terça-feira, 31 de janeiro de 2012

40 minutos com Pablo Neruda face a face

Imagem daqui
Gostava muito que as pessoas que nos desgovernam, subissem um dia a pé a Rua de Santa Catarina, às seis e meia da tarde, e topassem com a pobreza desesperada, a pobreza doente, a pobreza alcoólica, a pobreza larápia, a pobreza triste, a pobreza magra e muda, a pobreza disfarçada, a pobreza envergonhada e a desavergonhada. Aposto que não chegavam à Praça do Marquês muito satisfeitos. Mas que sei eu.


Oda a la pobreza

Cuando nací,
pobreza,
me seguiste,
me mirabas
a través
de las tablas podridas
por el profundo invierno.
De pronto
eran tus ojos
los que miraban desde los agujeros.
Las goteras,
de noche, repetían
tu nombre y tu apellido
o a veces
el salto quebrado, el traje roto,
los zapatos abiertos,
me advertían.
Allí estabas
acechándome
tus dientes de carcoma,
tus ojos de pantano,
tu lengua gris
que corta
la ropa, la madera,
los huesos y la sangre,
allí estabas
buscándome,
siguiéndome,
desde mi nacimiento
por las calles.

Cuando alquilé una pieza
pequeña, en los suburbios,
sentada en una silla
me esperabas,
o al descorrer las sábanas
en un hotel oscuro,
adolescente,
no encontré la fragancia
de la rosa desnuda,
sino el silbido frío
de tu boca.
Pobreza,
me seguiste
por los cuarteles y los hospitales,
por la paz y la guerra.
Cuando enfermé tocaron
a la puerta:
no era el doctor, entraba
otra vez la pobreza.
Te vi sacar mis muebles
a la calle:
los hombres
los dejaban caer como pedradas.
Tú, con amor horrible,
de un montón de abandono
en medio de la calle y de la lluvia
ibas haciendo
un trono desdentado
y mirando a los pobres
recogías
mi último plato haciéndolo diadema.
Ahora,
pobreza,
yo te sigo.
Como fuiste implacable,
soy implacable.
Junto
a cada pobre
me encontrarás cantando,
bajo
cada sábana
de hospital imposible
encontrarás mi canto.
Te sigo,
pobreza,
te vigilo,
te acerco,
te disparo,
te aislo,
te cerceno las uñas,
te rompo
los dientes que te quedan.
Estoy
en todas partes:
en el océano con los pescadores,
en la mina
los hombres
al limpiarse la frente,
secarse el sudor negro,
encuentran
mis poemas.
Yo salgo cada día
con la obrera textil.
Tengo las manos blancas
de dar pan en las panaderías.
Donde vayas,
pobreza,
mi canto
está cantando,
mi vida
está viviendo,
mi sangre
está luchando.
Derrotaré
tus pálidas banderas
en donde se levanten.
Otros poetas
antaño te llamaron
santa,
veneraron tu capa,
se alimentaron de humo
y desaparecieron.
Yo te desafío,
con duros versos te golpeo el rostro,
te embarco y te destierro.
Yo con otros,
con otros, muchos otros,
te vamos expulsando
de la tierra a la luna
para que allí te quedes
fría y encarcelada
mirando con un ojo
el pan y los racimos
que cubrirá la tierra
de mañana.


Pablo Neruda

Nanny during the day, giantess in the Music Hall at nigh

Imagem daqui

Pouco se conhece da vida de Abomah. Apesar da unanimidade do epíteto gigante que a terá inclusivamente levado a conhecer meio mundo, a grande maioria das fontes periclitam na asserção do seu sobrenome, da sua nacionalidade e até da sua altura. O que me encanta nesta mulher, reproduzi-o no título deste post - "Ama de dia, artista de Music Hall à noite" - é a sua vida na assimetria que a fotografia nos revela. A altura extraodinária da mulher e o tamanho da criança que pende dela como um acessório, a maior força e a maior fragilidade, o negro muito negro, mas rico, da indumentária de uma, o branco simples, sóbrio, das roupas da outra, as cores da pele consonantes com as do vestuário, o olhar cansado e habituado da mulher, o voyeurismo de uma traseunte no fundo da rua. Estamos em Londres, em 1914, assim que deixar a criança em casa, entregue a outros cuidados, Abomah, acaso tivessem ambos  tido a possibilidade de se conhecerem, provavelmente enriqueceria o pensamento de Baudelaire que escreveu: "Mas o fim de tarde chegou. É a hora estranha e duvidosa em que as cortinas do céu se fecham, em que as cidades se iluminam."

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Young Girl Reading (1868), Jean-Baptiste Camille Corot


Também conheço bem este tipo de apoio à leitura, concentração e atenção ao pormenor.

"Não há nada como a juventude."



Pese muito embora o facto de as televisões só terem agora descoberto o filão sensacionalista que constitui a morte solitária dos nossos idosos, e dessa forma toldarem a nossa percepção do fenómeno, o abandono e esquecimento a que no nosso país tem sido votada a terceira idade é uma realidade social de há várias décadas. Não temos tempo para os nossos filhos, deixamo-los nas escolas, os professores que os eduquem que é para isso que pagamos impostos; não temos tempo para os nossos pais, deixamo-los nas suas casas no interior, esquecemo-nos da deserção, da nossa própria deserção desse espaço; deixamo-los nos lares, na cidade não temos espaço, na cidade não há tempo. Deixamo-los - é um facto.

Este filme esteve em meia dúzia de cinemas durante muito pouco tempo. De resto, não fosse ter visto uma publicidade ao mesmo num dos programas da manhã, também me teria passado despercebido. Na realidade, nunca cheguei a ir vê-lo ao cinema, mas comprei-o há tempos na FNAC - encontrou-o o meu namorado primeiro que eu até na secção dos documentários, a minha predilecta. Vale a pena procurar e ver. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os bons e os maus

Peter Stackpole, Ingrid Bergman Smoking

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.


Luís de Camões

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Justinho você

Hamadríades na Aurora

Imagem daqui

Não conhecia o pintor Vitoriano Alexander Abdo nem tão pouco as hamadríades. Para falar a verdade, o que me prendeu neste quadro foi a ambiência mística e maravilhosa desta floresta - lembrei-me até das fadas que habitam a vida de Hélia Correia - e o meu amor de sempre por árvores. As hamadríades são, de acordo com a mitologia, as divindades das árvores. Nascem com elas, com elas partilham a vida e o destino - enlutam-se quando elas perdem as folhas, regozijam-se quando florescem - e têm o dever único de, ao longo desse percurso milenar que pode ser a vida de uma árvore, a proteger. Suspeito que Alejandro Casona conhecia bem este mundo mágico.