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quarta-feira, 26 de maio de 2021

Troca e dádiva

Aprender dá-se na construção de relações, que são troca e dádiva, que passam pelo que vem dos outros e retorna aos outros, a linguagem. Por isso, quando se abdica de ensinar para dar lugar exclusivo ao trino de faculdades de adaptação ao desenvolvimento tecnológico, a aprendizagem, que deve permitir aos jovens implicar-se no mundo pela atenção à sua multiplicidade, é posta em risco.

Silvina Rodrigues Lopes, "Do ensino como ofício inquieto".

terça-feira, 30 de junho de 2020

Morra o conhecimento, morra! Pim!

O nosso tempo é pródigo em amesquinhar o conhecimento. Da sala de aula à sala de imprensa pululam os peritos em distorcer o que diz quem sabe. Quando se lê na capa do jornal que mais vende em Portugal que a DGS disse que os ares condicionados não espalham vírus, uma pessoa pergunta-se se amanhã recomendarão que se lamba o chão para reforçar a imunidade. Quem saiba ler e não se compraza em deitar abaixo o especialista, leia o manual da DGS. Mas eu posso sintetizar: 1) Abrir a janela é preferível a ligar o ar condicionado. 2) O ar condicionado, a ter de ser ligado, deve sê-lo a um nível fraco. (Para ares condicionados e doenças, ver p.e. torres de refrigeração e Vila Franca de Xira).

Ando a ler The Coming Plague, de Laurie Garrett. O livro é de 1994 e impressiona. O primeiro capítulo é sobre o Machupo, uma febre hemorrágica viral descoberta na urina de ratos selvagens. Estes roedores tinham sido desalojados do seu habitat natural com a introdução da cultura do milho na Bolívia dos anos 60. Então, basicamente, os ratos deixaram o campo e passaram a viver junto das provisões alimentícias das casas. De manhã, quando as mulheres preparavam o pequeno-almoço - uma trataria disso, enquanto outra varreria o chão da cozinha - aerossóis da urina daqueles roedores contaminavam todas as superfícies, onde se incluíam, naturalmente, a comida - o pequeno-almoço. 

Partículas inaláveis causam e agravam uma série de doenças respiratórias. Se não quiserem perguntar a quem sabe, perguntem em Vila Franca de Xira.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O começo de um livro é precioso

For Penelope Fitzgerald, memories began at Balcombe, in a 'homely-mock Tudor house with a lawn and a cherry tree'. Late in life, she remembered it as an idyll: the flowering cherry and the walnut tree outside her window, her secret hiding place between the double rose hedge, the rabbit that was always getting lost, the low murmuring of the hens, the baker delivering bred in his pony-trap [...].
Hermione Lee, Penelope Fitzgerald - A Life. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Coisas da vida (2)

Envergando um blusão de coiro amachucado, o Pedro passeava-se pela cidade, em cima de uma moto velha. Declarava-se ateu, dissoluto e perverso. Eu tinha finalmente encontrado o meu Byron "bad, mad and dangerous to know". Fora dele, nada existia.
Maria Filomena Mónica, Bilhete de Identidade.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Do doméstico magistério da alma

