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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Monday mood (37)

Há semanas que não encontrávamos a nossa senhoria. Chegámos a pensar que se teria zangado connosco, embora sem encontrarmos, nas nossas últimas interacções, um motivo, uma razão plausível. Ontem, finalmente, consegui avistá-la e lá conversámos. Não se passa nada, parece-me. Ou melhor: passa. Há uma doença terrível que mata idosos de modo inusitado e absurdo, o que leva a que fujam de todo o contacto. A nossa senhoria não tem telemóvel, nem precisa dele, nem da app, porque o medo de sair à rua, o medo de conversar no seu quintal, o medo de viver, foi-lhe instalado, no íntimo, pela televisão e pelos coetâneos com quem fala ao telefone. Penso que as autoridades devem congratular-se com isto. Digam todos: Bravo!

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Ainda da imposição da aplicação


Às pessoas que dizem que apps todos descarregamos: pois é, mas voluntariamente. Quando e se quisermos. Quem quiser. Se eu quiser apagar o Facebook do meu iPad posso fazê-lo quando e sempre que me apetecer. 
Às pessoas que dizem que é útil para controlar a pandemia: digam-me que estudo médico o comprova. Eu aposto mais em higienizar as mãos, usar máscara e distanciar-me sempre que possível. Mas o controlo tecnológico é útil para monitorizar pessoas - a app funciona por geolocalização, como as câmaras que muitos autarcas querem instalar em todo o lado. Qual é a app que controla o impulso autoritário? A ignorância? A falta de noção? 
Às pessoas que não percebem de apps: uma app que só se pode instalar num telemóvel topo de gama é uma app que solicita acessos vários a todo o tipo de dados. É claro que as pessoas fazem-no a todo o momento. Ligam a nuvem para usar o calendário, ligam a câmara para filmar para o Instagram. Fazem-no porque querem - podem desligar tudo e desinstalar o que lhes apetecer quando e se quiserem. Não podem apagar os dados colhidos, mas podem escolher não dar mais. A nossa vida hoje passa muito por isto, mas não é porque estamos mais permeáveis ou disponíveis que a imposição é legítima. Há sempre quem não esteja permeável e disponível e o direito de resistência não expirou com a Troika. 
Às pessoas que pensam que o governo lhes vai oferecer um telemóvel: a Valentina não tinha internet e nem por isso o governo lha ofereceu. Lembram-se da Valentina, aquela criança que morreu às mãos do pai porque não tinha internet para seguir as aulas em casa da mãe? Aos idosos que não têm internet e precisam de entregar o IRS o governo não oferece internet, nem sequer serviços. É o poder local que assegura a entrega - e nem sempre... Estas e outras pequenas tiranias que desvalorizamos para podermos funcionar em sociedade não nos devem levar a aceitar tudo com medo ou de ânimo leve. 

 P.S. - Já devíamos andar a usar máscara na via pública desde sempre. Há n estudos que desde sempre o defenderam.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Para memória futura (4)

Também foi autoritário ter as pessoas impedidas de circular entre concelhos na Páscoa.

António Costa, PM do XXI Governo Constitucional de Portugal

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Verificar o quê, chamar especialistas para quê

Uma investigadora de Harvard achou que tinha descoberto a pólvora quando lhe chegou um pergaminho que, segundo o remetente, assegurava que Jesus e Maria Madalena eram casados. Não inquiriu acerca do remetente, pediu a um amigo que avaliasse o pergaminho, pediu ao cunhado de outro amigo uma segunda opinião, publicou os resultados na revista de estudos teológicos da universidade, a universidade publicitou globalmente o achado. Em suma,
King was abetted by a world of academics and higher-ed bureaucrats who forgot that, if we are wise, we should be most gratified to learn when we are wrong.

Ler aqui

terça-feira, 30 de junho de 2020

Morra o conhecimento, morra! Pim!

