terça-feira, 5 de março de 2013

Era uma vez, a vida


Elliot Erwitt, Mother and Child, NY City, 1953.
Ellen tinha nascido há seis dias quando o pai lhe tirou esta fotografia. Elliott Erwitt, o pai, tinha 24 anos e acabara de abandonar o Exército. A imagem foi captada no Verão de 1953, no Upper East Side de Manhattan. Ganhou um prémio na altura, mas Elliot declinou a distinção, pois a mesma implicava a perda dos direitos de autor sobre a fotografia da sua mulher e da sua filha, na companhia do gato Brutus. «Foi provavelmente das decisões mais inteligentes que tomei na vida», disse Erwitt, acrescentando que os direitos desta fotografia pagaram várias vezes a educação de Ellen. Mother and Child tornou-se uma das imagens mais reproduzidas da época, figurando na célebre exposição Family of Man, organizada em 1955 por Edward Steichen. 
 A mãe que contempla a recém-nascida era uma refugiada, Lucienne Matthews. O casal divorciar-se-ia poucos anos depois, ficando Lucienne com quatro crianças a cargo. Quatro crianças, que tinham entre um e sete anos. Na Europa, vivera sob o domínio nazi nos Países Baixos e, segundo conta um dos seus filhos, o fotógrafo Misha Erwitt, em casa eram conhecidas as histórias da fome que passou num orfanato, nas mensagens que escondia nos livros de escola e passava à resistência holandesa, do dedo esmagado por uma espingarda nazi. Sozinha, criou os quatro filhos, arranjando vários empregos, o mais duradouro dos quais como funcionária da Pan Am. Depois de os filhos crescerem, voluntariou-se para dar aulas de inglês a filhos de imigrantes e adoptou duas crianças vietnamitas que a tratavam por «Avó». O gato Brutus, que se vê na fotografia, era apenas mais um entre os vários animais abandonados que Lucienne trazia para casa. Lucienne teve doenças graves, criou sozinha quatro filhos, adoptou outros dois. No final da guerra, não tinha ninguém, toda a sua família desaparecera. Na América, criou uma família com Elliott, e depois sem ele. The Family of Woman. Segundo o fotógrafo, Mother and Child foi apenas um «instantâneo», mais um dos muitos snapshots que o celebrizaram. Não vou divagar sobre a beleza pura desta imagem, nem sobre a delicadeza da luz ou sobre a sua composição perfeita. Muitos outros já o fizeram, e muito melhor do que eu. Para o autor, aliás, tudo não passou de um «instantâneo», que captou por mero acaso. Erwitt é muitas vezes desvalorizado como fotógrafo, sendo considerado demasiado frívolo ou excessivamente óbvio. Mas digam o que disserem, esta é uma das mais comoventes madonnas que o século XX produziu. "

- António Araújo aqui.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Papa verdadeiro, não o do preconceito

Bento XVI resignou, do meu ponto de vista, por nenhum motivo obscuro, mas por ser quem é e sempre foi: um racionalista (ele mesmo escreveu e disse várias vezes que não era um místico) que entende profundamente o valor da vida e do ser humano. Como intelectual, Bento XVI é superior; como dirigente da Igreja Católica deu cabo de todos os preconceitos daqueles que, à data da sua eleição, queriam vê-lo como um mero "pastor alemão". Eu não sou católico, mas aprendi a respeitar a coerência e a elevação onde quer que elas estejam, bem como a tolerância e a convivência como valores indispensáveis à compreensão mútua. E por ter lido e ouvido de viva voz o Papa, considero-o uma figura impar na nossa intelectualidade.

Para não enfileirar com aqueles que só conseguem elogiar na hora da despedida, cito um artigo que escrevi há quase três anos nas páginas do Expresso precisamente sobre este Papa, quando ele visitou Portugal e eu tive a oportunidade de o ouvir. E deixo algumas notas finais escritas há dois anos, quando tive a oportunidade de apresentar em Portugal o livro "A Luz do Mundo" que resulta da longa entrevista que o jornalista Peter Seewald lhe fez. Já agora, nesse livro Bento XVI colocava a hipótese de resignar mediante certas circunstâncias, entre as quais estas que o levaram à coerência de o fazer. Eis o que escrevi há três anos:

"Mas por que estranha razão, a cada passo, se ouve dizer que este Papa é um reacionário temível? O que Bento XVI quis dizer aos convidados do CCB, entre eles muitos pertencentes a outras confissões ou não professando nenhuma, foi simples: que cada um deve fazer da sua vida um lugar de beleza e que a Igreja está sempre a aprender a conviver e a respeitar os outros; "outras verdades, ou as verdades dos outros". A mensagem foi de uma profunda tolerância e de esperança que a "Verdade" possa iluminar cada ser humano. Quem se sente ameaçado por palavras assim? Já no avião, Bento XVI desarmara a polémica da pedofilia ao afirmar que a perseguição à Igreja não nasce dos seus inimigos, mas do seu interior. A frase, que parecerá revolucionária a quem nada leu sobre Cristo - a começar pela Bíblia - está, no entanto, em perfeita linha com a melhor tradição da Igreja. Em Fátima, o Papa defendeu - e bem - a liberdade de culto.

