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sábado, 11 de novembro de 2017

O mistério da confluência de mundos e realidades

Iniciámos a confeção da marmelada na tarde de Setembro ainda quente. Entretém-me contando histórias do tempo em que era jovem, do que ouviu dos antepassados ou do que viveu, sabendo que me deixo arrebatar pelo mistério da confluência de mundos e realidades. Fala-me sobre almas penadas que erram pelo nosso universo e se escondem da luz do dia pelos campos agrestes, nas matas de zambujeiro, nelas permanecendo enredadas, até à hora mágica do anoitecer, altura em que se libertam e passeiam pelo mundo dos vivos, enquanto os pássaros regressam aos ninhos. Narra-me histórias de fátuas esferas de luz prateada que amedrontam os passantes na noite, acompanhando-os por longos percursos, girando à sua volta como libelinhas do além e desaparecendo inexplicavelmente, tal como aparecem. Recorda episódios sobre encontros à meia-noite, nas portas dos cemitérios, com seres enigmáticos, incorpóreos, que esperam os homens e mulheres tardios, regressando do trabalho ou da taberna, a horas que não são de gente de carne. Seres que nos visitam e se revelam, dialogando com os vivos, fingindo que o são e desvanecendo-se quando lhes convém. No tempo antigo conheceu fenómenos relacionados com o desrespeito da sexta-feira santa, porque nesse dia sagrado não se trabalha. Não se lava a roupa nem se passa a ferro nem se cozinha, sob pena de o trabalho ser manchado pelo sangue que Cristo derramou. Afiança-me que é assim. Que sempre será. Que tenho de respeitar.
Isabela Figueiredo, A Gorda.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Remoo

Digo que a minha fome desse tempo nasceu no estômago, no centro de mim, mas nunca saberei ao certo de onde veio. Comprimia-o, pontapeava-o. Era uma dor que não matava, tal como a saudade de alguém que nos morre. Engolia os alimentos depressa sem os mastigar. Sentia-lhes o delicioso paladar rápido, e o torrão sólido caía no estômago começando a enchê-lo como a um saco de batatas, tubérculo a tubérculo. O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado. Sinto-me consolada. Se não, vai-me espetando no estômago o seu ferrão, para que não me esqueça. Não esqueço. Acalma-te, fome, eis as tuas oferendas! Pão com marmelada. Pão com manteiga. Pão com chouriço. Teria preferido sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me o monstro multicéfalo da fome no interior do estômago, ligado ao cérebro. É como se tivesse cogumelos a crescer no interior escuro e húmido do meu corpo. Esporos de fome semeados pela criação. Se tivesse sido logo o que vim cá ser, viveria em paz com o monstro e dormiria com ele, como com um cão. Medito. Remoo. Maldigo. Eu ainda não sou o que vim cá ser. E o que é isso que me espera?
Isabela Figueiredo, A Gorda.