sábado, 24 de junho de 2017

Exploradoras e revolucionárias

Exploradoras e revolucionárias, como éramos ambas por natureza, vivíamos sob a influência de uma sociedade uns cinquenta anos  velha demais para nós. Foi este facto curioso que tornou a nossa luta tão amarga e tão violenta. É que a sociedade na qual vivíamos era ainda a sociedade vitoriana. O meu pai era um vitoriano típico. George e Gerald eram vitorianos aquiescentes e aprobativos. Assim sendo, tínhamos duas guerras para travar, uma contra eles individualmente e a outra contra eles socialmente.
Virginia Woolf sobre ela e Vanessa Bell, Momentos de Vida, trad. Eugénia Antunes

sábado, 17 de junho de 2017

Uma mistura

Era uma pessoa complexa; a sua enorme simplicidade e franqueza combinavam-se com um espírito cético e sério. Porventura seja essa combinação que explica a forte impressão que ela deixava nas pessoas; uma impressão positiva. O seu caráter era aguçado por esta mistura de simplicidade e ceticismo. Era sociável, mas severa; muito divertida, porém muito séria; extremamente prática, contudo possuidora de uma grande profundidade...
Virginia Woolf sobre a mãe, Momentos de Vida, trad. Eugénia Antunes

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A cidade universal

Há um processo de monumentalização levado a cabo pelo turismo e acabamos por olhar a nossa própria cidade com os olhos do turista que a monumentaliza, tal como o alentejano que voltava as costas ao mar e à paisagem que era para ele completamente hostil fala hoje encantado, usando uma designação inventada há algumas décadas pelo turismo, do seu “litoral alentejano”. A crítica do turismo baseada nos direitos dos autóctones vai perder em breve o seu fundamento. A razão do autóctone vai dissolver-se no turismo total.
António Guerreiro, hoje no Ípsilon.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Vagueávamos juntas, quais navios num imenso oceano

Uma outra influência se agitava já nessa altura dentro dela: a influência de um afecto que apenas outras pessoas podiam obsequiar. Não havia buraco cavado no jardim, por mais fundo que fosse, do qual pudesse extrair-se argila maleável, que lhe desse tudo o que ela necessitava. As bonecas não a satisfaziam. Naquele tempo, e até aos quinze anos, na verdade, era aparentemente séria e austera, a mais digna de confiança e sempre a mais velha: por vezes, queixava-se das suas "responsabilidades". As outras crianças tinham as suas fases de crescimento, os seus dotes e desaires repentinos; ela, contudo, dir-se-ia que avançava perseverantemente, como que de olhos fixos num objectivo longínquo que, uma vez alcançado, ela revelaria.

Virginia Woolf sobre Vanessa Bell
Momentos de Vida, trad. Eugénia Antunes

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Monday mood (3)

In winter I get up at night
And dress by yellow candle-light.
In summer, quite the other way,
I have to go to bed by day.

I have to go to bed and see
The birds still hopping on the tree,
Or hear the grown-up people's feet 
Still going past me in the street.

And does it not seem hard to you, 
When all the sky is clear and blue,
And I should like so much to play,
To have to go to bed by day?

Robert Louis-Stevenson, "Bed in Summer".