; ‘pseudofossils’ resembled life but were inorganic; ‘dubiofossils’ (also known as Problematica or Miscellanea) were equivocal. No one is sure whether either of these findings has discovered ancient petrified organisms or not. 
For centuries, long before ‘biology’ coalesced as a discipline in the early 19th century, scientists struggled to understand what constitutes ‘life’. Millennia ago, Aristotle’s Scala Naturae (ladder of being) described arrayed nature on a continuum that advanced in perfection from rocks to humans (the Catholic Church crowned that ladder with God and the angels; Carl Linnaeus quietly removed them from his own taxonomy). The 17th-century naturalist Athanasius Kircher believed that vitalism was impressed in different substances, with mineral forces forming some fossils in an attenuated process similar to the growth of plants and animals. German Romantics of the 19th century such as Novalis and Johann Wolfgang von Goethe were captivated by caves, and thought the same individuating forces (Triebkraft) generating crystals climaxed in humans. ‘Life itself’ did not exist. All was organic. 
Today’s textbooks teach high-school students that life is marked by specific capacities – reproduction, metabolism, adaptation, self-organisation, growth. But biologists and other scientists are less resolute about what makes life unique. In 1943, Erwin Schrödinger answered the query ‘What is Life?’ as a physicist – it is a negative entropic system, like any other. Such thinking influenced mid-century molecular biologists, who borrowed cybernetic theory to think of life as signalling servomechanisms and homeostats made up of molecular ‘information’. DNA is still called a ‘code’ for a reason. At the close of the 20th century, different scientists also defined life according to chaos theory, thermodynamics and other physical processes. Computer scientists believed that they could generate artificial life on a computer. 
Geologists examining fossils in rocks help us to gain purchase on the conundrum of what constitutes life by identifying its remains. For relatively recent fossils – think dinosaurs – the answer is straightforward. Though extinct, their bodies look much like extant organisms: bilaterally symmetrical, bearing notable features such as skeletons, teeth and tails. But life was altogether different before the Cambrian Explosion 539-541 million years ago when, in an evolutionary paroxysm, most of the animal body forms we recognise today suddenly appeared. What, then, of the remains of first life-forms, those that lived and died on an Earth almost entirely unlike our own, at a time before continents accreted, when sulphurous seas stretched across a young planet beneath a pale Sun in an atmosphere devoid of oxygen, when tides surged and months lasted a mere 20 days? How would one recognise fossils that are 2.5 to 3.9 billion years old? 
This is one of the questions driving geobiology, a discipline that originated in the mid-20th century with precursors in older fields of palaeontology, geology and the life sciences. The big presumption of geobiology is the notion that Earth and life are mutually informing forces, and that our planet has changed in concert with the evolution of life. Searching for fossils on early Earth, a planet in many ways profoundly different from Earth today, resembles efforts to figure out what life might look like on Mars, icy moons and exoplanets. Such problems are not new. In the mid-19th century, naturalists debated whether a strange entity named Eozoön might be the first lifeform; mid-century geobiologists setting the guidelines for research in their new field hotly debated how to sort ‘real’ fossils from lifelike imprints in stone. Today, geobiologists’ work also helps us to think over how life on other planets might be identified. 
Though little known, a series of geological discoveries in the mid-19th century first suggested that there might be a longer history of palaeontology, one that reached deep into Earth’s antiquity, even to the origins of life itself. In 1858, the rock beneath the Cambrian stratum was not called pre-Cambrian; it was simply ‘Azoic’, because no one believed that life could be found there. Yet that same year, a collector for the Geological Survey of Canada found something curiously lifelike in Azoic limestone in the Laurentian stratum: ‘peculiar laminated forms, consisting of alternate layers of carbonate of lime and serpentine, or of carbonate of lime and white pyroxene’. William Dawson, a former student of Charles Lyell and then principal of McGill University in Montreal, examined the rocks. In On the Origin of Species (1859), Charles Darwin noted (in what is now known as ‘Darwin’s Dilemma’) that, if his theory of natural selection were correct, the fossil record should show organisms ‘before the lowest Silurian stratum was deposited’. Following Origin’s publication, scientific debate over the existence of originary fossils was volatile. Yet finding them proved difficult – if Darwin was right, then where were they? 
Dawson was an anti-Darwinist, but he recognised the patterns he saw as undoubtedly organic – he believed them to be the skeletal remains of giant foraminifera (single-celled organisms that grow hard external shells). In arguing that this rock was truly of organic origin, Dawson focused on what he termed the fossil’s ‘beauty and complexity’, noting a series of microtubules he was certain could not have been formed by purely physico-chemical means. In a patriotic flourish, standing before the Natural History Society of Montreal in 1865, he named the organism, which he believed to be the progenitor of all life on Earth, the ‘Dawn Animal of Canada’, or Eozoön canadense.
Vale a pena continuar a ler aqui

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A correr


“Deus nas alturas disse: Eu sou o que o meu servidor pensar de mim, e estou com ele quando ele se lembra de mim. Se se lembrar de mim na sua alma lembro-me dele na minha, se se lembrar de mim numa assembleia lembro-me dele numa assembleia maior do que essa, se se achegar a mim um palmo achego-me a ele um cúbito, se se achegar a mim um cúbito achego-me a ele uma braça, e se vier até mim a caminhar eu vou até ele a correr.”

