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sábado, 20 de maio de 2017

Viver na cidade

Manhã de Sábado é manhã de sossego, pequeno-almoço no café porque tudo me custa e é mais moroso e lento e sossegado ao Sábado e, de vez em quando, permito-me dispor do Sábado ao meu ritmo. Excepto se houver turistas no café. Como é que os turistas chegaram à praça? Inventem-me, por favor, um Baygon turistas e rastejantes.
No café. O dono, em extâse ante o imenso pedido, acicata o empregado para ser mais rápido, dizer tudo logo, pôr de imediato na conta, dar o cartão, não confundir a mesa, antecipar-se, aviar-aviar-aviar, ser sobre-humano. Entre uma leva e outra de omeletes, pães, queques, abatanados, galões, cafés, sumos de laranja, o empregado atende as outras pessoas, eu e as velhotas do costume. 
Do lado de dentro do balcão, o dono tudo avia aos berros. E mal. A minha meia torrada veio seca, fria, com meio quilo de manteiga, muito cúbico e muito sólido, para eu barrar - suponho. O problema é só este. Viver hoje, em certas cidades deste país, é ser de segunda.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Do declínio contemporâneo da poesia

There are at least two reasons why the situation of poetry matters to the entire intellectual community. The first involves the role of language in a free society. Poetry is the art of using words charged with their utmost meaning. A society whose intellectual leaders lose the skill to shape, appreciate, and understand the power of language will become the slaves of those who retain it--be they politicians, preachers, copywriters, or newscasters. The public responsibility of poetry has been pointed out repeatedly by modern writers. Even the archsymbolist Stephane Mallarme praised the poet's central mission to "purify the words of the tribe."
De leitura obrigatória, este longo mas brilhante ensaio de Dana Gioia.

domingo, 9 de abril de 2017

O tempora, o mora

A vergonha. A geração dos engraçadinhos. Os pais nunca os educaram, nunca lhes disseram "não". Eles são "campeões", elas "princesas". Quando algum professor os tentou meter na linha, foi sempre desautorizado por um desses pais de agora, que têm vaidade na boçalidade dos filhos. Em casa, nunca lhes ensinaram nada. Da escola, nunca aproveitaram nada. Os modelos que idolatram são as cabeças ocas promovidas pela incultura geral. O respeito pelos outros nada lhes diz. Vão a Torremolinos a preços de saldo e devem achar que subiram na vida. Os paizinhos que continuem a chamar-lhes princesas e campeões, a recusar-lhes 20 euros para um livro ou uma gramática mas a darem-lhes telemóveis e consolas de centenas mais "férias" destas. Eu punha-os a todos, papás incluídos, numa colónia penal. E ensinava-os a ler.
O desabafo, que podia ser meu, é de João Veloso, no facebook.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Nós por cá

Herodes, pá, com esse nome realmente não podias ser boa rês. Tenho pena. Vens de um bonito país, cheio de boas pessoas e grandes artistas. Ouvi dizer que estás sem trabalho, mas as pessoas como tu, mesmo sem trabalho, têm sempre uns dinheiritos para férias e tal. Vê se não nos apareces cá um destes verões; é que se não houver caracoleta, há sempre escarreta. E, à boa maneira cá do sul, nem precisas de a pagar.

Mais sério, aqui.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Morte ao meio-dia

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

- Ruy Belo, Todos os Poemas.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Coisas que foram caindo em desuso - 11

