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domingo, 9 de abril de 2017

O tempora, o mora

A vergonha. A geração dos engraçadinhos. Os pais nunca os educaram, nunca lhes disseram "não". Eles são "campeões", elas "princesas". Quando algum professor os tentou meter na linha, foi sempre desautorizado por um desses pais de agora, que têm vaidade na boçalidade dos filhos. Em casa, nunca lhes ensinaram nada. Da escola, nunca aproveitaram nada. Os modelos que idolatram são as cabeças ocas promovidas pela incultura geral. O respeito pelos outros nada lhes diz. Vão a Torremolinos a preços de saldo e devem achar que subiram na vida. Os paizinhos que continuem a chamar-lhes princesas e campeões, a recusar-lhes 20 euros para um livro ou uma gramática mas a darem-lhes telemóveis e consolas de centenas mais "férias" destas. Eu punha-os a todos, papás incluídos, numa colónia penal. E ensinava-os a ler.
O desabafo, que podia ser meu, é de João Veloso, no facebook.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Nós por cá

Herodes, pá, com esse nome realmente não podias ser boa rês. Tenho pena. Vens de um bonito país, cheio de boas pessoas e grandes artistas. Ouvi dizer que estás sem trabalho, mas as pessoas como tu, mesmo sem trabalho, têm sempre uns dinheiritos para férias e tal. Vê se não nos apareces cá um destes verões; é que se não houver caracoleta, há sempre escarreta. E, à boa maneira cá do sul, nem precisas de a pagar.

Mais sério, aqui.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

É o marketing, estúpido!

Há dias em que descemos uns furinhos abaixo da nossa condição. Andamos, de resto, a descer vertiginosamente nessa escala desde que entrámos (segundo o discurso oficial) ou estamos (na minha óptica) nesta crise cinematográfica à espera de um super-herói que nos salve sebastianamente. Esquecemo-nos todos, eu apenas de vez em quando, que não há super-herói que nos salve porque D. Sebastião morreu longe e quem por cá anda tem filhos em que pensar.

Hoje foi um desses dias. Já se falava há algum tempo do rapaz-procura-rapariga, meio a medo de errar na aposta de que marca se trataria, meio crentes no romantismo antigo mas sempre novo nos cartazes, nas faixas, nas redes sociais, nos media. Chama-se marketing de guerrilha, li há pouco. E assassinou o amor. É verdade. A realidade muda cada vez mais rápido, e aquilo que um dos mais ilustres filósofos franceses escrevia há um par de anos - que actualmente restava ao homem o deus do amor, que se tinha deixado de acreditar em tudo, excepto no amor - deixou de se verificar. 

O amor tem três mil anos. Foram as civilizações euro-asiáticas que o descobriram no primeiro milénio antes de Cristo. As religiões antigas não falavam de amor, foi o budismo o primeiro a apresentar a linguagem do amor e mais tarde o cristianismo a trazê-la para o Ocidente. O Romantismo deu-nos a possibilidade de o individualizarmos e, quanto mais não seja por isso, se não estamos todos obrigados a conhecê-lo, temos pelo menos dados culturais para o sentir.

Mas as pessoas não gostam de deuses e pelam-se por vandalizar o sagrado. Afirmam não sei quê, não sei quanto de si. Só assim se percebe que uma empresa internacional pegue na sede de esperança, o quarto canal chama-lhe entretenimento, de uma sociedade do Sul da Europa para lhe impingir um perfume feio ao nível do design, feio conceptualmente e feio publicitariamente. Na realidade, faz sentido vender o feio pelo feio. Na realidade, não faz senão sentido.

E só os tolos como eu é que vêem nisto uma pequena derrota, mais uma. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

De senectute e coisas ainda piores

Exmo. Senhor Primeiro Ministro 

Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe. 

Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito — todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar“as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal. Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot):“Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia. 

A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intituladoThe Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso. Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página. 

Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá. 

Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio.Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo. 
De V. Exa., atentamente, 
Eugénio Lisboa 

[O autor foi presidente da Comissão Nacional da UNESCO / conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres entre 1978-1995 / professor catedrático especial de Estudos Portugueses na Universidade de Nottingham / professor catedrático visitante da Universidade de Aveiro / e coordenador do ensino da língua portuguesa na Suécia. É Doutor Honoris Causa pelas universidades de Nottingham e Aveiro. A Câmara de Cascais outorgou-lhe a medalha de Mérito Cultural. Em Moçambique foi sucessivamente administrador e director das petrolíferas SONAPMOC, SONAREP e TOTAL.]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Anacronismos

Fui esta tarde a um lançamento de um livro de natureza académica sobre coisas da vida que tenho como reais, factuais: já estive, por mais do que uma vez, na presença da maior parte dos seus agentes, e pude constatar que sim, vivem o que escrevem. Dei por mim a pensar nos quase quatrocentos quilómetros de distância que vão do Porto a Lisboa. Quatrocentos quilómetros que correspondem a outros tantos anos-luz, ou mais, de conhecimento de certas realidades. No norte hipotetiza-se, questiona-se se porventura, não se sabe se se pode considerar que, se existirá, o que em Lisboa se é, porque se fez lá atrás, lá atrás. Fiquei triste. Há um fosso tão grande entre o norte e a capital, a academia e o Estádio, nós aqui e eles lá em baixo, muito, mas muito mais, à frente. Sempre achei provinciana a necessidade de migração da minha geração para a capital. Sempre me orgulhei das várias capitais que me foi dado habitar, das minhas várias casas, do meu cosmopolitismo, da adaptação a todo-o-terreno inscrita na condição de ilhéu.

E, contudo, eu sabia que um dia ia arrepender-me de ter feito as malas, de ter uma ética, de ter recusado ser carneiro em Lisboa. Esse dia foi hoje.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os bons e os maus

Peter Stackpole, Ingrid Bergman Smoking

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.


Luís de Camões