quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Gonçalo M. Tavares dixit

Energia e ética

Sei isto: a minha energia está canalizada
Para a palavra fazer, gosto da ideia de construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sítio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que na vida se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela)
– e é talvez uma moral –
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar abaixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço de onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.

Gonçalo M. Tavares -1, Relógio D’Água, 2004.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Morreu o marido da Sra. D. Agustina

Alberto Luís, Agustina, 1957.
Morreu o marido da Sra. D. Agustina. O marido da Sra. D. Agustina que nunca foi apenas o marido-braço-direito-revisor-dactilógrafo da Sra. D. Agustina. O facto de a Alberto Luís devermos a vida de Agustina totalmente consagrada à obra diz pouco acerca deste jurista, humanista, artista, que, ainda estudante de Direito em Coimbra, terá respondido ao anúncio que a escritora irreverente colocara num jornal nacional buscando, à revelia da família, um marido interessante. 
Sempre que vou à Confeitaria do Bolhão, recordo o rato que Agustina disse que assustara o padre, que o vira sair dali, quando foram, os noivos e ele, tomar chá, após o matrimónio na Capela das Almas. Leia-se O Livro de Agustina, leia-se Agustina, e a vida de Alberto Luís humanista, e um certo Porto antigo, não terão sido absurdamente em vão.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

What can be meaningful

because we think language is fundamentally about naming things, we think that psychological concepts must also be names of things, but of things in an inner space. So we model the reality of the inner on the existence of physical things with the peculiar property that these mental objects are only visible to and nameable by their owner. But we are also puzzled about how words can function as names at all. How they can reach out to what they name? Words are, after all, just arbitrary sounds or squiggles. We think then that it must be something special indeed which enables words to have meaning. It must be some special set of the psychological states and processes, a picture of which we already have. Our words mean because we mean. And we can mean because we are in possession of inner, essentially private psychological states that can intrinsically reach out to the world. Language is really a collection of private, inner acts of meaning and naming, a collection of private languages that happen, more or less imperfectly, to overlap.

sábado, 11 de novembro de 2017

O mistério da confluência de mundos e realidades

Iniciámos a confeção da marmelada na tarde de Setembro ainda quente. Entretém-me contando histórias do tempo em que era jovem, do que ouviu dos antepassados ou do que viveu, sabendo que me deixo arrebatar pelo mistério da confluência de mundos e realidades. Fala-me sobre almas penadas que erram pelo nosso universo e se escondem da luz do dia pelos campos agrestes, nas matas de zambujeiro, nelas permanecendo enredadas, até à hora mágica do anoitecer, altura em que se libertam e passeiam pelo mundo dos vivos, enquanto os pássaros regressam aos ninhos. Narra-me histórias de fátuas esferas de luz prateada que amedrontam os passantes na noite, acompanhando-os por longos percursos, girando à sua volta como libelinhas do além e desaparecendo inexplicavelmente, tal como aparecem. Recorda episódios sobre encontros à meia-noite, nas portas dos cemitérios, com seres enigmáticos, incorpóreos, que esperam os homens e mulheres tardios, regressando do trabalho ou da taberna, a horas que não são de gente de carne. Seres que nos visitam e se revelam, dialogando com os vivos, fingindo que o são e desvanecendo-se quando lhes convém. No tempo antigo conheceu fenómenos relacionados com o desrespeito da sexta-feira santa, porque nesse dia sagrado não se trabalha. Não se lava a roupa nem se passa a ferro nem se cozinha, sob pena de o trabalho ser manchado pelo sangue que Cristo derramou. Afiança-me que é assim. Que sempre será. Que tenho de respeitar.
Isabela Figueiredo, A Gorda.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Remoo

Digo que a minha fome desse tempo nasceu no estômago, no centro de mim, mas nunca saberei ao certo de onde veio. Comprimia-o, pontapeava-o. Era uma dor que não matava, tal como a saudade de alguém que nos morre. Engolia os alimentos depressa sem os mastigar. Sentia-lhes o delicioso paladar rápido, e o torrão sólido caía no estômago começando a enchê-lo como a um saco de batatas, tubérculo a tubérculo. O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado. Sinto-me consolada. Se não, vai-me espetando no estômago o seu ferrão, para que não me esqueça. Não esqueço. Acalma-te, fome, eis as tuas oferendas! Pão com marmelada. Pão com manteiga. Pão com chouriço. Teria preferido sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me o monstro multicéfalo da fome no interior do estômago, ligado ao cérebro. É como se tivesse cogumelos a crescer no interior escuro e húmido do meu corpo. Esporos de fome semeados pela criação. Se tivesse sido logo o que vim cá ser, viveria em paz com o monstro e dormiria com ele, como com um cão. Medito. Remoo. Maldigo. Eu ainda não sou o que vim cá ser. E o que é isso que me espera?
Isabela Figueiredo, A Gorda.