O ACORDO ORTOGRÁFICO foi uma aventura – em parte bem-intencionada -- que se deixou levar demasiado longe. Na discussão têm fervilhado as proclamações e os equívocos. Ninguém está livre deles. Não tenho a pretensão de exprimir verdades absolutas. Mas agora que o assunto vai à Assembleia da República, talvez consiga ser útil com algumas modestas observações à margem, fora de argumentários, gesticulações e vozearias. De notar que, seja quais forem as posições tomadas, há, de um e do outro lado, PESSOAS que merecem respeito e cujo apreço pela Língua Portuguesa não pode ser posto em causa.
1 - Nem tudo o que muda é progresso. Uma amputação é uma mudança. O apodrecimento também é um processo de transformação. Mas mudar para pior não é progresso, é regresso. Parece-me equivocado colocar as «simplificações» e as «uniformizações» do lado das aspirações sociais. Diminuir o alcance de um texto (cerceando-lhe a memória histórica, por exemplo) é empobrecer quem o lê. E isso não é «moderno», muito ao contrário, é uma limitação à liberdade.
2 – O chocalhar de quinas, sabres e castelos, com gritos de «sus! A mim!», como se a Pátria imemorial estivesse ameaçada e as cinzas dos nossos maiores estremecessem nos seus túmulos, parece-me que vem em má ocasião. Não é isso que está em causa. Ninguém pretende desacatar D. Afonso Henriques. 3 – Alguns escritores e outros práticos da Língua pensam (como Saramago disse a propósito de uma tentativa de acordo ainda pior) que «isso é coisa para revisores». Eu tenho uma enorme estima por revisores, com quem venho aprendendo muito. Têm-me poupado alguns deslizes e até dispensado – o que muito agradeço – de me exasperar com minudências e ambiguidades não raro antipáticas. Ao contrário do que pensa a sabedoria popular (com a sua atávica propensão para o erróneo), os escritores não têm que papaguear a gramática de cor. Mas a gramática não serve apenas «para dar o pitoresco» como ironizava Mark Twain. Valerá a pena, pelo menos, dar notícia de um desconforto.
4 – O que não vale a pena é bramir, vociferar, pôr-se aos encontrões e transformar a questão em matéria de claque clubística, na disputa pelo alarido mais ruidoso.
5 - A língua é uma realidade entranhada, que evolui e se transforma em interacção com as transformações sociais e históricas, e de acordo com as suas próprias leis (às vezes misteriosas). Não me parece adequado usá-la para experimentações. «Pesquisas fazem-se em casa, já dizia a minha avozinha que era escritora» escreveu algures Alexandre O’Neill. Impõe-se a máxima cautela quando se toca em aspectos relacionados com um uso quase milenar e com um corpus literário apreciável. A ortografia não é tão neutra como se pensa. Os matizes, as deslocações de sentidos são de uma extrema sensibilidade.
6 – Tremendo e custoso equívoco tem sido considerar-se que as questões da língua são com os linguistas. A derivação «língua>linguista» leva muitas pessoas, com bom ânimo, a fiar-se nas aparências e a pensar que os linguistas estão na primeira linha da discussão sobre a Língua. O engano ainda cresce com a invocação de alguns nomes prestigiadíssimos (e com razão) naquela especialidade. Não é o caso, como parece evidente, do Doutor Casteleiro. Trata-se, no meu entender, de um erro completo. Talvez eu consiga explicar isto melhor com exemplos: Um osteopata que saiba tudo sobre o esqueleto humano está preparado para dar consultas de psiquiatria? Um engenheiro naval, hábil em desenho, está apto a comandar um navio? Enfim, confiariam um batalhão a um historiador militar? Note-se que eu não tenho nenhum rancor a linguistas. Muito ao contrário. Por alguns – que até poderia nomear – tenho uma afectuosa admiração. Mas chega a ser injusta para eles a responsabilidade que lhes tem sido atribuída nesta questão ortográfica.
7 – Infelizmente, não é pela ortografia que o Português de Portugal e do Brasil divergem. Esta talvez seja, até, a disparidade mais insignificante. Não vale a pena estar a trazer para aqui exemplos que são do domínio público e só não os vê quem não quer É um problema sério para que eu não tenho soluções e que merecia ser ponderado, calmamente, cautelosamente, por quem tivesse os necessários saber, experiência e perícia. Um ou outro linguista, creio, seria até bem vindo a esse trabalho.
8 – Tem aparecido com alguma frequência o fantasma do «conformismo». Que as pessoas estariam acostumadas a escrever de certa forma e existiria um lastro de inércia, inimigo das melhorias e transformações, sempre a puxar à retaguarda… Esse argumento é utilizado precisamente pelas pessoas que já se acomodaram à prática do acordo ortográfico (nas escolas, nos jornais, etc.) e têm medo de que as façam estudar de novo. Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Bastam, de facto, umas noções elementares daquela etimologia que fizeram desaparecer das escolas, não se sabe a que propósito. Porventura certo desprezo subliminar pelo ensino de massas, pois, em algumas almas, tratando-se de educação para pobres, «para quem é, bacalhau basta».
Acho que se vai a tempo de reconsiderar. Desmobilizar a aventura. Acredito que os custos da manutenção do acordo viriam a ser mais graves que os da suspensão. Não há pressa. E não gostaria de ver os defensores do acordo na posição de vencidos que grande parte deles, pela sua boa-fé, não merece.
E aqui ficam estes pontos que espero contribuam um pouco para a discussão serena do Acordo Ortográfico. O meu propósito, não sei se conseguido, é evitar as toadas agressivas que por aí têm chegado quase ao destempero. 
Vamos com calma. 

