segunda-feira, 26 de março de 2012

Diz que é uma espécie de épica - 3

"Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se."


Manuel António Pina, hoje, no JL

domingo, 25 de março de 2012

Obituário: António Tabucchi (1943 - 2012)


“Daqui a pouco, quando deixar de ouvir a minha respiração, abra essa janela de par em par, deixe entrar a luz e os barulhos do mundo vivo, são seus, meu é o silêncio. E vá-se embora imediatamente, feche a porta e deixe ficar o cadáver, aquilo não sou eu, (...)”

António Tabucchi
Tristano morre

Ainda de ontem - 5

Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, LIFE Magazine 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Deus me perdoe

Splendid devil, Leonor Fini, s/d

Mas o motorista da CP que, sob o falso pretexto de assegurar o primeiro serviço mínimo da manhã na Linha de Braga, se barricou três horas na sua cabine em São Bento, gerindo as expectativas de três carruagens de passageiros que se deitaram ontem mais cedo, para se levantarem hoje mais cedo, para ir trabalhar por razões só deles, merece o governo que tem. Quem manobra o sistema desta forma não é muito diferente daquele que no areópago o manobra em proveito próprio. Não sei se os dois minutos de fama televisiva do senhor lhe vão permitir, a ele e aos senhores sindicalistas que integram os piquetes, perceber os reais efeitos deste tipo de conduta: a descredibilização efectiva de uma forma de luta justa e de direito como é a greve. Uma greve que se quer, geral, forte e justa, sobretudo justa para ser forte.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Do dia - 21

A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


Sophia de Mello Breyner Andresen
O Nome das Coisas

Do dia - 20

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome


José Tolentino Mendonça
O Viajante sem Sono