O nosso tempo é pródigo em amesquinhar o conhecimento. Da sala de aula à sala de imprensa pululam os peritos em distorcer o que diz quem sabe. Quando se lê na capa do jornal que mais vende em Portugal que a DGS disse que os ares condicionados não espalham vírus, uma pessoa pergunta-se se amanhã recomendarão que se lamba o chão para reforçar a imunidade. Quem saiba ler e não se compraza em deitar abaixo o especialista, leia o manual da DGS. Mas eu posso sintetizar: 1) Abrir a janela é preferível a ligar o ar condicionado. 2) O ar condicionado, a ter de ser ligado, deve sê-lo a um nível fraco. (Para ares condicionados e doenças, ver p.e. torres de refrigeração e Vila Franca de Xira).

Ando a ler The Coming Plague, de Laurie Garrett. O livro é de 1994 e impressiona. O primeiro capítulo é sobre o Machupo, uma febre hemorrágica viral descoberta na urina de ratos selvagens. Estes roedores tinham sido desalojados do seu habitat natural com a introdução da cultura do milho na Bolívia dos anos 60. Então, basicamente, os ratos deixaram o campo e passaram a viver junto das provisões alimentícias das casas. De manhã, quando as mulheres preparavam o pequeno-almoço - uma trataria disso, enquanto outra varreria o chão da cozinha - aerossóis da urina daqueles roedores contaminavam todas as superfícies, onde se incluíam, naturalmente, a comida - o pequeno-almoço. 

Partículas inaláveis causam e agravam uma série de doenças respiratórias. Se não quiserem perguntar a quem sabe, perguntem em Vila Franca de Xira.

terça-feira, 16 de junho de 2020

O que nos espera bem explicado

So we are faced with a terrible choice. We can continue to embrace the nationalist strategy of keeping the liberal order alive by creating the conditions under which it will die. That will end in the dissolution of the order, collapsing economic growth, with massive increases in the costs of goods and services. Our living standards will be dramatically reduced. The nation-state will make a comeback, but at the cost of the prosperity that we have been building since the Second World War. 
Or we can embrace radical democratic reforms, and attempt to convince ourselves that they will empower us, or at least give us the satisfying feeling of empowerment. We can retreat into localism, even as the critical decisions are taken far away from us. We can build a realm of illusions, where the institutions we participate in are not the ones that shape our lives.
 Conclusão deste artigo. Vale a pena lê-lo, uma e outra vez.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

O preconceito que mata



Este video é sobre educação, mas não é só sobre educação. Aos 11.55 minutos, Chimamanda Ngozi Adichie conta como o sobrinho teve que mudar de escola. Os pais de uma criança da primária tiveram que a mudar para uma escola em que não pertencesse à minoria, ou seja: uma escola em que a professora, a direcção, a estrutura não a forçassem, por preconceito, a um lugar de marginalidade que não era o seu. Há cinquenta anos (meio século!) que a América decretou uma mudança que ainda está para acontecer. As mudanças não acontecem por decreto. A América é um país maravilhoso, e no entanto algumas pessoas arriscam-se a sair de casa de manhã e não voltar porque. Algumas crianças vão para a escola aprender que não pertencem ali porque. As mudanças que não acontecem pela educação acontecem pela cultura. Defina cultura.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Há muita pedagogia nisto.

I stare at four fish in a tank in a supermarket. They are swimming in parallel formation against a small current created by a jet of water, and they are opening and closing their mouths and staring off into the distance with the one eye, each, that I can see. As I watch them through the glass, thinking how fresh they would be to eat, still alive now, and calculating whether I might buy one to cook for dinner, I also see, as though behind or through them, a larger, shadowy form darkening their tank, what there is of me on the glass, their predator. 
Lydia Davis, The Collected Stories of Lydia Davis, 2009.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Grão, grana, massa

Perceber alguma coisa de história da língua é saber, entre outras coisas, que centenum,-i é a designação correspondente ao cereal que hoje conhecemos como centeio. Parece que a gramínea vem de uma erva daninha que crescia nos campos de trigo e cevada e que, apesar de a sua origem ser obscura, há fontes que apontam a Alemanha como o local em que foi cultivado pela primeira vez. .

