terça-feira, 14 de novembro de 2017

What can be meaningful

because we think language is fundamentally about naming things, we think that psychological concepts must also be names of things, but of things in an inner space. So we model the reality of the inner on the existence of physical things with the peculiar property that these mental objects are only visible to and nameable by their owner. But we are also puzzled about how words can function as names at all. How they can reach out to what they name? Words are, after all, just arbitrary sounds or squiggles. We think then that it must be something special indeed which enables words to have meaning. It must be some special set of the psychological states and processes, a picture of which we already have. Our words mean because we mean. And we can mean because we are in possession of inner, essentially private psychological states that can intrinsically reach out to the world. Language is really a collection of private, inner acts of meaning and naming, a collection of private languages that happen, more or less imperfectly, to overlap.

sábado, 11 de novembro de 2017

O mistério da confluência de mundos e realidades

Iniciámos a confeção da marmelada na tarde de Setembro ainda quente. Entretém-me contando histórias do tempo em que era jovem, do que ouviu dos antepassados ou do que viveu, sabendo que me deixo arrebatar pelo mistério da confluência de mundos e realidades. Fala-me sobre almas penadas que erram pelo nosso universo e se escondem da luz do dia pelos campos agrestes, nas matas de zambujeiro, nelas permanecendo enredadas, até à hora mágica do anoitecer, altura em que se libertam e passeiam pelo mundo dos vivos, enquanto os pássaros regressam aos ninhos. Narra-me histórias de fátuas esferas de luz prateada que amedrontam os passantes na noite, acompanhando-os por longos percursos, girando à sua volta como libelinhas do além e desaparecendo inexplicavelmente, tal como aparecem. Recorda episódios sobre encontros à meia-noite, nas portas dos cemitérios, com seres enigmáticos, incorpóreos, que esperam os homens e mulheres tardios, regressando do trabalho ou da taberna, a horas que não são de gente de carne. Seres que nos visitam e se revelam, dialogando com os vivos, fingindo que o são e desvanecendo-se quando lhes convém. No tempo antigo conheceu fenómenos relacionados com o desrespeito da sexta-feira santa, porque nesse dia sagrado não se trabalha. Não se lava a roupa nem se passa a ferro nem se cozinha, sob pena de o trabalho ser manchado pelo sangue que Cristo derramou. Afiança-me que é assim. Que sempre será. Que tenho de respeitar.
Isabela Figueiredo, A Gorda.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Remoo

Digo que a minha fome desse tempo nasceu no estômago, no centro de mim, mas nunca saberei ao certo de onde veio. Comprimia-o, pontapeava-o. Era uma dor que não matava, tal como a saudade de alguém que nos morre. Engolia os alimentos depressa sem os mastigar. Sentia-lhes o delicioso paladar rápido, e o torrão sólido caía no estômago começando a enchê-lo como a um saco de batatas, tubérculo a tubérculo. O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado. Sinto-me consolada. Se não, vai-me espetando no estômago o seu ferrão, para que não me esqueça. Não esqueço. Acalma-te, fome, eis as tuas oferendas! Pão com marmelada. Pão com manteiga. Pão com chouriço. Teria preferido sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me o monstro multicéfalo da fome no interior do estômago, ligado ao cérebro. É como se tivesse cogumelos a crescer no interior escuro e húmido do meu corpo. Esporos de fome semeados pela criação. Se tivesse sido logo o que vim cá ser, viveria em paz com o monstro e dormiria com ele, como com um cão. Medito. Remoo. Maldigo. Eu ainda não sou o que vim cá ser. E o que é isso que me espera?
Isabela Figueiredo, A Gorda.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Coisas da vida

Respondi-lhe pouco depois, como sempre fazia, agradecendo a lembrança mas declinando o convite. Atualizei a minha morada e número de telefone, por solicitação sua, mas já não pertencia ao seu mundo nem ela ao meu. Era-me estranha. Não tinha saudades nem alimentava curiosidade sobre aquilo em que se tornara. Passara-me tudo, completamente. Não previ que, a partir do momento em que lhe facultasse os meus contactos, pudesse recomeçar a ser alvo da sua constante solicitação, sobretudo via telefone. Não tinha vontade de a ouvir falar sobre o que não me interessava e não havia nada que desejasse contar-lhe. Como é que a Tony não compreendia, nem que fosse pelas minhas pausas e silêncios telefónicos, que tínhamos desenvolvido interesses e vidas completamente diferentes?! Que estávamos acabadas uma para a outra?! Pus a mamã a atender, alegando que eu não estava em casa. Foi fácil. A mamã não viu na minha atitude nada de estranho, porque não acreditava em amigas.
A Tony tentou a via da correspondência. Passei a receber cartas pejadas de informação e fotos tiradas aqui e ali, sempre maravilhosa. Continuava a querer incluir-me na sua vida à força. Eu ia lendo as cartas de viés, respondendo pouco e mal ou ignorando. A certa altura deixei de responder. Não estava para fazer mais fretes.
Isabela Figueiredo, A Gorda.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Duas ou três coisas que eu sei sobre bactérias como a legionella

- Não é uma bactéria hospitalar, ao contrário do que os media podem levar o incauto espectador a crer. É uma bactéria que se desenvolve nas condutas de ar refrigerado, condicionado, etc. Não é preciso desinfectar o hospital X, o centro de saúde Y e a usf Z, não é preciso limpar o SNS do que quer que seja. Basta mudar os equipamentos (filtros do ar condicionado e afins) dos hospitais, centros de saúde, usfs, metros, comboios, aviões, shoppings, táxis, cafés, restaurantes, livrarias, lojas, gabinetes, consultórios, repartições públicas, cabeleireiros... - estão a ver onde quero chegar? - com determinada periodicidade. ( E sim, o prazo de utilização segura dos equipamentos é muito curto.)

- Tem custos? Tem. É mais caro do que limpar? Muito mais, sobretudo porque a mudança de equipamento deve ser muito frequente.


- Não ataca só idosos, nem só quem tem comorbilidade. Ataca qualquer pessoa, homem ou mulher, que no período de exposição esteja com uma baixa imunidade. Isto quer dizer exactamente que ninguém está livre, lamento.


- Não é fácil sobreviver-lhe porque o diagnóstico não é evidente. Primeira consulta: "Isso é alergia, vá para casa." Segunda consulta: "Isso é gripe, vá para casa." Terceira consulta: "Isso é pneumonia, tenha cuidado, vá para casa." Quarta consulta: "Isso é..., vamos induzir o coma."


- Sobrevivendo-lhe, não é possível ficar ileso ou livre de uma série de outras morbilidades. A medicação de uso hospitalar é incapacitante a vários níveis na sobrevida. (Alguém se lembra ainda das queixas dos sobreviventes de Vila Franca de Xira? E da senhora que sucumbiu a um aneurisma ao dar à luz?) 

Vamos ser sérios, sim?