E assim, Bento XVI surge-nos infinitamente melhor do que aquilo que dele dizem.

E aqui se revela o preconceito.

Não o estafado preconceito que é arma de arremesso de todos os pós-modernos quando em causa está uma hierarquia de valores; mas o preconceito daqueles que, dizendo-se despreconceituosos, não resistem a um teste simples: fazer a crítica coerente ao que o Papa diz - e não a um conjunto de ideias pre-formatadas que ele jamais defendeu.

A luta central de Bento XVI é contra a desregulação do ethos, da ética - a mesma desregulação que elevou a ganância e a especulação a deuses de pés de barro que se estatelaram no primeiro abanão. É uma luta árdua contra a desvalorização da vida, da família, do esforço honesto e da esperança que pode e deve envolver não apenas os católicos. No CCB, também os líderes de outras confissões saudaram as palavras do Papa.

É difícil ir contra aquilo que se convenciona, em determinado momento, ser moda: o chocante, o grotesco, a desconstrução, a ganância, o egotismo. E, uma vez que a Igreja Católica continua a aprendizagem da convivência, mais do que possível é desejável o caminho comum."

E assim terminava o texto escrito no Expresso. Quero apenas colocar mais cinco notas, já escritas igualmente, mas que tenho vindo a confirmar:

1) Como Bernard-Henry Levy também eu penso e escrevi que tudo o que diz respeito ao Vaticano e ao Papa surge na imprensa e em certos círculos acompanhado de preconceito, desonestidade e até desinformação.

2) Posso testemunhar que Bento XVI tem razão quando afirma que ninguém faz, em concreto, tanto pelos pobres, pelos que passam mal e sobretudo pelos doentes de sida como a Igreja. Andei muito por África - cobri conflitos civis em Angola, Moçambique, África do Sul, Namíbia, Malawi, Congo, Zimbabwe e sei bem que nesse Continente, bem como noutras partes do mundo, a Igreja tem uma obra assinalável. Há nos locais mais recônditos, sujos, doentios, depressivos sempre alguém que, por nada ou quase nada em troca, está lá a ajudar os outros. Diria que 100% são crentes e desses a maioria cristãos e a maior parte católicos.

3) A reação do Papa às denúncias do escândalo da pedofilia foi esta, exatamente, que transcrevo (e não o que por aí anda a correr: "Desde que sejam verdade são bem vindas - a verdade, conjugada com o amor corretamente entendido é o valor primordial". Eis algo que é raro, senão impossível, ouvir de alguém responsável, nomeadamente na política.

4) A ideia da racionalidade na Fé (ou na crença) liga-se a uma questão pertinente que raras pessoas gostam de responder. Esta: se a cultura, ou o múnus da cristandade no Ocidente perder a sua força estruturante da sociedade quem ou o quê vai assumir o seu lugar?

5) Ratzinger tem toda a razão quando defende que a tolerância está em perigo com as doutrinas politicamente corretas. O seu exemplo é para mim paradigmático. Ei-lo "está a difundir-se uma nova intolerância (...) existem regras ensaiadas de pensamento que são impostas a todos e que são depois anunciadas como uma espécie de tolerância negativa. Como quem diz que, por causa da tolerância negativa não pode haver crucifixos nos edifícios públicos. Basicamente isto significa a abolição da tolerância"

Este texto vai longo, mas penso que vale a pena refletir sem preconceitos sobre esta figura e sobre o exemplo que ele dá a tanta gente. Ninguém é eterno e menos insubstituível. A dignidade dos cargos está relacionada com a dignidade de quem os exerce.

- Henrique Monteiro, Expresso, 12 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Do dia - 52


"I don’t know how it happened – it was almost imperceptible. It was about three weeks into the picture – the end of the day – I had one more shot, was sitting at the dressing table in the portable dressing room combing my hair. Bogie came in to bid me good night. He was standing behind me – we were joking as usual – when suddenly he leaned over, put his hand under my chin, and kissed me. It was impulsive – he was a bit shy – no lunging wolf tactics. He took a worn out package of matches out of his pocket and asked me to put my number on the back. I did." 

– Lauren Bacall on how her relationship with Humphrey Bogart started

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Sítios fora do mapa - 6


Mia Farrow and Frank Sinatra leaving Truman Capote's masquerade ball, 1966.  
"Even though Truman Capote's masquerade was the hottest ticket in 1966, at the advice of Evie Backer, Truman purposely made the decor at his event as understated as possible - no elaborate centerpieces or ice sculptures. The eye candy at his event would be the guests themselves. As his guest of honor, he chose Kay Graham, who had been the publisher of the Washington Post since her husband's suicide three years earlier. This was very much to the surprise of New York society: Kay wasn't deeply entrenched in their ranks and rarely wore makeup or got gussied up... which was exactly why Truman chose her. He spent months and months perfecting his guest list - only 500 people would be invited and he wanted a mix of people more interesting than just the usual suspects. When the coveted invitations were finally sent, they included requests that everyone wear masks and ladies carry fans. Most people complied with the mask requirement (Andy Warhol was a noted holdout) but a lot of women dispensed with the fans - it was too hard to carry a mask and a fan at the same time."