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Gott ist in den Details

Quem, como eu, dedicar os momentos de lazer ao crime, na fonte literária ou na adaptação televisiva, sabe que o crime revela a natureza humana. Comecei este mês a rever Poirot. Poirot diz constantemente que agradece toda a oportunidade que lhe é dada para estudar a natureza humana. A natureza humana não é o que pensamos, o que nos dizemos que somos. Somos animais. Somos animais independentemente do que façamos para esquecer essa baixa condição. A persistência do crime nas nossas sociedades não surpreende mas o crime horrendo choca. Somos animais incautos e inconscientes, vive-se melhor assim. Noto que a geração dos meus pais está verdadeiramente transtornada ante as evidências diárias da maldade gratuita. A geração dos meus pais pouco conhece das novas gerações. E não leu Steiner, não sabe que o tédio mata. O que, a mim, me surpreende é a inteligência, a gentileza e a ausência de preconceito de Poirot. Só ele ouve a nota dissonante, só ele deduz e persegue aquele pormenor que a todos passou despercebido. O crime perfeito não existe. O infanticídio remonta, pelo menos, a Medeia, uma vilã incrível. A sua história mostra a loucura que é matar por expediente, matar por vingança. O desvio que esteve lá desde sempre, que se foi materializando de forma gradual, e que ninguém quis ver. Poirot investigaria o relatório que não conseguiu apurar qualquer indício de violência física na última fuga de casa. Ninguém foge de casa de um progenitor para ir para junto do outro porque tinha saudades. Ter saudades é a forma que algumas crianças arranjam de não magoar e não desenvolver, não falar. Foge-se de casa quando se tem medo e a firme certeza de que ficar é arriscar-se, é expor-se sem defesa a perigos insuportáveis. Escrever relatórios e citar Dietrich Bonhoeffer é um bocejo. O mais fácil.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

terça-feira, 5 de maio de 2020

Morte, revolta colectiva, destruição

É o que prevê Laurie Garrett. Laurie Garrett não é vidente, mas os países e os jornais procuram-na. Tem o conhecimento de uma vida de investigação e dedicação à causa da saúde pública. Sobre o regresso à normalidade, diz:
Did we go ‘back to normal’ after 9/11? No. We created a whole new normal. We securitized the United States. We turned into an antiterror state. And it affected everything. We couldn’t go into a building without showing ID and walking through a metal detector, and couldn’t get on airplanes the same way ever again. That’s what’s going to happen with this.
O artigo na íntegra está aqui.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A Martinha

Uma pessoa que, como eu, não tenha televisão está protegida de muita coisa. Uma pessoa que tenha Facebook e procure informar-se pelos canais que considera mais fidedignos na internet, está protegida de muita coisa. O meu feed do Facebook, por exemplo, é uma caixa de ressonância daquilo que eu penso; as plataformas que uso para obter informação respondem às minhas perguntas de um modo que eu considero razoável e satisfatório. Mas o país e o mundo não é a minha rede de amigos no Facebook, nem a Atlantic, nem a New Yorker, nem o New York Review of Books

O país detesta a Ministra, uma mulher sem filhos, racional e competente, e o mundo não entende o confinamento do povo, mas não dos políticos. O país está revoltado porque a, b e c foram à Assembleia celebrar o 25 de Abril e x, y e z ao Parque Eduardo VII para o 1.º de Maio, mas o povo não pode passar os filhos para a alçada dos avós, os shoppings e os restaurantes não podem abrir, os médicos não podem ganhar mais, ainda não pode haver uma vacina, e nada poderá ser como era antes. A culpa é da Martinha. Foi a Martinha que decidiu, a Martinha que avaliou, a Martinha que não quer pagar, a Martinha que não faz uma vénia e se ajoelha em directo perante todos os profissionais que fazem o que a profissionais compete.