 - Mário de Carvalho, aqui.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

As Palavras e a Vida

Pega-se na História da Literatura Portuguesa. Está cheia de autores talentosos com a vida desgraçada. De Camões e Gomes Leal a morrerem de fome. De suicidas como Camilo, Antero e Florbela. Dos que se retiram amargurados da capital, Sá de Miranda e Herculano. E dos presos por isto ou por aquilo, como Bocage, os degredados, como Correia Garção. E os exilados, sejam Filinto Elísio, a Marquesa de Alorna, Jaime Cortesão e Casais Monteiro, como há os emigrados por diferentes e nem sempre agradáveis razões, de Pessanha a Rodrigues Miguéis ou Jorge de Sena. E as vítimas da Inquisição: Damião de Góis e Anastácio da Cunha, e os condenados à fogueira, como António José da Silva. Os jovens doentes que morreram demasiado cedo: António Nobre e António Maria Lisboa. E os do manicómio: Ângelo de Lima e António Gancho. Tudo somado, é um rol considerável de talentos a quem a vida, a sociedade ou o poder mostraram os dentes e morderam a sério. 

Mas o mais caricato é que durante anos as selectas literárias e outros manuais escolares e uma certa crítica professoral bem instalada promoveram as desgraças do escritor como uma componente do talento, como se a ressurreição e a glória fossem justificadas pelo pathos e pela segregação por onde o escritor obrigatoriamente teria de passar. É o mito do escritor ou do artista desgraçados, como se a tragédia lhes aguçasse o engenho, não faltando quem estrategicamente proponha bolsas de fome como estímulo da criatividade. Habituou-se assim este país a tomar as lágrimas e a infelicidade de muitos Camões para bebê-las placidamente em pátrias liturgias. 

Na realidade, para além duns empregos numas bibliotecas, uns lugares de professor e depois uns nomes de ruas ou de escolas, nunca ninguém deu nada aos nossos escritores. Pelo contrário. Há muitos casos em que foram os próprios a custear a edição dos seus livros, mesmo que tenham saído com chancela editorial. Pascoaes nunca recebeu um tostão de direitos pelas dezenas de milhares de livros vendidos. Foi Eugénio de Andrade quem pagou com o seu salário de emprego nos serviços sociais a impressão de Corpo Visível de Mário Cesariny, nos idos de cinquenta. E a primeira edição de Clepsidra? E as edições de Cinatti? E Pessoa, que ganhou ele com os seus livros? E as Edições Contraponto de Luiz Pacheco? Quantos escritores não se reuniram para custear a edição de outros escritores, como A Antologia em 58 ou os Cadernos de Poesia, as revistas literárias, etc.? Foram quase sempre os autores muito generosamente a dar, além do seu talento, os meios de conseguir levá-lo a um país insensível e tantas vezes bronco que nunca lhes agradeceu. E que aprendeu a ler pelos seus textos. Continua a ler gratuitamente os livros deles nas bibliotecas. Escuta-os em debates, em recitais, em entrevistas ou conferências. Quase sempre ignorando que ninguém lhes paga o trabalho intelectual e a permanente disponibilidade. Os pintores, os arquitectos ou os cineastas, mal ou bem, lá vão recebendo conforme as exposições ou as encomendas. E os escritores? Medite. Há cerca de uma década a SEC criou umas mensalidades miseráveis ao nível do salário mínimo, atribuídas a meia dúzia de escritores aos quais era reconhecido «mérito cultural». Eram, e ainda são, subsídios de valor ridículo, pois excluem à partida uma qualquer outra fonte de rendimento ou posse de bens, isto é, exige-se a pobreza quase absoluta. Ora, apesar disso, já se lêem na imprensa imprecações contra os que têm a mania do subsídio. «Contra os dependentes do Estado», «Os da esmola». E, entre outros mimos do género, cresce a suspeita. E avançam nomes, pondo mesmo em causa a sua independência criativa. Se não conhecesse algumas repercussões desagradáveis nos visados, este texto nem valeria a pena. Mas recordo, entre outros casos, a tristeza de Natália Correia ante este tipo de notícias. Trata-se, além do mais, de uma situação absolutamente injusta em que os papéis são abjectamente invertidos. Mas, quem deve a quem? Façam, por favor, algumas contas. 