ALB. Não haverá, ó Filóteo, voz de plebe, indignação do vulgo, murmúrio de tolos, desprezo de sátrapas, estultícia de insensatos, estolidez de "Joões-ninguém", informação de mentirosos, querela de malignos e detracção de invejosos, que me defraudem da tua nobre presença, e me furtem à tua divina conversação. Persevera, meu Filóteo, persevera; não percas o ânimo, nem retrocedas, pelo facto de, com muitas maquinações e artimananhas, o grave e grande senado da estulta ignorância ameaçar, e tentar destruir a tua empresa e labor. E podes ter a certeza que, ao fim, todos verão o que eu vejo, e conhecerão que é tão fácil a cada um louvar-te, como a todos é difícil ensinar-te. Todos, se não forem absolutamente perversos, de boa consciência formularão de ti opinião favorável, dado que pelo doméstico magistério da alma, cada um chega a ser instruído, porque os bens do intelecto não se alcançam por outro lado senão pela nossa própria mente. E porque na alma de todos, há uma certa santidade natural, que, assente no tribunal do intelecto, exercita o juízo do bem e do mal, da luz e da treva, acontecerá que, das próprias cogitações de cada um, se levantem em teu favor fidelíssimas e íntegras testemunhas e defensores. De forma que, se não se fizerem teus amigos, querendo por preguiça mental perseverar como teus obstinados adversários, e sofistas conscienciosos, em defesa da turba ignorância, sentirão em si próprios o carrasco e algoz que fará a tua vingança, e que, quanto mais oculto for no profundo pensamento, tanto mais os atormentará.
Giordano Bruno, Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos, pp.178-179.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

What can be meaningful

because we think language is fundamentally about naming things, we think that psychological concepts must also be names of things, but of things in an inner space. So we model the reality of the inner on the existence of physical things with the peculiar property that these mental objects are only visible to and nameable by their owner. But we are also puzzled about how words can function as names at all. How they can reach out to what they name? Words are, after all, just arbitrary sounds or squiggles. We think then that it must be something special indeed which enables words to have meaning. It must be some special set of the psychological states and processes, a picture of which we already have. Our words mean because we mean. And we can mean because we are in possession of inner, essentially private psychological states that can intrinsically reach out to the world. Language is really a collection of private, inner acts of meaning and naming, a collection of private languages that happen, more or less imperfectly, to overlap.

sábado, 11 de novembro de 2017

O mistério da confluência de mundos e realidades

Iniciámos a confeção da marmelada na tarde de Setembro ainda quente. Entretém-me contando histórias do tempo em que era jovem, do que ouviu dos antepassados ou do que viveu, sabendo que me deixo arrebatar pelo mistério da confluência de mundos e realidades. Fala-me sobre almas penadas que erram pelo nosso universo e se escondem da luz do dia pelos campos agrestes, nas matas de zambujeiro, nelas permanecendo enredadas, até à hora mágica do anoitecer, altura em que se libertam e passeiam pelo mundo dos vivos, enquanto os pássaros regressam aos ninhos. Narra-me histórias de fátuas esferas de luz prateada que amedrontam os passantes na noite, acompanhando-os por longos percursos, girando à sua volta como libelinhas do além e desaparecendo inexplicavelmente, tal como aparecem. Recorda episódios sobre encontros à meia-noite, nas portas dos cemitérios, com seres enigmáticos, incorpóreos, que esperam os homens e mulheres tardios, regressando do trabalho ou da taberna, a horas que não são de gente de carne. Seres que nos visitam e se revelam, dialogando com os vivos, fingindo que o são e desvanecendo-se quando lhes convém. No tempo antigo conheceu fenómenos relacionados com o desrespeito da sexta-feira santa, porque nesse dia sagrado não se trabalha. Não se lava a roupa nem se passa a ferro nem se cozinha, sob pena de o trabalho ser manchado pelo sangue que Cristo derramou. Afiança-me que é assim. Que sempre será. Que tenho de respeitar.
Isabela Figueiredo, A Gorda.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Remoo

Digo que a minha fome desse tempo nasceu no estômago, no centro de mim, mas nunca saberei ao certo de onde veio. Comprimia-o, pontapeava-o. Era uma dor que não matava, tal como a saudade de alguém que nos morre. Engolia os alimentos depressa sem os mastigar. Sentia-lhes o delicioso paladar rápido, e o torrão sólido caía no estômago começando a enchê-lo como a um saco de batatas, tubérculo a tubérculo. O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado. Sinto-me consolada. Se não, vai-me espetando no estômago o seu ferrão, para que não me esqueça. Não esqueço. Acalma-te, fome, eis as tuas oferendas! Pão com marmelada. Pão com manteiga. Pão com chouriço. Teria preferido sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me o monstro multicéfalo da fome no interior do estômago, ligado ao cérebro. É como se tivesse cogumelos a crescer no interior escuro e húmido do meu corpo. Esporos de fome semeados pela criação. Se tivesse sido logo o que vim cá ser, viveria em paz com o monstro e dormiria com ele, como com um cão. Medito. Remoo. Maldigo. Eu ainda não sou o que vim cá ser. E o que é isso que me espera?
Isabela Figueiredo, A Gorda.

