terça-feira, 29 de maio de 2012

Sobre a ociosidade e pusilanimidade gerais

Deixei-me ficar muito tempo sentado àquela mesa, abatido. O que me preocupava não era apenas a legalidade duvidosa da situação, nem o acréscimo de esforço e responsabilidades que ela me traria. Era que havia sido decidida pelos meus pares por pura comodidade, num acesso de leviano egoísmo, a que os problemas da cidade, os interesses de Roma eram completamente alheios. Como é que aquilo se tinha tornado possível? Não haver sequer uma voz que chamasse à discussão o interesse público, nem um raciocínio que ponderasse as ameaças que impendiam sobre Tarcisis, nem um gesto mínimo de renúncia sobre a ociosidade e pusilanimidade gerais... Estavam então assim os meus cidadãos? Os meus súbditos, como eu quase poderia agora dizer com propriedade?

Nessa noite, escrevi até altas horas, não para Roma, mas para mim próprio, na intimidade do meu cubículo. Quis tomar nota de tudo, antes que sobreviesse o esquecimento.

Mário de Carvalho, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Moonrise

Moonrise, Edwin Church, 1889

"(...) Em Delos, Património da Humanidade, as pedras foram largadas às silvas e aos cardos, às lagartixas e aos corvos. Nasce um pinhal no meio de colunas. Grande parte da cidade está vedada porque se tornou perigosa. As cisternas estão cheias de água estagnada com mosquitos. As víboras rastejam na sombra. O teatro de Dionysos não se pode visitar. Nem as casas, a de Dionysos, a de Cléopatra, do Tridente. O museu está deserto de guardas, com alas fechadas. O Terraço dos Leões foi invadido pela natureza. A loja fechou. O Estado grego, sem dinheiro, sem funcionários, sem Ministério da Cultura, demitiu-se de Delos. As ervas daninhas e as flores silvestres, os répteis e os insetos devoram Delos. A cidade está submersa em vegetação e abandono e à guarda do tempo, esse grande escultor. Angkor Wat renasce, Delos morre. E que deixará esta civilização que rivalize com a beleza de uma estatueta de Afrodite ou uma figurinha de terracota? Um iPad."

Clara Ferreira Alves, Expresso 19-05-2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

The Harp-Weaver

Edna St. Vincent Millay, s/d, s/a

"(...) Cora e as suas três filhas — Edna (que mais tarde insistiria em ser chamada de Vicent), Norma e Kathleen — saltaram de cidade em cidade, procurando a ajuda e simpatia de família e amigos. Embora pobre, Cora nunca deixou de viajar sem se acompanhar pelo seu baú repleto de literatura clássica, incluindo William Shakespeare, John Milton e outros, que lia com entusiasmo às suas filhas com a sua pronúncia irlandesa. A família acabou por se fixar em Camden, no Maine, numa pequena casa de uma tia rica de Cora. Foi nesta modesta casa que Millay escreveu o primeiro dos poemas que a catapultariam para a fama literária. Cora educou as suas filhas para serem independentes e para dizerem o que pensavam, o que nem sempre foi bem aceite pelas figuras autoritárias da vida de Millay. Millay preferia ser chamada por "Vincent" e não "Edna", que considerava vulgar — o director da sua escola primária, ofendido pelas atitudes frontais de Millay, recusou-se a chamar-lhe Vincent, chamando-a antes por qualquer nome de mulher começado por "V"."

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