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sábado, 30 de novembro de 2013

Do dia - 93

"Acho que Sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço: sábado ao vento é a rosa da semana. Sábado de manhã é quintal, uma abelha esvoaça, e o vento: uma picada da abelha, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. Nos quintais da infância no sábado é que as formigas subiam em fila pela pedra. Foi num sábado que vi um homem na sombra da calçada comendo de uma cuia carne-seca e pirão: era sábado de tarde e nós já tínhamos tomado banho. Às duas horas da tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: e ao vento sábado era a rosa de nossa insípida semana. Se chovia, só eu sabia que era sábado: uma rosa molhada, não? No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana exausta vai morrer, ela com grande esforço metálico se abre em rosa: na Avenida Atlântica o carro freia de súbito com estridência e, de súbito, antes do vento espantado poder recomeçar, sinto que é sábado de tarde. Tem sido sábado mas já não é o mesmo. Então eu não digo nada, aparentemente submissa: mas na verdade já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. Domingo de manhã também é a rosa da semana. Embora sábado seja muito mais. Nunca vou saber por quê." 

 - Clarice Lispector, "Sábado" in A Descoberta do Mundo, p. 421.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Why this World



Acabei de ler Sopro de Vida, a biografia de Clarice Lispector da autoria de Benjamin Moser. O livro, Why this World no original, termina com a transcrição desta entrevista, a última da autora e tão densa que a própria terá pedido que fosse emitida apenas depois da sua morte. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Coisas que foram caindo em desuso - 10

"Quando conscientemente, aos treze anos de idade, tomei posse da vontade de escrever - eu escrevia quando era criança. mas não tomara posse de um destino - quando tomei posse da vontade de escrever, vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem me pudesse ajudar. 
Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar por assim dizer a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo. Os papéis se juntavam um ao outro - o sentido se contradizia, o desespero de não poder era um obstáculo a mais para realmente não poder. A história interminável que então comecei a escrever (com muita influência de O Lobo das Estepes de Herman Hesse), que pena eu não ter conservado: rasguei, desprezando todo um esforço quase sobre-humano de aprendizagem, de auto-conhecimento. E tudo era feito em tal segredo. Eu não contava a ninguém, vivia aquela dor sozinha. Uma coisa eu já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, não esperar um momento melhor porque este simplesmente não vinha. Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir."

 - Clarice Lispector, "Escrever", in A Descoberta, apud Benjamin Moser, Clarice Lispector - uma vida.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Gente gira - 9

"Julgo, porém, passados tantos anos após a sua morte, que cada dia para Clarice era um fardo, embora com uma esperança latente. E isto porque, a despeito dos percalços da sua alma, bastava-lhe tomar café, comer, saber de alguma boa intriga ou peripécia, para lhe nascer de imediato alguma réstia de ilusão." 

 Nélida Piñon, "Senhora da luz e da sombra", um ensaio sobre Clarice no JL desta quinzena a propósito desta exposição