Há semanas que não encontrávamos a nossa senhoria. Chegámos a pensar que se teria zangado connosco, embora sem encontrarmos, nas nossas últimas interacções, um motivo, uma razão plausível. Ontem, finalmente, consegui avistá-la e lá conversámos. Não se passa nada, parece-me. Ou melhor: passa. Há uma doença terrível que mata idosos de modo inusitado e absurdo, o que leva a que fujam de todo o contacto. A nossa senhoria não tem telemóvel, nem precisa dele, nem da app, porque o medo de sair à rua, o medo de conversar no seu quintal, o medo de viver, foi-lhe instalado, no íntimo, pela televisão e pelos coetâneos com quem fala ao telefone. Penso que as autoridades devem congratular-se com isto. Digam todos: Bravo!
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segunda-feira, 19 de outubro de 2020
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Ainda da imposição da aplicação
Às pessoas que dizem que apps todos descarregamos: pois é, mas voluntariamente. Quando e se quisermos. Quem quiser. Se eu quiser apagar o Facebook do meu iPad posso fazê-lo quando e sempre que me apetecer.
Às pessoas que dizem que é útil para controlar a pandemia: digam-me que estudo médico o comprova. Eu aposto mais em higienizar as mãos, usar máscara e distanciar-me sempre que possível. Mas o controlo tecnológico é útil para monitorizar pessoas - a app funciona por geolocalização, como as câmaras que muitos autarcas querem instalar em todo o lado. Qual é a app que controla o impulso autoritário? A ignorância? A falta de noção?
Às pessoas que não percebem de apps: uma app que só se pode instalar num telemóvel topo de gama é uma app que solicita acessos vários a todo o tipo de dados. É claro que as pessoas fazem-no a todo o momento. Ligam a nuvem para usar o calendário, ligam a câmara para filmar para o Instagram. Fazem-no porque querem - podem desligar tudo e desinstalar o que lhes apetecer quando e se quiserem. Não podem apagar os dados colhidos, mas podem escolher não dar mais. A nossa vida hoje passa muito por isto, mas não é porque estamos mais permeáveis ou disponíveis que a imposição é legítima. Há sempre quem não esteja permeável e disponível e o direito de resistência não expirou com a Troika.
Às pessoas que pensam que o governo lhes vai oferecer um telemóvel: a Valentina não tinha internet e nem por isso o governo lha ofereceu. Lembram-se da Valentina, aquela criança que morreu às mãos do pai porque não tinha internet para seguir as aulas em casa da mãe? Aos idosos que não têm internet e precisam de entregar o IRS o governo não oferece internet, nem sequer serviços. É o poder local que assegura a entrega - e nem sempre... Estas e outras pequenas tiranias que desvalorizamos para podermos funcionar em sociedade não nos devem levar a aceitar tudo com medo ou de ânimo leve.
P.S. - Já devíamos andar a usar máscara na via pública desde sempre. Há n estudos que desde sempre o defenderam.
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
Para memória futura (4)
Também foi autoritário ter as pessoas impedidas de circular entre concelhos na Páscoa.
António Costa, PM do XXI Governo Constitucional de Portugal
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
Verificar o quê, chamar especialistas para quê
Uma investigadora de Harvard achou que tinha descoberto a pólvora quando lhe chegou um pergaminho que, segundo o remetente, assegurava que Jesus e Maria Madalena eram casados. Não inquiriu acerca do remetente, pediu a um amigo que avaliasse o pergaminho, pediu ao cunhado de outro amigo uma segunda opinião, publicou os resultados na revista de estudos teológicos da universidade, a universidade publicitou globalmente o achado. Em suma,
King was abetted by a world of academics and higher-ed bureaucrats who forgot that, if we are wise, we should be most gratified to learn when we are wrong.
