segunda-feira, 12 de abril de 2021

Monday mood (47)

Há dias ouvindo o podcast de Joana Amaral Dias, porque já vivi o suficiente para saber os psicopatas não vivem apenas nas séries de crimes, há vários entre nós, apercebi-me de uma coisa que me entra na vida a cada momento e, porventura, passa despercebida a muitos. Somos um país que funciona mal. Somos um país que funciona mal basicamente porque as instituições públicas têm reguladores ou de papel ou encerrados em torres distantes, próximos só das cúpulas. No primeiro episódio do podcast, o único que ouvi na íntegra, é contada a história da Irmã Tona, uma freira de 61 anos, violada e assassinada por um recluso em liberdade condicional. Mas este recluso tinha, na verdade, um mandado de detenção por ter tentado fazer a uma jovem o que fez à freira. O que aconteceu foi que o mandado de detenção deste recluso não foi executado a tempo: o Ministério Público da região em vez de ordenar a execução do dito mandato, remeteu-o à apreciação de um juiz de instrução criminal a quem pediu que fossem ordenadas diligências adicionais. Estas diligências absolutamente desnecessárias para a execução do mandato demoraram dias, como é natural. Durante os cinco dias que foram necessários para que elas fossem pedidas e executadas, o perigo andou à solta e pôde fazer os estragos que fez. Somos um país que funciona mal, calcula mal os riscos, pensa mal. Que deixa matar, que deixa morrer, por negligência, por inépcia, por inconsciência. No fim só faz falta quem cá está. No fim ninguém perde o emprego. Não queremos ver isto. Preferimos procurar bodes expiatórios - o juiz, o primeiro-ministro mais famoso do país, a justiça, a falta de meios - para não vermos o óbvio: as instituições funcionam mal, porque não são criados instrumentos que punam a má decisão, a decisão preguiçosa, a decisão lenta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário