Nota da Comissão Nacional Justiça e Paz, órgão da Conferência Episcopal Portuguesa, acerca da "Missão da Igreja num país em crise".
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sexta-feira, 21 de setembro de 2012
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
De senectute e coisas ainda piores
Exmo. Senhor Primeiro Ministro
Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.
Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito — todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar“as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.
Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot):“Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.
A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intituladoThe Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.
Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.
Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio.Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.
De V. Exa., atentamente,
Eugénio Lisboa
[O autor foi presidente da Comissão Nacional da UNESCO / conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres entre 1978-1995 / professor catedrático especial de Estudos Portugueses na Universidade de Nottingham / professor catedrático visitante da Universidade de Aveiro / e coordenador do ensino da língua portuguesa na Suécia. É Doutor Honoris Causa pelas universidades de Nottingham e Aveiro. A Câmara de Cascais outorgou-lhe a medalha de Mérito Cultural.
Em Moçambique foi sucessivamente administrador e director das petrolíferas SONAPMOC, SONAREP e TOTAL.]
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Some writers take to drink, others take to audiences.
"Of course, it is possible for any citizen with time to spare, and a canny eye, to work out what is actually going on, but for the many there is not time, and the network news is the only news even though it may not be news at all but only a series of flashing fictions..."
Obituário: Gore Vidal (1925 - 2012)
Não resisto a transcrever a descrição deste video no Youtube:
"Gore Vidal - literary lion, political gadfly, raconteur and friend of the famous. Vidal is renowned for his historical novels, essays, plays and more. For more than half-a-century, he has been an outspoken critic of American imperialism and more. Now at the age of eighty-one, Vidal looks back on his remarkable life in the second volume of his memoirs. The book is called "Point to Point Navigation"."
Deste autor saiu há anos na Colecção Mil Folhas do Público este livro, uma narrativa extraordinária, crítica mas bem humorada acerca da História dos Estados Unidos que o sistema esconde dos manuais e dos media. Recomendo vivamente.
"Gore Vidal - literary lion, political gadfly, raconteur and friend of the famous. Vidal is renowned for his historical novels, essays, plays and more. For more than half-a-century, he has been an outspoken critic of American imperialism and more. Now at the age of eighty-one, Vidal looks back on his remarkable life in the second volume of his memoirs. The book is called "Point to Point Navigation"."
Deste autor saiu há anos na Colecção Mil Folhas do Público este livro, uma narrativa extraordinária, crítica mas bem humorada acerca da História dos Estados Unidos que o sistema esconde dos manuais e dos media. Recomendo vivamente.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
terça-feira, 1 de maio de 2012
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Um dois três, diga lá outra vez:
Prejudicar a aprendizagem (da insolência, da indisciplina, da má fé, da distracção), não prejudica, certamente. Mas prejudica o processo de ensino-aprendizagem dos conteúdos programáticos. Ensino. Ensino que é verbo, ensino que é profissão, ensino que é o dia-a-dia de milhares de pessoas neste país, ensino que é ministério, verdadeiro, para algumas dessas pessoas. Ensino que merecia um Ministério à séria. Educação é outra coisa .
sábado, 31 de março de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
Diz que é uma espécie de épica - 3
"Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se."
sexta-feira, 23 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
Deus me perdoe
sexta-feira, 16 de março de 2012
Sexta-feira
É este o primeiro single do álbum de Boss AC, "AC Para Os Amigos", já à venda. Qualquer semelhança com esta crise global que, até prova em contrário, se instalou mesmo para ficar não é mera coincidência.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Dia Internacional da Mulher
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| Anjo (1998), Paula Rego (1935 - ) |
Não é de agora a desigualdade laboral entre homens e mulheres. Em 1857, um grupo de operárias de uma fábrica têxtil de Nova Iorque, que ganhava um terço do salário dos seus colegas homens, convocaram uma greve para reivindicarem a redução do dia de trabalho de 16 para 10 horas. Em resposta à luta, foram trancadas na fábrica e queimadas vivas. 130 morreram. Enquanto dia político, de chamada de atenção para os direitos inalienáveis das mulheres, este dia celebrou-se como Dia Nacional, por iniciativa do Partido Socialista da América, a 28 de Fevereiro de 1909 em Nova Iorque. Mas seria apenas no ano seguinte, em Copenhaga, no encontro da Internacional Socialista, que um Dia da Mulher, de carácter internacional, mas sem data fixa, foi determinado e estabelecido com a finalidade de honrar o(s) movimento(s) pelos direitos da mulher e simultaneamente arranjar apoios para que aquela pudesse ter direito de voto.
Ao longo da história, este dia tem servido de base a vários protestos, pelo que ainda hoje é válida a promoção de uma participação equalitária dos dois géneros no desenvolvimento sustentável, na construção da paz e na luta pelo respeito dos direitos humanos, etc.
Pensamos na mulher assim, há quem a considere assim, entra-nos, mais do que devia, em casa, à hora do jantar, assim, assim e assim. E, vinte segundos depois, assim. A imagem clássica é a modos que assim ou assim e (quase) ninguém sabe o sofrimento e a vida dura de alguém assim. Há caminho feito, é certo, mas o caminho é longo e os andadores são poucos.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Custe o que custar.
