sexta-feira, 30 de março de 2012

Do dia - 22

Auto-retrato com orelha ligada (1889), Vincent Van Gogh

A minha mais impressiva recordação de Amesterdão é a do último andar do Museu Van Gogh. É um museu pequenino e  moderno, em frente a um parque  verde e amplo, igual a tantos outros da cidade, mas que por ser o meu primeiro parque holandês, lembro-me de combinar com a amiga que me acompanhava um pique-nique de fim de tarde que acabámos por não fazer. No museu, a obra do pintor é apresentada ao público por andares: cada fase, um andar. No último andar, os quadros são poucos. Quatro, apenas. Nos seus últimos dias no sanatório, Vincent Van Gogh teria, efectivamente, pintado menos.  Lembro-me que o caqui e o castanho-argila, cores que nunca associei ao meu pintor de céus estrelados e girassóis, bateram-me naquele verão em cheio no osso do peito.  

Desta manhã bonita em que trabalho - 3

quarta-feira, 28 de março de 2012

A Aula de Música

A Aula de Música, Johannes Vermeer (cc. 1662-65)

Não é de agora, mas é recente. Dantes a minha irmã dizia que, enquanto pudesse, pudesse ela, pudessem os alunos, manteria as aulas fora de casa. Nunca percebi muito bem, sempre achei que professor de música que se preze, antes e depois das outras aulas, dos ensaios, dos concertos, das audições, das gravações, dá aulas em casa. 
Depois, os alunos foram aparecendo, o horário foi-se esticando, o tempo tornando-se cada vez escasso, e, precisamente pela sua falta, sem possibilidade de ser ubíqua e lesta, a minha irmã cedeu à prerrogativa inicial e as aulas de três alunos passaram a ser cá em casa. As manhãs de Sábado, por exemplo, são geralmente penosas, mas as da Quinta são uma delícia. Neste momento, está a ter aula a aluna da Quinta de manhã. A aluna é maior, a segunda mais velha aluna da minha irmã. Os dois alunos mais velhos da minha irmã são os seus melhores alunos. As músicas que trabalham são mais difíceis que as dos restantes, o som que conseguem extrair do instrumento mais apurado. E mais vivo, mais dorido e mais bonito. 

Um dia volto à música. Pensamento de Quinta-Feira, todas as Quintas.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Diz que é uma espécie de épica - 3

"Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se."


Manuel António Pina, hoje, no JL