Ler aqui.
terça-feira, 21 de julho de 2020
Sobre a Auto-Ilusão
Estou a ler o último livro de ensaios de Jia Tolentino. Chama-se Reflection on Self-Delusion e é sobre as redes, o uso que fazemos das redes, a forma como estamos nós e os outros nas redes. Do primeiro ensaio:
Of course, people have been carping in this way for many centuries. Socrates feared that the act of writing would "create forgetfulness in the learner's souls." The sixteenth-century scientist Conrad Gessner worried that the printing press would facilitate an "always on" environment. In the eighteenth century, men complained that newspapers would be intellectually and morally isolating, and that the rise of the novel would make it different for people - specifically women - to differentiate between fiction and fact. We worried that radio would drive children to distraction, and later that TV would erode the careful attention required by radio. In 1985, Neil Postman observed that the American deisre for constant entertainment had become toxic, that television had ushered in a "vast descent to triviality." The difference is that, today, there is nowhere further to go. Capitalism has no land to cultivate but the self. Everyting is being cannibalized - not just goods and labor, but personality and relationships and attention. The next step is complete identification with the marketplace, physical and spiritual inseparability from the internet: a nightmare that is already banging down the door.
terça-feira, 30 de junho de 2020
Morra o conhecimento, morra! Pim!
O nosso tempo é pródigo em amesquinhar o conhecimento. Da sala de aula à sala de imprensa pululam os peritos em distorcer o que diz quem sabe. Quando se lê na capa do jornal que mais vende em Portugal que a DGS disse que os ares condicionados não espalham vírus, uma pessoa pergunta-se se amanhã recomendarão que se lamba o chão para reforçar a imunidade. Quem saiba ler e não se compraza em deitar abaixo o especialista, leia o manual da DGS. Mas eu posso sintetizar: 1) Abrir a janela é preferível a ligar o ar condicionado. 2) O ar condicionado, a ter de ser ligado, deve sê-lo a um nível fraco. (Para ares condicionados e doenças, ver p.e. torres de refrigeração e Vila Franca de Xira).
Ando a ler The Coming Plague, de Laurie Garrett. O livro é de 1994 e impressiona. O primeiro capítulo é sobre o Machupo, uma febre hemorrágica viral descoberta na urina de ratos selvagens. Estes roedores tinham sido desalojados do seu habitat natural com a introdução da cultura do milho na Bolívia dos anos 60. Então, basicamente, os ratos deixaram o campo e passaram a viver junto das provisões alimentícias das casas. De manhã, quando as mulheres preparavam o pequeno-almoço - uma trataria disso, enquanto outra varreria o chão da cozinha - aerossóis da urina daqueles roedores contaminavam todas as superfícies, onde se incluíam, naturalmente, a comida - o pequeno-almoço.
Partículas inaláveis causam e agravam uma série de doenças respiratórias. Se não quiserem perguntar a quem sabe, perguntem em Vila Franca de Xira.
terça-feira, 16 de junho de 2020
O que nos espera bem explicado
So we are faced with a terrible choice. We can continue to embrace the nationalist strategy of keeping the liberal order alive by creating the conditions under which it will die. That will end in the dissolution of the order, collapsing economic growth, with massive increases in the costs of goods and services. Our living standards will be dramatically reduced. The nation-state will make a comeback, but at the cost of the prosperity that we have been building since the Second World War.
Or we can embrace radical democratic reforms, and attempt to convince ourselves that they will empower us, or at least give us the satisfying feeling of empowerment. We can retreat into localism, even as the critical decisions are taken far away from us. We can build a realm of illusions, where the institutions we participate in are not the ones that shape our lives.Conclusão deste artigo. Vale a pena lê-lo, uma e outra vez.
segunda-feira, 15 de junho de 2020
sexta-feira, 29 de maio de 2020
O preconceito que mata
Este video é sobre educação, mas não é só sobre educação. Aos 11.55 minutos, Chimamanda Ngozi Adichie conta como o sobrinho teve que mudar de escola. Os pais de uma criança da primária tiveram que a mudar para uma escola em que não pertencesse à minoria, ou seja: uma escola em que a professora, a direcção, a estrutura não a forçassem, por preconceito, a um lugar de marginalidade que não era o seu. Há cinquenta anos (meio século!) que a América decretou uma mudança que ainda está para acontecer. As mudanças não acontecem por decreto. A América é um país maravilhoso, e no entanto algumas pessoas arriscam-se a sair de casa de manhã e não voltar porque. Algumas crianças vão para a escola aprender que não pertencem ali porque. As mudanças que não acontecem pela educação acontecem pela cultura. Defina cultura.
