segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Monday mood (16)

Leio num precioso livrinho de Szymborska que os lemingues, criaturas meigas, vivem em tocas que frequentemente sobrelotam. Sempre que isso acontece, abandonam as casas num êxodo desesperado que só pára quando chegam ao mar e se afogam. A natureza, e a história humana, tem destes horrores – diz a poeta.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Elogio de Maria Teresa

Eu que às vezes encontro sem saber porquê
um simples não sei quê em estátuas retratos antigos
de límpidas mulheres desconhecidas
eu que de súbito à primeira vista me apaixono adolescentemente
por essas mulheres mortas mas contemporâneas
de um pobre poeta português do século vinte
levadas até ele talvez por um discreto gesto
às formas e às cores impresso por um homem
que na arte encontrava a única razão de vida
abro a pasta e deparo com o teu retrato
um retrato de passe anos atrás tirado
no sítio suburbano onde primeiro vivemos
e juntos suportámos com surpresa a solidão
de sermos dois e ela só vergar os ombros onde os dias nos poisavam
Conheço outros retratos teus onde também estás viva
um deles bem me lembro estava à minha espera em saint-malo
uma tarde ao voltar do monte saint-michel
nesse verão bretão onde então procurava
justificação por mínima que fosse para a vida
numa das muitas fugas de mim próprio
que às vezes empreendo embora antecipadamente certo
de que só pela morte enfim me encontrarei comigo
com todos quantos verdadeiramente amei
alguns desconhecidos e alguns mesmo inimigos
sobretudo sedentos de justiça
de que depois somente de bem morto hei-de dispor daquela paz
que sempre apeteci mas nunca procurei
até por não ter tempo para isso nem sequer para saber
coisas simples como saber quem sou porque ao certo só sei
que muito mais passei naquilo em que fiquei
nem que fossem os filhos ou os versos
que fiquei muito mais naquilo onde passei
como passos na areia no inverno ou repentinas sensações
de me sentir de súbito sensivelmente bem
encher o peito de ar sentir-me vivo
São retratos diferentes de quem foste um breve instante
e nele floriste e apenas não murchaste
por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias
Mas há em todos eles uma graça inesperada
a surpresa da corça ou restos dessa raça
que há em ti talvez um pouco mais que nas demais mulheres
expressão sempre surpreendente da surpresa
mesmo até para quem te conhece tão bem como eu te conheço
Se nuns mais do que noutros sem excepção desponta
a madrugada que era e é esse teu riso claro
quem primeiro falou de riso claro
talvez houvesse ouvido a água quando corre sobre os seixos de um ribeiro
talvez a houvesse visto branca e fresca
mas teve de inventar pra conquistar essa metáfora
quando eu que te ouvi rir não fiz mais do que ouvir
e sei que o som da água imita o teu sorriso
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno-almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres
além de ti além de minha mãe
Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste
a tua alegre vida irrequieta
no único infeliz dos teus negócios
por um poeta pobre velho e feio como eu
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia-a-dia
mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons-dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno-almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental

Ruy Belo, 'Transporte no Tempo', Lisboa, Moraes Editores, 1973.
(Retirado do mural do facebook de Luís Manuel Gaspar.)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Monday mood (15)

DE TERTULIA POETARUM

de tortura militum
libera nos domine
de nocte infinita
libera nos domine
de morte nocturna
libera nos domine

Paulo Leminski, Poesia Toda.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Notas sobre a escola que temos hoje

Andei a ponderar se haveria de referir-me aos rankings por uma série de razões óbvias -  à excepção do meu ano de estágio, fui Professora  do básico/Secundário de uma única turma, cinco meses, em Palmeira, corria o longínquo ano de 2005 (e essa via encerrou aí) - e outras tantas menos óbvias - a começar pela sua origem e elaborada discussão pelos media, que todos os dias manipulam, dicotomizando, a sociedade, a política, a religião, para vender ou gerar tráfego. Mas agora que li que uma idiota homónima - há disso hoje aos pontapés - esteve no canal que disso detém a patente a perorar sobre Câmara de Lobos e Baião, como se essas localidades vivessem no Paleolítico médio... donde a posição que ocupam nos rankings, achei que deveria colocar os pontos nos is possíveis. É preconceito? É. Mas é, sobretudo, desconhecimento veiculado irresponsavelmente.

Alguns pontos a considerar:
- a elaboração destas classificações não é tutelada (Que pretenderão, então, os seus autores?);
- também não é científica (O meio escolar, como o social, é heterogéneo. Há factores, com diferentes pesos, a ter em conta.);
- assenta em pressupostos erróneos:
-- o privado escolhe os alunos - não, os pais dos alunos escolhem o privado (vão por mim, fiz lá a minha escolaridade toda);
-- o privado é para os ricos [argumento socialmente incendiário]: não, não exclusivamente (vão por mim);
-- os meninos do privado não têm problemas sócio-económicos [argumento socialmente incendiário]: certo, mas têm outros (tão ou mais cabeludos, perdão: determinantes).
- a escola pública não pode competir com o privado (pela falta de recursos).

O único recurso de que qualquer escola precisa são os professores.
Eles existem. Estão no público, estão no privado, até estão em outros sectores. O que o privado descobriu que faz a diferença, e o público teima em desolhar, é a vantagem de institucionalizar o explicador. (A directora do colégio que está melhor cotado, senhora que conheço bem, falava no acompanhamento pessoal. É isto.) Quando o ministério for capaz de perceber isto, mudar (quase) tudo, e implementar a figura do professor-tutor (não é professor do apoio, não é professor-terapeuta; não é professor-amigo), as diferenças esbatem-se. O professor não é um burocrata; o professor não é um assistente social; o professor não é um voluntário; o professor não é um escravo; o professor não é um saco de pancada. O professor é, dos profissionais qualificados, o menos respeitado no nosso país. E, infelizmente, o exemplo vem das cúpulas: uma pessoa lê isto e pasma.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O tempora, o mores

Uma pessoa lê o Público acabado de deixar na mesa que lhe calhou e, mesmo com o Ipsilón pelo meio, é tudo tão sórdido, o nosso tempo, o nosso mundo, o país, a terrinha, o burgo, que a vontade que tem é só uma: evadir-se.
Mas para onde, para onde?

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Mary Beard

One reason Beard is so widely beloved is that her interventions in public life – whether one agrees with her or not – offer an alternative mode of discourse, one that people are hungry for: a position that is serious and tough in argument, but friendly and humorous in manner, and one that, at a time when disagreements quickly become shrill or abusive, insists on dialogue. Still, it is these precise qualities that can, equally, land her in deep water. The point of her notorious 9/11 article was that one could simultaneously deplore the terrorists’ murderous violence, and try to understand their position. After the deluge of angry emails arrived, she tried to reply to most of them, even making a couple of friends along the way. When I asked her if she would countenance taking Isis’s ideology seriously, she said: “That’s the wrong question. There is no argument that I won’t take seriously. Thinking through how you look to your enemies is helpful. That doesn’t mean that your ideology is wrong and theirs is right, but maybe you have to recognise that they have one – and that it may be logically coherent. Which may be uncomfortable.” Few would think it worth arguing with Arron Banks, the Ukip donor, when he said the Roman empire had collapsed because of immigration. Beard pulled him up on Twitter, suggesting he might like to read a bit more classical history – and then went out to lunch with him.
Mais sobre o incrível trajecto da classicista da moda, aqui.