Hadith sagrada (al-Bukhari, Kitab al-Tawhid, 15), tradução de Miguel Monteiro.

"يَقُولُ اللَّهُ تَعَالَى: أَنَا عِنْدَ ظَنِّ عَبْدِي بِي، وَأَنَا مَعَهُ إِذَا ذَكَرَنِي، فَإِنْ ذَكَرَنِي فِي نَفْسِهِ، ذَكَرْتُهُ فِي نَفْسِي، وَإِنْ ذَكَرَنِي فِي مَلَإٍ، ذَكَرْتُهُ فِي مَلَإٍ خَيْرٍ مِنْهُمْ، وَإِنْ تَقَرَّبَ إِلَيَّ بِشِبْرٍ، تَقَرَّبْتُ إِلَيْهِ ذِرَاعًا، وَإِنْ تَقَرَّبَ إِلَيَّ ذِرَاعًا، تَقَرَّبْتُ إِلَيْهِ بَاعًا وَإِنْ أَتَانِي يَمْشِي، أَتَيْتُهُ هَرْوَلَةً"

segunda-feira, 4 de junho de 2018

And yet... complicitity.

Desde pelo menos o ano passado, tenho andado a pensar nisto. A objectificação entra sempre à força na vida das mulheres, pois é de violência, e sobretudo de mulheres, que se trata. Violência disfarçada de amizade, dever, favor..., violência indisfarçada: desafio, provocação, desrespeito. Redunda sempre em repulsa, e como quase sempre acontece às mulheres, uma repulsa que não tem nunca um sentido único, que das questões de agenciamento e empoderamento o eu, claramente, nunca pode excluir-se. Não sei de quanto tempo precisamos, não faço a mais pequena ideia como mudar o olhar, mas Anne Valente pretende contribuir para isso, e só o ensejo é de valor. 
My first-ever semester of teaching a college fiction workshop eight years ago, a male student wrote a short story where a male protagonist brutalized women for pages, for the sake of brutalization. In workshop discussion, I raised my question carefully: What work can violence do in fiction? And if it’s not doing necessary work, when does violence become sensationalism? I did not use the word gaze but the student watched me regardless. After class, when every other student had filtered out of the room, he walked to the front of the class while I was erasing the board and said as close as he could to my face, I want you to know that wasn’t just a story. I want you to know that I hate women. My breath stopped but I finished erasing the board and moved to leave the classroom as quickly as possible but he beat me to it. Now if you’ll excuse me, I have to go walk the dog. He smirked. Do you even know what that means? He meant masturbation. He meant humiliation. And he meant fear, both mine and his, that I had challenged his work and that I’d tried to teach him anything at all. That I had stepped outside of his narrative of me, that for a moment I had transcended the camera’s scope. 
Three years ago my husband was a groomsman in the wedding of a friend we’d both known since college. This friend was more my husband’s friend, and at various points had quibbled with the facts in my short stories, had suggested that his PhD in mathematics would gain him more job offers than mine in creative writing ever could, had once cornered me in a bar to tell me in explicit detail how he’d cheated on his girlfriend, and had told my husband when he was still my college boyfriend that he should fuck other women while I was abroad for six months. Nonetheless, my husband and I drove nine hours from Ohio to North Carolina for his wedding. During the reception, as he was making the rounds from table to table and my husband was in the restroom, he leaned down and whispered in my ear, You may think your last name is Valente but this is my wedding so tonight you're just Mrs. Finnell to me. My husband’s last name, what I hadn’t taken four years before when we got married. You may think. This is my wedding. You’re just. To me. The face-slap of this whisper at a wedding, people clinking silverware and toasting all around us. Celluloid. A shot out of focus. I was breathless with anger but I smiled because it was his wedding and even still my anger couldn’t keep me from being sized down to the fact of my body in a cocktail dress, from being shoved back into a camera’s lens, from being every object he intended me to be. 
And yet I am complicit. I grew up on film, which is to say, I grew up acculturated to viewing the world as object, my sense of myself and the world around me sieved through a director’s lens. I knew myself as subject, another kind of spectator beyond the male perspective I was meant comply with, but I also absorbed the inclination to view myself through a haze of projection. We learn to hate ourselves for what is objectified and punished, for what the dominant gaze tells us doesn’t belong. We learn to disavow what hurts. Three weeks after this wedding, I still invited this asshole to my first book’s launch party where he asked from the back of the room during the Q&A to explain the use of the word mathematics in my chapbook’s title, a chapbook that had already come out the year before and that I hadn’t even read from, and what could possibly be elegiac about a system of integers and objects.   
A little voice inside me: Should I delete the word asshole? Am I only making someone who has objectified me an object in turn? Is this complicity—no better? Or is the complicity the little voice itself, the voice of disavowal, the internalized self-hatred that says I was born to be nice, that I shouldn’t push beyond the allotment of my flattened screen?
O texto de Anne Valente na íntegra, aqui.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Monday mood (24)

Ai, as sempre tensas relações entre patrões e trabalhadores. Ai, a força do amor que é fogo e Deus. Mesmo que vejamos este espectáculo, que é a vida, com a curiosidade do acidente, convém se não retirarmos ilações, pelo menos pensarmos sobre o nosso tempo, a nossa humanidade, o futuro.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O futuro

In the years to come, as society grows more complex, the number of nouns available to us may grow exponentially. The diversity of its speakers, not so much.