O problema da expressão Custe o que custar. está antes de mais no modo, o conjuntivo. Neste tipo de juízo e instâncias similares, o conjuntivo tem um valor deôntico, de dever, através do qual o enunciador procura agir sobre o seu interlocutor, impondo a realização da situação representada na proposição, num tempo necessariamente posterior ao da emissão do juízo. A este valor modal acresce frequentemente também a elisão quer do interlocutor, quer do deíctico referente ao núcleo proposicional. Ou seja: Custe o que custar. tem força de lei; é indefinido; e é impessoal.
Mas mesmo quando o enunciado não é indefinido, quando o referente está expresso, isso, isto, aquilo, x, y, z, mas o conjuntivo subsume o pronome pessoal, o que é quase sempre, mantém a força. E isso, com ou sem querer, abre um fosso entre os interlocutores. Na verdade, lembrou-me este Custe o que custar. o dia em que extingui, com a minha própria saliva entre o polegar e o indicador, a chama já por demais tremeluzente de uma amizade antiga.
Matei-a, é verdade, antes que o Agradeço que diligencie o assunto. que dirigiu a um dos nossos pares me matasse toda a admiração e simpatia de outrora.
Matei-a, é verdade, antes que o Agradeço que diligencie o assunto. que dirigiu a um dos nossos pares me matasse toda a admiração e simpatia de outrora.
Fernando Assis Pacheco (1-2-1935 - 30-11-1955)
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| Imagem daqui No dia em que passam 75 anos sobre o nascimento de Fernando Assis Pacheco é lançado o livro Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco, a biografia desta figura extraordinária da cultura portuguesa, da autoria de Nuno Costa Santos. É no Cinema Nimas, em Lisboa, às 18 horas, a entrada é livre e do programa consta ainda "Saudade Burra de Fernando Assis Pacheco", também da autoria de Nuno Costa Santos, um documentário que espero encontrar em breve à venda, e intervenções de amigos e familiares de Fernando Assis Pacheco. As gerações mais novas, em que me incluo, conhecem pouco a personalidade e o génio, Fernando Assis Pacheco, e este desconhecimento é extensível à sua época, uma que ocasionalmente chega até nós em laivos nas conversas com os pais, com os avós, com familiares e os amigos. Até há bem pouco tempo a palavra intervenção tinha caído em desuso. Quis o nosso tempo, a nossa circunstância, que ela fosse revitalizada. Fernando Assis Pacheco é sinónimo de intervenção. Conhecê-lo é perceber a premência desta nossa recente necessidade. Leia-se esta biografia e com ela a bibliografia activa de Fernando Assis Pacheco, de onde aproveito para reproduzir o seguinte poema: |
um avô galego chegado a Portugal rapazinho
outro de ao pé de Aveiro que se meteu
num barco para S. Tomé a fazer cacau
de filhos seus nasci
com este pouco de inútil fantasia
nutrida em solidões nas que me vejo
nu como um bacorinho na pocilga
e como ele indefeso e porém quis
mesmo assim ser mais que o animal
no tutano dos ossos pressentido
não peço nada usai o meu nome
se vos praz lembrai-me
o que for costume
mas livrai-vos do luxo e da soberba
Para ler mais Fernando Assis Pacheco, vá aqui.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
40 minutos com Pablo Neruda face a face
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| Imagem daqui |
Oda a la pobreza
Cuando nací,
pobreza,
me seguiste,
me mirabas
a través
de las tablas podridas
por el profundo invierno.
De pronto
eran tus ojos
los que miraban desde los agujeros.
Las goteras,
de noche, repetían
tu nombre y tu apellido
o a veces
el salto quebrado, el traje roto,
los zapatos abiertos,
me advertían.
Allí estabas
acechándome
tus dientes de carcoma,
tus ojos de pantano,
tu lengua gris
que corta
la ropa, la madera,
los huesos y la sangre,
allí estabas
buscándome,
siguiéndome,
desde mi nacimiento
por las calles.
Cuando alquilé una pieza
pequeña, en los suburbios,
sentada en una silla
me esperabas,
o al descorrer las sábanas
en un hotel oscuro,
adolescente,
no encontré la fragancia
de la rosa desnuda,
sino el silbido frío
de tu boca.
Pobreza,
me seguiste
por los cuarteles y los hospitales,
por la paz y la guerra.
Cuando enfermé tocaron
a la puerta:
no era el doctor, entraba
otra vez la pobreza.
Te vi sacar mis muebles
a la calle:
los hombres
los dejaban caer como pedradas.
Tú, con amor horrible,
de un montón de abandono
en medio de la calle y de la lluvia
ibas haciendo
un trono desdentado
y mirando a los pobres
recogías
mi último plato haciéndolo diadema.
Ahora,
pobreza,
yo te sigo.
Como fuiste implacable,
soy implacable.
