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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Alguém sabe

por que razão nós por cá, os portugueses, nos sites de procura e reserva de hóteis não temos activa a opção Pay on location, ao contrário de toda a gente mundo fora? Ahã.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Genius

This is what genius does. It shrinks the will of others. But it can also produce an odd wishfulness on the part of an admirer, a yearning to blend environments.
Don Delillo, para a Vertigo.

sábado, 20 de maio de 2017

Viver na cidade

Manhã de Sábado é manhã de sossego, pequeno-almoço no café porque tudo me custa e é mais moroso e lento e sossegado ao Sábado e, de vez em quando, permito-me dispor do Sábado ao meu ritmo. Excepto se houver turistas no café. Como é que os turistas chegaram à praça? Inventem-me, por favor, um Baygon turistas e rastejantes.
No café. O dono, em extâse ante o imenso pedido, acicata o empregado para ser mais rápido, dizer tudo logo, pôr de imediato na conta, dar o cartão, não confundir a mesa, antecipar-se, aviar-aviar-aviar, ser sobre-humano. Entre uma leva e outra de omeletes, pães, queques, abatanados, galões, cafés, sumos de laranja, o empregado atende as outras pessoas, eu e as velhotas do costume. 
Do lado de dentro do balcão, o dono tudo avia aos berros. E mal. A minha meia torrada veio seca, fria, com meio quilo de manteiga, muito cúbico e muito sólido, para eu barrar - suponho. O problema é só este. Viver hoje, em certas cidades deste país, é ser de segunda.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Inteligência artificial

Se o ferro de engomar tiver de ficar confuso, sobreaquecer e comer tecido, será sempre ao passares a tua blusa predilecta.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Trabalho e trabalho

Trabalho e trabalho
para dar à luz um pai
na minha solidão de depauperado
arado que nada sulca
porque como um comboio a que faltaram carris
prévios ao meu arado são seus sulcos.

Sou um filho circular. Como um signo
zodiacal sou um filho circular, requer o que faço
aquilo em que me movo
que é aquilo em que me movo
o que faço e como fazê-lo
se não tenho já em que me mova? O que faço
é o que me fez.

Sou comboio e arado e um rodado
sem discos. Sem paralelo em círculos
rotunda tristeza propago
de vertiginosa incubação de vórtices
que ajudo a solidificar: outra vez a sólida
solidão: é fácil a primeira imagem do comboio:

insta à compaixão. E são pesados os bois
circulares que o meu arado
entontece, em vão o rodado
sem discos. Quanto pesarão
bois entontecidos? Como ser pai
quando se é filho?

- Daniel Jonas, Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Mandado de Despejo aos Mandarins do Mundo

Fora tu, reles esnobe plebeu! Fora tu imperialista das sucatas, charlatão da sinceridade, banalidade em caracteres gregos, sopa salgada fria. Fora com tudo isso! Fora! Que fazes tu na celebridade?! Quem és tu? Tu da juba socialista e tu qualquer outro. Todos os outros! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual, incompetentes, barris de lixo virados para baixo à porta da insuficiência da contemporaneidade! Tirem isso tudo da minha frente! Tudo daqui para fora! 

Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles! Todos! Falência geral de tudo por causa de todos! Falência geral de todos por causa de tudo! Falência dos povos e dos destinos. Falência total! Desfile das nações para o meu desprezo! Passai gigantes de formigueiro. Passai mistos que só cantais a debilidade. Passai bolor do novo. Passai a esquerda do meu desdenho. Passai e não volteis! Párias na ambição de parecer grande! Passai finas sensibilidades, montes de tijolos com pretensões a casa, inútil luxo passai! Van grandeza ao alcance de todos, megalomania triunfante. Vos que confundis o humano com o popular, que confundis tudo! Chocalhos incompletos, maravalhas passai! Passai tradicionalistas alto convencidos, anarquistas deveras sinceros, socialistas a invocar as suas qualidades de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar! Vem tu finalmente ao meu ascomo! Roça-te finalmente sobre a sola do meu desdenho! Granfinalha dos parvos, impotência a fazer barulho! Quem acredita neles? Descasquetem o rebanho inteiro! Mandem tudo isso para casa descascar batatas simbólicas. O mundo tem sede de que se crie, tem fome de futuro! Tu Estados Unidos da América síntese bastardia da baixa Europa, alho da açorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo inestético! E tu, Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer República, extrema-unção-enxovalhada da desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África! E tu Brasil, República irmã, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria te descobrir! Ponham-me um pano por cima de tudo isso! Fechem-me tudo isso a chave e deitem a chave fora! 