Comecem pelos textos dos livros escolares, dos pontos dos exames e avaliação, nas antologias (algumas editadas pelo governo), passem pelas fotocópias, pelas palestras, congressos, pelos livros de «depósito legal», já para não falar do mais importante, ou seja, deste impensável trabalho de entretecimento da alma de um povo que tanto passa pelas palavras dos poetas e dos escritores. Valha-nos Deus. Como uma nuvem escura tão tecnocrática vai toldando a magnificência dos dias. Como temos de continuar a ouvir aberrações como «Uma imagem vale por mil palavras»! E depois? Depois, é como diz Cesariny no poema «Um canto telegráfico»: «Merecemos o nosso passo de bichos do dilúvio / merecemos que nos ceguem todos os dias / merecemos estar sozinhos rodeados de prédios / merecemos ter connosco toda a vontade / fim princípio moleza de costumes / assassinatos história das basílicas / e até porque não dominicais / (...) / e como são as palavras para dizer que te amo...» Já que se rouba tão despudoradamente e sem grandes contrapartidas o saber e as palavras aos escritores, não se deve pretender também subtrair-lhes a vida. Parece claro, não parece? 

 - Manuel Hermínio Monteiro, in Ler / Livros & Leitores, n.º 23, Verão 1993.

Retirado daqui.

sábado, 14 de setembro de 2013

The joy of writing


Wislawa, Szymborska, s/a, s/d. 

The joy of writing. 
The power of preserving. 
Revenge of a mortal hand.

— Wisława Szymborska


A propósito deste artigo. Somos tão felizes quanto os Sírios, ameaçados de guerra; as pessoas mais felizes vivem na Dinamarca, na Noruega, na Suiça, na Holanda e na Suécia. Este senhor explica porquê.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Da actualidade

Noutros Lugares

Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas de solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exatamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

Jorge de Sena (1967)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Do dia - 78

"Há circunstâncias em que a recusa é a única afirmação possível. Como os prisioneiros em greve de fome, presumo. Ou, menos dramaticamente, como aconteceu, em meados dos anos 50, no Café Gelo (...) Vivia-se nesse tempo em Portugal um ambiente suspenso e fechado. O fim da guerra não tinha trazido a democratização prenunciada pelos aliados e, pelo contrário, consolidara a ambiguidade pró-fascista do regime português numa militância anticomunista com eles partilhada. Tempo de expectativas frustradas. De esperança sonegada. O regime português não seria tão brutal como outros congéneres tinham sido e como outros ideologicamente antagónicos continuavam a ser. Mas, como os amores, essas coisas não são comparáveis por quem as padece. Havia vigilância policial, havia denúncias, havia torturas, havia prisões, houve execuções secretas. Houve tudo isso. E havia sobretudo uma generalizada redução de expectativas. Produzindo mais resignação do que revolta. As pessoas olhavam em volta quando falavam. Baixavam a voz para dizer o que não chegavam a dizer. Cada um era o seu próprio carcereiro.

O que todos nós, os do Café do Gelo, tínhamos em comum era uma atitude de recusa, uma partilhada vontade de quebrar amarras, um só sabermos o que não queríamos para podermos deixar um espaço livre para o que pudéssemos talvez querer. A recusa de normas estabelecidas era a nossa única norma. O questionamento de valores impostos o nosso único valor. As noites eram os nossos dias. Se vivíamos num mundo às avessas, tínhamos de viver no avesso das avessas. Estávamos todos muito zangados com o que queriam fazer de nós: o governo, as universidades, a família, as várias polícias, que não nos queriam deixar ser quem ainda não sabíamos que poderíamos querer ser, os intelectuais estabelecidos que nos queriam ensinar a ser quem não queríamos ser. (...)

Mas não é pela literatura nem pela pintura que recordo os do Gelo. É pelo que não queríamos ser onde não podíamos estar. O Manuel de Castro que se fez morrer alcoolizado com 30 e poucos anos. O José Escada que se deixou degradar por um angelismo inalcançado. O João Rodrigues que se atirou da janela por já não valer a pena não se atirar. O José Sebag que fingia suicidar-se para dessa vez não ter morrido até que um dia em que não se suicidou morreu. O José Manuel Simões que preferiu a indigência de Paris ao regresso à pátria porque era o mais puro de todos nós. Pouco antes de morrer o Simões meteu tudo o que possuía num envelope e escreveu no envelope: Sobras Completas."

 - Helder Macedo, sobre Servidões de Herberto Hélder, no JL desta quinzena.