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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Nós por cá

pomos preto no Instagram e fazemos blackout e divulgamos links de sensibilização. Não somos racistas. Já esquecemos que nos morreu um ucraniano no aeroporto, um homem cujo nome teremos ouvido uma vez para não mais lembrar, um homem sem nome, sem gente a sair às ruas por ele, sem pessoas de certos sectores a tomar posição, sem eu e tu a sensibilizarmos este e aquele para o quanto a vida é difícil para alguns. O marketing digital é de modas lixado.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Papar tudo

Um museu de Lisboa, para mim o melhor e mais bonito (é o que fica às janelas verdes, pois...) posta uma imagem da Anunciação com a correspondente frase latina de quase todos conhecida e recorre à tradução da Bíblia Grega, de Frederico Lourenço, académico que estudo, estimo e admiro por todas as razões, para dar a conhecer aquela frase aos gentios. Foi ontem, o dia em que o Cristiano Ronaldo marcou o golo que a Juventus aplaudiu.

Trocando por miúdos: uma pessoa está no restaurante e trazem-lhe o mais delicioso bacalhau espiritual, garantindo que é a mais deliciosa carne de porco à alentejana. (Pratos escolhidos por mim ao acaso, mas que estão no topo das minhas predilecções gastronómicas.) São ambos pratos excelentes, mas um não é o outro. Não pode ser. Os sabores são tão diferentes quanto os diferentes ingredientes, tempos e modos de preparação. Não importa quão esmerada tenha sido a confecção, não importa o currículo do chefe, nem sequer importa que tudo seja comida, tudo se digira, assimile e desassimile. Que diria se isto lhe acontecesse num restaurante? Eu, de mim para mim, digo you should have known better, por que não viste o jogo do Cristiano?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sublinhados

A decadência da cidade, da qual a turistificação é mais uma consequência do que uma causa, encontra as suas raízes na moderna despolitização (que se tornou um lugar-comum da teoria política desde Carl Schmitt). Como disse uma vez Giorgio Agamben numa entrevista, para superar a decadência da cidade seria necessária uma nova forma de vida que encontrasse ao mesmo tempo a capacidade de habitar e a vida política.
António Guerreiro, hoje no Público.

A decadência da espécie, aqui.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A cidade universal

Há um processo de monumentalização levado a cabo pelo turismo e acabamos por olhar a nossa própria cidade com os olhos do turista que a monumentaliza, tal como o alentejano que voltava as costas ao mar e à paisagem que era para ele completamente hostil fala hoje encantado, usando uma designação inventada há algumas décadas pelo turismo, do seu “litoral alentejano”. A crítica do turismo baseada nos direitos dos autóctones vai perder em breve o seu fundamento. A razão do autóctone vai dissolver-se no turismo total.
António Guerreiro, hoje no Ípsilon.