sexta-feira, 15 de maio de 2020
Grão, grana, massa
Perceber alguma coisa de história da língua é saber, entre outras coisas, que centenum,-i é a designação correspondente ao cereal que hoje conhecemos como centeio. Parece que a gramínea vem de uma erva daninha que crescia nos campos de trigo e cevada e que, apesar de a sua origem ser obscura, há fontes que apontam a Alemanha como o local em que foi cultivado pela primeira vez. .
quinta-feira, 14 de maio de 2020
Gott ist in den Details
Quem, como eu, dedicar os momentos de lazer ao crime, na fonte literária ou na adaptação televisiva, sabe que o crime revela a natureza humana. Comecei este mês a rever Poirot. Poirot diz constantemente que agradece toda a oportunidade que lhe é dada para estudar a natureza humana. A natureza humana não é o que pensamos, o que nos dizemos que somos. Somos animais. Somos animais independentemente do que façamos para esquecer essa baixa condição. A persistência do crime nas nossas sociedades não surpreende mas o crime horrendo choca. Somos animais incautos e inconscientes, vive-se melhor assim. Noto que a geração dos meus pais está verdadeiramente transtornada ante as evidências diárias da maldade gratuita. A geração dos meus pais pouco conhece das novas gerações. E não leu Steiner, não sabe que o tédio mata. O que, a mim, me surpreende é a inteligência, a gentileza e a ausência de preconceito de Poirot. Só ele ouve a nota dissonante, só ele deduz e persegue aquele pormenor que a todos passou despercebido. O crime perfeito não existe. O infanticídio remonta, pelo menos, a Medeia, uma vilã incrível. A sua história mostra a loucura que é matar por expediente, matar por vingança. O desvio que esteve lá desde sempre, que se foi materializando de forma gradual, e que ninguém quis ver. Poirot investigaria o relatório que não conseguiu apurar qualquer indício de violência física na última fuga de casa. Ninguém foge de casa de um progenitor para ir para junto do outro porque tinha saudades. Ter saudades é a forma que algumas crianças arranjam de não magoar e não desenvolver, não falar. Foge-se de casa quando se tem medo e a firme certeza de que ficar é arriscar-se, é expor-se sem defesa a perigos insuportáveis. Escrever relatórios e citar Dietrich Bonhoeffer é um bocejo. O mais fácil.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
terça-feira, 5 de maio de 2020
Morte, revolta colectiva, destruição
É o que prevê Laurie Garrett. Laurie Garrett não é vidente, mas os países e os jornais procuram-na. Tem o conhecimento de uma vida de investigação e dedicação à causa da saúde pública. Sobre o regresso à normalidade, diz:
Did we go ‘back to normal’ after 9/11? No. We created a whole new normal. We securitized the United States. We turned into an antiterror state. And it affected everything. We couldn’t go into a building without showing ID and walking through a metal detector, and couldn’t get on airplanes the same way ever again. That’s what’s going to happen with this.O artigo na íntegra está aqui.
segunda-feira, 4 de maio de 2020
A Martinha
Uma pessoa que, como eu, não tenha televisão está protegida de muita coisa. Uma pessoa que tenha Facebook e procure informar-se pelos canais que considera mais fidedignos na internet, está protegida de muita coisa. O meu feed do Facebook, por exemplo, é uma caixa de ressonância daquilo que eu penso; as plataformas que uso para obter informação respondem às minhas perguntas de um modo que eu considero razoável e satisfatório. Mas o país e o mundo não é a minha rede de amigos no Facebook, nem a Atlantic, nem a New Yorker, nem o New York Review of Books.
O país detesta a Ministra, uma mulher sem filhos, racional e competente, e o mundo não entende o confinamento do povo, mas não dos políticos. O país está revoltado porque a, b e c foram à Assembleia celebrar o 25 de Abril e x, y e z ao Parque Eduardo VII para o 1.º de Maio, mas o povo não pode passar os filhos para a alçada dos avós, os shoppings e os restaurantes não podem abrir, os médicos não podem ganhar mais, ainda não pode haver uma vacina, e nada poderá ser como era antes. A culpa é da Martinha. Foi a Martinha que decidiu, a Martinha que avaliou, a Martinha que não quer pagar, a Martinha que não faz uma vénia e se ajoelha em directo perante todos os profissionais que fazem o que a profissionais compete.
