sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Obituário: Manuel António Pina (1943 - 2012)

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
prendem-me pequeninas coisas,
livros, coisas escritas, a tua mente, uma fotografia.
Amo-te devagar e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo.
Regresso devagar a tua casa,
abro um livro, e as tuas artes, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina, Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A winding road


Pentti Sammallahti, “Sandö, Finnland”, 1975

Ontem no regresso de Santiago perdemo-nos. O desvio de 11 quilómetros para Vigo baralhou o gps e o regresso fez-se pela Serra do Galinheiro. Ou então, o destino, o universo, o meu Deus, quis falar-me. Às escuras, à chuva, ao vento, uma clareira aqui, os melhores tons do Outono pesado ali, vegetação serrada, piso irregular e escorregadio, um caminho duríssimo sem saída nem retorno. 15 quilómetros depois, chegados ao que parecia ser o mais dentro da montanha, re-programámos o gps para o caminho inverso.

Às vezes, o melhor mesmo é voltar atrás e começar tudo de novo.

domingo, 14 de outubro de 2012

Erik Satie e eu

«Satie comprava um guarda-chuva por dia» - informa Cocteau. De facto, tornou-se lendária a paixão de Satie pelos guarda-chuvas, correndo logo a comprar (mais) um mal recebia algum dinheiro. Helène Jourdan-Morhange: «O guarda-chuva de Satie fazia parte dele próprio. Falava deles a tempo inteiro, perdia-os reencontrava-os. Viram-no, certo dia de tempestade, invectivando os céus e protegendo o guarda-chuva sob o sobretudo.» Poulenc: «À data do falecimento, encontraram no seu quarto uma centena de guarda-chuvas, alguns deles envolvidos ainda no respectivo invólucro.» 

Nota de rodapé, p. 38, de Escritos em forma de grafonola, de Erik Satie. Aqui.