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domingo, 18 de fevereiro de 2018

Elogio de Maria Teresa

Eu que às vezes encontro sem saber porquê
um simples não sei quê em estátuas retratos antigos
de límpidas mulheres desconhecidas
eu que de súbito à primeira vista me apaixono adolescentemente
por essas mulheres mortas mas contemporâneas
de um pobre poeta português do século vinte
levadas até ele talvez por um discreto gesto
às formas e às cores impresso por um homem
que na arte encontrava a única razão de vida
abro a pasta e deparo com o teu retrato
um retrato de passe anos atrás tirado
no sítio suburbano onde primeiro vivemos
e juntos suportámos com surpresa a solidão
de sermos dois e ela só vergar os ombros onde os dias nos poisavam
Conheço outros retratos teus onde também estás viva
um deles bem me lembro estava à minha espera em saint-malo
uma tarde ao voltar do monte saint-michel
nesse verão bretão onde então procurava
justificação por mínima que fosse para a vida
numa das muitas fugas de mim próprio
que às vezes empreendo embora antecipadamente certo
de que só pela morte enfim me encontrarei comigo
com todos quantos verdadeiramente amei
alguns desconhecidos e alguns mesmo inimigos
sobretudo sedentos de justiça
de que depois somente de bem morto hei-de dispor daquela paz
que sempre apeteci mas nunca procurei
até por não ter tempo para isso nem sequer para saber
coisas simples como saber quem sou porque ao certo só sei
que muito mais passei naquilo em que fiquei
nem que fossem os filhos ou os versos
que fiquei muito mais naquilo onde passei
como passos na areia no inverno ou repentinas sensações
de me sentir de súbito sensivelmente bem
encher o peito de ar sentir-me vivo
São retratos diferentes de quem foste um breve instante
e nele floriste e apenas não murchaste
por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias
Mas há em todos eles uma graça inesperada
a surpresa da corça ou restos dessa raça
que há em ti talvez um pouco mais que nas demais mulheres
expressão sempre surpreendente da surpresa
mesmo até para quem te conhece tão bem como eu te conheço
Se nuns mais do que noutros sem excepção desponta
a madrugada que era e é esse teu riso claro
quem primeiro falou de riso claro
talvez houvesse ouvido a água quando corre sobre os seixos de um ribeiro
talvez a houvesse visto branca e fresca
mas teve de inventar pra conquistar essa metáfora
quando eu que te ouvi rir não fiz mais do que ouvir
e sei que o som da água imita o teu sorriso
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno-almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres
além de ti além de minha mãe
Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste
a tua alegre vida irrequieta
no único infeliz dos teus negócios
por um poeta pobre velho e feio como eu
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia-a-dia
mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons-dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno-almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental

Ruy Belo, 'Transporte no Tempo', Lisboa, Moraes Editores, 1973.
(Retirado do mural do facebook de Luís Manuel Gaspar.)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

terça-feira, 1 de agosto de 2017

So long, Mr. Shepard

“There are these territories inside all of us, like a child or a father or the whole man,” he said, “and that’s what interests me more than anything: where those territories lie.

“I mean, you have these assumptions about somebody and all of a sudden this other thing appears. Where is that coming from?

“That’s the mystery. That’s what’s so fascinating.”
Sublinhado deste texto que é uma espécie de obituário, mais aqui.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Sonnets are full of love

Sonnets are full of love, and this my tome
Has many sonnets: so here now shall be
One sonnet more, a love sonnet, from me
To her whose heart is my heart’s quiet home,
To my first Love, my Mother, on whose knee
I learnt love-lore that is not troublesome;
Whose service is my special dignity,
And she my loadstar while I go and come
And so because you love me, and because
I love you, Mother, I have woven a wreath
Of rhymes wherewith to crown your honored name:
In you not fourscore years can dim the flame
Of love, whose blessed glow transcends the laws
Of time and change and mortal life and death.

 - Christina Rossetti, A Pageant and Other Poems, 1881.

terça-feira, 23 de abril de 2013

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Mãe


Js Poncel, Le lien, 1868 
Qual Eugénio, qual Vinicius, qual Quintana, tenho eu, sem exageros, a melhor do mundo.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Saudades de casa


Madère, Varvara (1955)

Uma pessoa sabe que tem saudades de casa quando, deparando-se com uma fotografia de um lugar recôndito da ilha há sessenta anos, o ímpeto de a colocar aqui e convocar o lugar da infância é maior do que todos os paralelos impossíveis de estabelecer com a geografia pessoal. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

De coisas que

Spring in Goscieradz, Leon Wyczólkowski (1852 - 1936)


Anteontem na feira do Livro do Porto, Ana Luísa Amaral, falando da sua poesia, confessava que os títulos provisórios do seu livro mais conhecido eram especialmente maus. Um era: A impossível sarça. 

A impossível sarça. Ei-la.


sábado, 3 de março de 2012

O avô e o neto

Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido,
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!

Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes p’ra outro dia;

E toda a tristeza minha
Era, ao acordar, p’ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo.»

Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.

E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;

E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»

Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005


O centésimo post deste blog recorda o meu avô materno.  Se fosse vivo, o meu avô, o único que conheci - o melhor do mundo -, completaria hoje 98 anos.