Já pensei que a culpa fosse da Escola - tendemos sempre a colocar o problema na nossa área -, que a Escola ensina pouca estatística, não propõe estudos de caso, não implementa o método científico, não se presta à interpretação das nuances, desvaloriza o peso da mais pequena dissonância na vida... Depois concluí que o problema é social, cultural, mas sobretudo pessoal. E está na perda do hábito da leitura. A gente não lê, os estímulos do meio envolvente não ajudam, é-se incapaz de empatia, não se sabe analisar uma situação complexa; em suma, pensa-se pouco e mal. É assim que estamos todos entregues ao perigo maior que é a ignorância boçal activa.
Fica aqui o melhor artigo que li para explicar por que é tão complicado comunicar, prevenir, tratar, viver e sobreviver ao momento actual.
terça-feira, 28 de abril de 2020
segunda-feira, 27 de abril de 2020
Para memória futura (2)
Alguém achou que isto está bonito, bem apanhado, faz sentido. Passa na tv, é comentado nas notícias. Vou sentar-me à espera do dia de Pentecostes para ver se quem manda pode trata de explicar isto. Antes disso, só porventura o Ricardo Araújo Pereira nos pode salvar a honra e demonstrar a dimensão aviltante deste fail.
quarta-feira, 22 de abril de 2020
Pensar a Escola
Há cerca de dez anos, por um acaso do destino, comecei a pensar na Escola. No que ela faz, no que ela não faz, no que ela é, no que ela poderia ser. A celeuma que o regresso das aulas à televisão causou levou-me a ir ver uma aula da minha área. Ao contrário do que dizem os protectores dos professores, quase todos seus colegas de profissão, e eles próprios, para se protegerem do escrutínio, as aulas na televisão não expõem os professores devido ao pouco tempo de preparação que tiveram ou à sua falta de formação em televisão. Nada disso, de resto, lhes pode ser pedido. A um professor só se pode pedir que ensine. A aula a que assisti foi muito instrutiva. As fragilidades das práticas lectivas e didácticas de alguns professores, o seu domínio científico e o conhecimento pedagógico que são capazes de elaborar e transmitir e que determina o futuro e os interesses de gerações sucessivas de alunos, e o emprego, e a sociedade, ali. Eu já sabia que era assim. Mas ver, em tempo real, de onde vêm os bordões e as imprecisões, perceber por que razão é preciso passar o primeiro ano a ensinar o bê-a-bá da escrita é muito bom. A culpa não é dos professores. Dizê-lo é uma ousadia, mas é verdade. É preciso repensar a Escola. O seu sentido, o futuro, o que queremos dela.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
Está tudo bem. Já passou. Nunca aconteceu. Podem voltar a comprar igual se não mais.
Desde ontem que o trânsito na nossa rua deixou de ser o trânsito do confinamento. Mas também não voltou à circulação pacata da estrada que liga a vila à nacional, não. O trânsito de agora é um trânsito igual ao da A28 nos tempos recentes em que a economia funcionava plenamente. Já regressámos à economia plena, o confinamento acabou - a nós é que ninguém disse nada. A economia plena, que faz mexer os países, que alivia as restrições na Europa, é nós trabalharmos até cair para o lado e comprarmos sem pensar (ou para esquecer o dano).
Este artigo explica-o em termos do gaslighting de que é capaz quem pode fazer os países mexer. E conclui:
This is our chance to define a new version of normal, a rare and truly sacred (yes, sacred) opportunity to get rid of the bullshit and to only bring back what works for us, what makes our lives richer, what makes our kids happier, what makes us truly proud.
terça-feira, 14 de abril de 2020
Perguntas
Aqueles pais que iam à escola bater em professores, já puseram a mão na consciência?
Aqueles filhos que iam ao hospital bater em médicos e enfermeiros, já puseram a mão na consciência?
Aqueles que sorriam displicentemente quando alguém lhes dizia "A ignorância mata.", já fecharam o sorriso?
domingo, 5 de abril de 2020
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