domingo, 15 de outubro de 2017

"Levanta os olhos para o céu e conta as estrelas."

(...) a esperança não é unívoca. Ela tem um claro eixo temporal, mas complementado por um eixo relacional forte. Ela é uma tensão, um desejo, um "esperar que", e ao mesmo tempo supõe uma relação de confiança com outro, à maneira de um pacto dialógico que nos faz dizer "espero em ti".
José Tolentino de Mendonça, Esperar contra toda a esperança.

sábado, 16 de setembro de 2017

Ajudar a cair

Não é claro quem guia quem na tarefa de nos valermos uns aos outros, enquanto seres humanos. (...) Guiamos os outros antes, depois e independentemente de o nosso corpo deixar de ser capaz de o fazer. Somos essa continuidade de sombras: o avesso de um ditado. O mistério reside em saber se quem redige está a conduzir ou a ser conduzido, e por onde.
Djaimilia Pereira de Almeida, Ajudar a cair.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Heróis modernos

Is this the dream? To live nearly a century and sustain a serrated intellect, righteous integrity and good health? His failing eyesight has been swapped for oracular vision. He looks vaguely like a bust of Socrates, bald, white-bearded and wise — except Ferlinghetti beat his charges of corrupting the youth. Beneath pudgy glasses, his eyes are hauntingly blue and compassionate. His posture remains youthful and upright. One ear is pierced, and his socks are tropical candy-striped. He’s a responsible shopkeeper and subversive arsonist rolled into one.
 Jeff Weiss sobre L. Ferlinghetti, em "Driving the Beat Road", 
uma reportagem extraordinária sobre a Beat Generation para o Washington Post.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Genius

This is what genius does. It shrinks the will of others. But it can also produce an odd wishfulness on the part of an admirer, a yearning to blend environments.
Don Delillo, para a Vertigo.

sábado, 17 de junho de 2017

Uma mistura

Era uma pessoa complexa; a sua enorme simplicidade e franqueza combinavam-se com um espírito cético e sério. Porventura seja essa combinação que explica a forte impressão que ela deixava nas pessoas; uma impressão positiva. O seu caráter era aguçado por esta mistura de simplicidade e ceticismo. Era sociável, mas severa; muito divertida, porém muito séria; extremamente prática, contudo possuidora de uma grande profundidade...
Virginia Woolf sobre a mãe, Momentos de Vida, trad. Eugénia Antunes

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Vagueávamos juntas, quais navios num imenso oceano

Uma outra influência se agitava já nessa altura dentro dela: a influência de um afecto que apenas outras pessoas podiam obsequiar. Não havia buraco cavado no jardim, por mais fundo que fosse, do qual pudesse extrair-se argila maleável, que lhe desse tudo o que ela necessitava. As bonecas não a satisfaziam. Naquele tempo, e até aos quinze anos, na verdade, era aparentemente séria e austera, a mais digna de confiança e sempre a mais velha: por vezes, queixava-se das suas "responsabilidades". As outras crianças tinham as suas fases de crescimento, os seus dotes e desaires repentinos; ela, contudo, dir-se-ia que avançava perseverantemente, como que de olhos fixos num objectivo longínquo que, uma vez alcançado, ela revelaria.

Virginia Woolf sobre Vanessa Bell
Momentos de Vida, trad. Eugénia Antunes