Ultimatum a todos os chefes de estado incompetentes ao léu! Senão querem sair! Que fiquem e lavem-se! Despem-se de toda hipocrisia, ignorância de toda ganância luxuosa e falida. Mistura de sub-raças, batentes de portas dos grandes palácios com cheiro de chiqueiro! Tu, miseráveis intelectualistas a praticar política de esquina, com qualidades guerreiras enterradas pelo mundo afora! Ah! Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas? Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides! Agora a filosofia é o ter morrido! Agora a arte é o ter ficado! Agora a literatura é significar status sociais! Agora a crítica é haver bestas com inteligências artificiais que não se vejam como bestas! Agora a religião é o catolicismo militante dos taberneiros da fé, angariadores de anúncios para Deus! Agora é a guerra! É o jogo de empurra do lado de cá, empurra do lado de lá! A política e a degeneração gordurosa da organização da incompetência! Sufoco de ter só isso a minha volta! Deixem-me respirar! Abram todas as janelas, abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo. Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão época vil dos secundários, dos aproximados, dos lacaios com aspirações a reis lacaios! Sim! Todos vos que representais o mundo, todos vos que sois políticos em evidência em todo mundo! Passai! Vos ambiciosos do luxo cotidiano, aristocratas de tangas de ouro. Passai! Vos que sois autores de correntes sociais, de correntes literárias, de correntes artísticas, verso da medalha da impotência de criar! Passai homens altos, passai frouxos, passai radicais do pouco. Passai! O mundo quer grandes poetas, quer grandes estadistas, quer grandes generais. Quer o político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo. Quer poetas que buscam imortalidade ardentemente e não se importem com a fama! Quer o general que combata pelo triunfo construtivo, não pela vitória que apenas derrota os outros! O mundo quer a inteligência nova à sensibilidade nova. O que aí está a apodrecer a vida, quando muito é estrume para o futuro, o que aí está não pode durar porque não é nada. Eu da raça dos navegadores afirmo que não pode durar! Eu da raça dos descobridores desprezo o que seja menos que descobrir um novo mundo! Ergo-me ante o sol que desce e a sombra do meu desprezo anoitece em vos! Proclamo isso bem alto com os braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstratamente, o infinito.

Fernando Pessoa

sábado, 20 de abril de 2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Amizades comuns

O que habitualmente chamamos amigos e amizades não são senão conhecimentos e familiaridades contraídos quer por alguma circunstância fortuita, quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mantêm em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que só o posso exprimir respondendo: «Porque era ele; porque era eu». 

(...) 

Não me venham meter ao mesmo nível essoutras amizades comuns! Conheço-as tão bem como qualquer outro, e até algumas das mais perfeitas do género, mas não aconselho ninguém a confundir as suas regras: laboraria num erro. Em tais amizades deve-se andar de rédeas na mão, com prudência e cautela - o nó não está atado de maneira que, acerca dele, não se tenha de nutrir alguma desconfiança. «Amai o vosso amigo», dizia Quílon, «como se algum dia tiverdes que o odiar; odiai-o como se tiverdes que o amar.» Este preceito, tão abominável se aplicado à soberana e superna amizade, é salutar a respeito das amizades comuns e habituais, em relação às quais se deve empregar este dito tão ao gosto de Aristóteles: «Ó amigos meus, não há nenhum amigo!» 


 Michel de Montaigne, Ensaios

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A winding road


Pentti Sammallahti, “Sandö, Finnland”, 1975

Ontem no regresso de Santiago perdemo-nos. O desvio de 11 quilómetros para Vigo baralhou o gps e o regresso fez-se pela Serra do Galinheiro. Ou então, o destino, o universo, o meu Deus, quis falar-me. Às escuras, à chuva, ao vento, uma clareira aqui, os melhores tons do Outono pesado ali, vegetação serrada, piso irregular e escorregadio, um caminho duríssimo sem saída nem retorno. 15 quilómetros depois, chegados ao que parecia ser o mais dentro da montanha, re-programámos o gps para o caminho inverso.

Às vezes, o melhor mesmo é voltar atrás e começar tudo de novo.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Empreendedorismo, esse ... (insira palavrão)


"O axioma neoliberal de que o princípio ativo do mundo é o mercado e de que neste vencem os mais empreendedores sujeita-nos a todos a um clima progressivamente mais competitivo, porque o espaço de mercado não é ilimitado e para uns vingarem outros terão de ficar pelo caminho. Se a competição é um traço inscrito na relação entre as espécies em qualquer ecossistema, erigi-la em princípio primeiro da existência social perverte a relação entre os indivíduos, exacerba a agressividade e, a prazo, produz uma elite de vencedores e uma imensa massa de derrotados.
É a instalação deste princípio neoliberal que destrói o poder integrador da relação de trabalho, que corrói o equilíbrio entre empresa integradora e empresa competitiva, que desgasta as relações laborais, que submete os indivíduos à evidência de que bater a concorrência é fazer melhor e mais barato, ou seja, trabalhar mais e mais qualificado ganhando menos, ganhando muito menos às vezes, não ganhando nada (o “ganhar currículo” dos estágios profissionais), pagando para trabalhar (quando a deslocação para longe consome mais do que o que se aufere).
O pano de fundo de tudo isto é a ameaça: não quer? Vá-se embora e deixe trabalhar quem está disposto a tudo no desespero das fileiras do desemprego. Cereja em cima do bolo: está desempregado? Tire um curso de empreendedorismo. A seguir, monte um negócio, uma microempresa, uma coisa qualquer. Não consegue ter clientes? Ainda não tem as competências necessárias, não desista da aprendizagem ao longo da vida. Faça outro curso de empreendedorismo – e assim por diante."

Luís Fernandes, a ler na íntegra aqui.