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quarta-feira, 7 de março de 2018

Tudo está bem quando acaba bem.

A minha primeira ida a Paris foi em 2003. Acabada de sair do avião, dirigi-me aos tapetes de recolha de bagagem com a naturalidade que andar quatro anos em pêndulo constante entre o continente e a Madeira me deu. A minha mala tardava em aparecer, mas uma volteava ali desde o início. Não dei muita importância, mas o aeroporto deu. Em menos de um ai, isolaram o perímetro, choveram polícias, choveram militares, fez-se um silêncio terrível - só interrompido pela entrada do atrasado dono da maleta e subsequente ovação universal. Isto para dizer que daí para cá, cada vez mais, prevenir um ataque é importante. Pode causar incómodos, mas a alternativa crédula incomoda mais. Pelo menos a mim.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Morreu o marido da Sra. D. Agustina

Alberto Luís, Agustina, 1957.
Morreu o marido da Sra. D. Agustina. O marido da Sra. D. Agustina que nunca foi apenas o marido-braço-direito-revisor-dactilógrafo da Sra. D. Agustina. O facto de a Alberto Luís devermos a vida de Agustina totalmente consagrada à obra diz pouco acerca deste jurista, humanista, artista, que, ainda estudante de Direito em Coimbra, terá respondido ao anúncio que a escritora irreverente colocara num jornal nacional buscando, à revelia da família, um marido interessante. 
Sempre que vou à Confeitaria do Bolhão, recordo o rato que Agustina disse que assustara o padre, que o vira sair dali, quando foram, os noivos e ele, tomar chá, após o matrimónio na Capela das Almas. Leia-se O Livro de Agustina, leia-se Agustina, e a vida de Alberto Luís humanista, e um certo Porto antigo, não terão sido absurdamente em vão.

domingo, 24 de setembro de 2017

Tudo parece ter sido ontem.

Na ferrovia, o orgulho de pertença anda numa frequência distinta dos calendários, como se a passagem dos anos jamais pudesse diminuir sentimentos. Júlio, crescido já fora da estação sem nunca a perder é também prova disso. Naquela geografia, mais do que noutra qualquer, habitam emoções prosaicas agigantadas. O barulho constante, de silvos e de gente, e o fumo, sempre o fumo. Das máquinas a vapor, a carvão, a lenha, e depois ainda a óleo, as mais temidas pela avó, sempre a correr a recolher a roupa da corda do quintal. Tudo parece ter sido ontem. O gato Nico a fugir para os telhados da estação, as visitas do barbeiro a casa, o "polícia do canário", que trabalhava na gare e um dia lhe ofereceu um pássaro, os melões vindos de Almeirim e vendidos em vagões à porta da estação, a senhora muito malcriada com quem aprendeu muitas asneiras.
Mariana Correia Pinto, Porto, última estação.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

40 minutos com Pablo Neruda face a face

Imagem daqui
Gostava muito que as pessoas que nos desgovernam, subissem um dia a pé a Rua de Santa Catarina, às seis e meia da tarde, e topassem com a pobreza desesperada, a pobreza doente, a pobreza alcoólica, a pobreza larápia, a pobreza triste, a pobreza magra e muda, a pobreza disfarçada, a pobreza envergonhada e a desavergonhada. Aposto que não chegavam à Praça do Marquês muito satisfeitos. Mas que sei eu.


Oda a la pobreza

Cuando nací,
pobreza,
me seguiste,
me mirabas
a través
de las tablas podridas
por el profundo invierno.
De pronto
eran tus ojos
los que miraban desde los agujeros.
Las goteras,
de noche, repetían
tu nombre y tu apellido
o a veces
el salto quebrado, el traje roto,
los zapatos abiertos,
me advertían.
Allí estabas
acechándome
tus dientes de carcoma,
tus ojos de pantano,
tu lengua gris
que corta
la ropa, la madera,
los huesos y la sangre,
allí estabas
buscándome,
siguiéndome,
desde mi nacimiento
por las calles.

Cuando alquilé una pieza
pequeña, en los suburbios,
sentada en una silla
me esperabas,
o al descorrer las sábanas
en un hotel oscuro,
adolescente,
no encontré la fragancia
de la rosa desnuda,
sino el silbido frío
de tu boca.
Pobreza,
me seguiste
por los cuarteles y los hospitales,
por la paz y la guerra.
Cuando enfermé tocaron
a la puerta:
no era el doctor, entraba
otra vez la pobreza.
Te vi sacar mis muebles
a la calle:
los hombres
los dejaban caer como pedradas.
Tú, con amor horrible,
de un montón de abandono
en medio de la calle y de la lluvia
ibas haciendo
un trono desdentado
y mirando a los pobres
recogías
mi último plato haciéndolo diadema.
Ahora,
pobreza,
yo te sigo.
Como fuiste implacable,
soy implacable.
Junto
a cada pobre
me encontrarás cantando,
bajo
cada sábana
de hospital imposible
encontrarás mi canto.
Te sigo,
pobreza,
te vigilo,
te acerco,
te disparo,
te aislo,
te cerceno las uñas,
te rompo
los dientes que te quedan.
Estoy
en todas partes:
en el océano con los pescadores,
en la mina
los hombres
al limpiarse la frente,
secarse el sudor negro,
encuentran
mis poemas.
Yo salgo cada día
con la obrera textil.
Tengo las manos blancas
de dar pan en las panaderías.
Donde vayas,
pobreza,
mi canto
está cantando,
mi vida
está viviendo,
mi sangre
está luchando.
Derrotaré
tus pálidas banderas
en donde se levanten.
Otros poetas
antaño te llamaron
santa,
veneraron tu capa,
se alimentaron de humo
y desaparecieron.
Yo te desafío,
con duros versos te golpeo el rostro,
te embarco y te destierro.
Yo con otros,
con otros, muchos otros,
te vamos expulsando
de la tierra a la luna
para que allí te quedes
fría y encarcelada
mirando con un ojo
el pan y los racimos
que cubrirá la tierra
de mañana.


Pablo Neruda