Já pensei que a culpa fosse da Escola - tendemos sempre a colocar o problema na nossa área -, que a Escola ensina pouca estatística, não propõe estudos de caso, não implementa o método científico, não se presta à interpretação das nuances, desvaloriza o peso da mais pequena dissonância na vida... Depois concluí que o problema é social, cultural, mas sobretudo pessoal. E está na perda do hábito da leitura. A gente não lê, os estímulos do meio envolvente não ajudam, é-se incapaz de empatia, não se sabe analisar uma situação complexa; em suma, pensa-se pouco e mal. É assim que estamos todos entregues ao perigo maior que é a ignorância boçal activa. 

Fica aqui o melhor artigo que li para explicar por que é tão complicado comunicar, prevenir, tratar, viver e sobreviver ao momento actual.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Está tudo bem. Já passou. Nunca aconteceu. Podem voltar a comprar igual se não mais.

Desde ontem que o trânsito na nossa rua deixou de ser o trânsito do confinamento. Mas também não voltou à circulação pacata da estrada que liga a vila à nacional, não. O trânsito de agora é um trânsito igual ao da A28 nos tempos recentes em que a economia funcionava plenamente. Já regressámos à economia plena, o confinamento acabou - a nós é que ninguém disse nada. A economia plena, que faz mexer os países, que alivia as restrições na Europa, é nós trabalharmos até cair para o lado e comprarmos sem pensar (ou para esquecer o dano).

Este artigo explica-o em termos do gaslighting de que é capaz quem pode fazer os países mexer. E conclui:
This is our chance to define a new version of normal, a rare and truly sacred (yes, sacred) opportunity to get rid of the bullshit and to only bring back what works for us, what makes our lives richer, what makes our kids happier, what makes us truly proud.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

sexta-feira, 1 de março de 2019

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A verdadeira selfie

We are at the end of an era characterized by the self-portrait. This claim is not provocative—we’ve lived as characters for some time and have all felt it coming. So let me rephrase, we live at the end of an era characterized by relentless anxiety around the self as a product: what it means, who owns it, what it costs, what it’s worth. The word celebrity suggests that this value can be quantified and, generally, stands as a catch-all term for the collective disorders (disembodied desire, objectified anxiety, schadenfreude as catharsis) underpinning a cult of self. As two of the leading lights in male egomania, Elon Musk and Kanye West, enter ecliptic phases of digital self-harm, we see that a long-standing crisis is coming to the fore of the treatment of ourselves as characters. The similarity of their breakdowns is uncanny and no doubt representative of a broader crisis in charismatic authority nationwide. Like failed children of the Lacanian mirror stage, the reflection of their own, simplified self-image precipitates a meltdown instead of a progression. 
Yet this era was heralded years earlier, in 2007, when Britney Spears shaved her head and the onlooking public could only digest it as hysterical—the most misogynistic of characterizations. It now feels avant-garde: she assassinated her own character. Indeed, she reclaimed her self as something more than just a brand or commodity. By attacking her appearance (her hair, the root of so much aesthetic femininity) she drew attention to the ways in which our society attaches identity to women. In 2018, the ambivalence toward how to treat one’s digital self, how to create one’s “character,” is a particularly unwieldy knot for women. The collapse of the critical space between one’s personality and one’s online persona erases the distinction between self-expression and self-promotion. Every post now seems to fall into a dangerous trap.
We are currently confronted with questions that, until recently, seemed behind us. Is asserting self-love affirming and feminist, or is it playing into age-old misogynist reductions of women as fetish objects? Where do hashtag trends like “I woke up like this” and “celebrities without makeup” quite fit in? Do they acknowledge the pressures that women face in a gendered society, or do they simply obscure the means of beauty’s production? To break past this surface we must ask: where is the work? I mean, really, who seems to work anymore? All we see is women on vacation—cooly “off duty” in the day, beguilingly gowned at night. Studios and offices serve as backdrops for fashion shoots, not meaningful loci of productivity. All these women “woke up like this”: capturing and captioning themselves from the moment the dawn light began streaming in.
Consuming these images is stultifying. To be digitally femme means to bathe anxiously in the images of others and act impotently in response, liking a photo or congratulating others on their beauty. More stultifying is that this is done in spite of knowing the effort that went into each composition. The selfie is a cover-up, hiding both the means of its own production and the true self.
India Ennenga, Toward a More Radical Selfie