Junto
a cada pobre
me encontrarás cantando,
bajo
cada sábana
de hospital imposible
encontrarás mi canto.
Te sigo,
pobreza,
te vigilo,
te acerco,
te disparo,
te aislo,
te cerceno las uñas,
te rompo
los dientes que te quedan.
Estoy
en todas partes:
en el océano con los pescadores,
en la mina
los hombres
al limpiarse la frente,
secarse el sudor negro,
encuentran
mis poemas.
Yo salgo cada día
con la obrera textil.
Tengo las manos blancas
de dar pan en las panaderías.
Donde vayas,
pobreza,
mi canto
está cantando,
mi vida
está viviendo,
mi sangre
está luchando.
Derrotaré
tus pálidas banderas
en donde se levanten.
Otros poetas
antaño te llamaron
santa,
veneraron tu capa,
se alimentaron de humo
y desaparecieron.
Yo te desafío,
con duros versos te golpeo el rostro,
te embarco y te destierro.
Yo con otros,
con otros, muchos otros,
te vamos expulsando
de la tierra a la luna
para que allí te quedes
fría y encarcelada
mirando con un ojo
el pan y los racimos
que cubrirá la tierra
de mañana.
Cuando nací,
pobreza,
me seguiste,
me mirabas
a través
de las tablas podridas
por el profundo invierno.
De pronto
eran tus ojos
los que miraban desde los agujeros.
Las goteras,
de noche, repetían
tu nombre y tu apellido
o a veces
el salto quebrado, el traje roto,
los zapatos abiertos,
me advertían.
Allí estabas
acechándome
tus dientes de carcoma,
tus ojos de pantano,
tu lengua gris
que corta
la ropa, la madera,
los huesos y la sangre,
allí estabas
buscándome,
siguiéndome,
desde mi nacimiento
por las calles.
Cuando alquilé una pieza
pequeña, en los suburbios,
sentada en una silla
me esperabas,
o al descorrer las sábanas
en un hotel oscuro,
adolescente,
no encontré la fragancia
de la rosa desnuda,
sino el silbido frío
de tu boca.
Pobreza,
me seguiste
por los cuarteles y los hospitales,
por la paz y la guerra.
Cuando enfermé tocaron
a la puerta:
no era el doctor, entraba
otra vez la pobreza.
Te vi sacar mis muebles
a la calle:
los hombres
los dejaban caer como pedradas.
Tú, con amor horrible,
de un montón de abandono
en medio de la calle y de la lluvia
ibas haciendo
un trono desdentado
y mirando a los pobres
recogías
mi último plato haciéndolo diadema.
Ahora,
pobreza,
yo te sigo.
Como fuiste implacable,
soy implacable.
Junto
a cada pobre
me encontrarás cantando,
bajo
cada sábana
de hospital imposible
encontrarás mi canto.
Te sigo,
pobreza,
te vigilo,
te acerco,
te disparo,
te aislo,
te cerceno las uñas,
te rompo
los dientes que te quedan.
Estoy
en todas partes:
en el océano con los pescadores,
en la mina
los hombres
al limpiarse la frente,
secarse el sudor negro,
encuentran
mis poemas.
Yo salgo cada día
con la obrera textil.
Tengo las manos blancas
de dar pan en las panaderías.
Donde vayas,
pobreza,
mi canto
está cantando,
mi vida
está viviendo,
mi sangre
está luchando.
Derrotaré
tus pálidas banderas
en donde se levanten.
Otros poetas
antaño te llamaron
santa,
veneraron tu capa,
se alimentaron de humo
y desaparecieron.
Yo te desafío,
con duros versos te golpeo el rostro,
te embarco y te destierro.
Yo con otros,
con otros, muchos otros,
te vamos expulsando
de la tierra a la luna
para que allí te quedes
fría y encarcelada
mirando con un ojo
el pan y los racimos
que cubrirá la tierra
de mañana.
Pablo Neruda
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
"Não há nada como a juventude."
Pese muito embora o facto de as televisões só terem agora descoberto o filão sensacionalista que constitui a morte solitária dos nossos idosos, e dessa forma toldarem a nossa percepção do fenómeno, o abandono e esquecimento a que no nosso país tem sido votada a terceira idade é uma realidade social de há várias décadas. Não temos tempo para os nossos filhos, deixamo-los nas escolas, os professores que os eduquem que é para isso que pagamos impostos; não temos tempo para os nossos pais, deixamo-los nas suas casas no interior, esquecemo-nos da deserção, da nossa própria deserção desse espaço; deixamo-los nos lares, na cidade não temos espaço, na cidade não há tempo. Deixamo-los - é um facto.
Este filme esteve em meia dúzia de cinemas durante muito pouco tempo. De resto, não fosse ter visto uma publicidade ao mesmo num dos programas da manhã, também me teria passado despercebido. Na realidade, nunca cheguei a ir vê-lo ao cinema, mas comprei-o há tempos na FNAC - encontrou-o o meu namorado primeiro que eu até na secção dos documentários, a minha predilecta. Vale a pena procurar e ver.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
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