domingo, 5 de fevereiro de 2012

Mahna mahna



Ontem fui ver este filme. Já estamos há algum tempo em época de sequelas. Nos filmes infantis, então, esse recurso parece até ter-se institucionalizado: filme que faz sucesso tem sequela, filme que não faz, também, para fazer. Embora pudesse, pelo género, enquadrar-se nesse âmbito, esse não é, por todas as razões, o caso deste filme. Os Marretas de 2011 nasceram da vontade de Jason Segel, 31 anos - como eu, um fã do Cocas - de os trazer de volta. Pela ternura, pelo riso, pela imaginação. Não é a sequela do filme de 71, é a infância de sucessivas gerações tornada presente, uma espécie de viagem no tempo para nós e para eles, os marretas, uma viagem que tem lugar no nosso tempo para não nos esquecermos de que as coisas realmente importantes - as crianças, a alegria e o riso - não mudam de época para época. E são doces.

Para abrir o apetite, e matar saudades, vão aqui e aqui, por exemplo. Mas o melhor mesmo é ir vê-los ao cinema, com ou sem filhos, sozinho ou acompanhado. Alegria e riso (e um calorzinho bom) garantidos.

Mahna mahna.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Anacronismos

Fui esta tarde a um lançamento de um livro de natureza académica sobre coisas da vida que tenho como reais, factuais: já estive, por mais do que uma vez, na presença da maior parte dos seus agentes, e pude constatar que sim, vivem o que escrevem. Dei por mim a pensar nos quase quatrocentos quilómetros de distância que vão do Porto a Lisboa. Quatrocentos quilómetros que correspondem a outros tantos anos-luz, ou mais, de conhecimento de certas realidades. No norte hipotetiza-se, questiona-se se porventura, não se sabe se se pode considerar que, se existirá, o que em Lisboa se é, porque se fez lá atrás, lá atrás. Fiquei triste. Há um fosso tão grande entre o norte e a capital, a academia e o Estádio, nós aqui e eles lá em baixo, muito, mas muito mais, à frente. Sempre achei provinciana a necessidade de migração da minha geração para a capital. Sempre me orgulhei das várias capitais que me foi dado habitar, das minhas várias casas, do meu cosmopolitismo, da adaptação a todo-o-terreno inscrita na condição de ilhéu.

E, contudo, eu sabia que um dia ia arrepender-me de ter feito as malas, de ter uma ética, de ter recusado ser carneiro em Lisboa. Esse dia foi hoje.

Something extraordinary, and beautiful, and simple

Desejos apaixonados geram obras apaixonantes. A carta abaixo é de Julho de 1922, pelo que o romance a que Scott Fitzgerald se refere será certamente O Grande Gatsby, que é actualmente a minha leitura de cabeceira. Considerada o grande romance americano, esta crítica aos loucos anos vinte americanos e à American way of life que nos anos seguintes invadiria a Europa, tem-me levado a reflectir acerca da decadência, moral e material, que nasce e se instala em toda a época de prosperidade. É um clássico que se arrisca a tornar-se um dos meus livros.
Imagem pertencente a Gareth M.
Transcrição:

Dear Mr. Perkins:

Glad you liked the addenda to the Table of Contents. I feel quite confident the book will go. How do you think The Love Legend will sell? You'll be glad to know that nothing has come of the movie idea & I'm rather glad myself. At present working on my play — the same one. Trying to arrange for an Oct. production in New York. Bunny Wilson (Edmund Wilson Jr.) says that it's without doubt the best American comedy to date (that's just between you and me.)

Did you see that in that Literary Digest contest I stood 6th among the novelists? Not that it matters. I suspect you of having been one of the voters.

Will you see that the semi-yearly account is mailed to me by the 1st of the month — or before if it is ready? I want to see where I stand. I want to write something new — something extraordinary and beautiful and simple & intricately patterned.

As Usual

(Signed, 'F Scott Fitzgerald')

Giacinto Scelsi (1905-1988): Mantram, canto anónimo