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terça-feira, 3 de outubro de 2017

Empathy

He had wondered as had most people at one time or another precisely why an android bounced helplessly about when confronted by an empathy-measuring test. Empathy, evidently, existed only within the human community, whereas intelligence to some degree could be found thoughout every phylum and order inclunding the arachnida. For one thing, the empathetic faculty probably required an unimpaired group instinct; a solitary organism, such as a spider, would have no use for it; in fact it would tend to abort a spider's ability to survive. It would make him conscious of the desire to live on the part of his prey. Hence all predators, even highly developed mammals such as cats, would starve.
Philip K. Dick, Do androids dream of electric sheep?

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Beyond humans

In Ex Machina, the programmer Caleb is taken to the remote retreat of his boss, the reclusive genius and tech billionaire Nathan. He is initially told he is to be the human component in a Turing Test, with Ava as the subject. After his first meeting with Ava, Caleb remarks to Nathan that in a real Turing Test the subject should be hidden from the tester, whereas Caleb knows from the outset that Ava is a robot. Nathan retorts that: ‘The real test is to show you she is a robot. Then see if you still feel she has consciousness.’ (We might call this the ‘Garland Test’.) As the film progresses and Caleb has more opportunities to observe and interact with Ava, he ceases to see her as a ‘mere machine’. He begins to sympathise with her plight, imprisoned by Nathan and faced with the possibility of ‘termination’ if she fails his test. It’s clear by the end of the film that Caleb’s attitude towards Ava has evolved into the sort we normally reserve for a fellow conscious creature. 

The arc of Ava and Caleb’s story illustrates the Wittgenstein-inspired approach to consciousness. Caleb arrives at this attitude not by carrying out a scientific investigation of the internal workings of Ava’s brain but by watching her and talking to her. His stance goes deeper than any mere opinion. In the end, he acts decisively on her behalf and at great risk to himself. I do not wish to imply that scientific investigation should not influence the way we come to see another being, especially in more exotic cases. The point is that the study of a mechanism can only complement observation and interaction, not substitute for it. How else could we truly come to see another conscious being as such, other than by inhabiting its world and encountering it for ourselves?
Murray Shanahan, Conscious exotica.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ser Jacob

"Tu sabes como te servi e o que ganhaste comigo. Porque o que tinhas, antes da minha chegada, era pouco, e tudo aumentou muitíssimo: o Senhor abençoou-te por minha causa. Agora, quando trabalharei também para a minha família?"

Gn 30, 29-30

domingo, 8 de junho de 2014

PRÍNCIPE NO ROSEIRAL

Escute lá
isto é um poema 
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
das mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é só um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

- Matilde Campilho, Jóquei.

domingo, 18 de maio de 2014


Lourdes Castro, Grand Herbier d'Ombres, "rosa".
Les écrivains sont tous des raccomodeurs de l'ombre interne, des personnages qui ont accepté de se dépeupler. Rimbaud a cherché de l'or aprés avoir cherché l'indicible; il a accepté de laisser mourir son ombre interne dans le cercueil du moi.

- Laure Adler, Marguerite Duras, Folio, p. 554.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Inverno

Inverno
É tudo o que sinto
Viver
É sucinto.

- Paulo Leminski, Poesia Toda.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Ainda de ontem - 25

Deixei-me ficar nestes dias o tempo que pude. É o começo do ano, primeiro dia. O nevoeiro pairava sobre as cabeças, mesmo as das árvores, os camponeses permaneciam deitados, com olhos de videntes e de mortos.

 - Maria Gabriela Llansol, Um Data em Cada Mão - Livro de Horas I.

sábado, 30 de novembro de 2013

Do dia - 93

"Acho que Sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço: sábado ao vento é a rosa da semana. Sábado de manhã é quintal, uma abelha esvoaça, e o vento: uma picada da abelha, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. Nos quintais da infância no sábado é que as formigas subiam em fila pela pedra. Foi num sábado que vi um homem na sombra da calçada comendo de uma cuia carne-seca e pirão: era sábado de tarde e nós já tínhamos tomado banho. Às duas horas da tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: e ao vento sábado era a rosa de nossa insípida semana. Se chovia, só eu sabia que era sábado: uma rosa molhada, não? No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana exausta vai morrer, ela com grande esforço metálico se abre em rosa: na Avenida Atlântica o carro freia de súbito com estridência e, de súbito, antes do vento espantado poder recomeçar, sinto que é sábado de tarde. Tem sido sábado mas já não é o mesmo. Então eu não digo nada, aparentemente submissa: mas na verdade já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. Domingo de manhã também é a rosa da semana. Embora sábado seja muito mais. Nunca vou saber por quê." 

 - Clarice Lispector, "Sábado" in A Descoberta do Mundo, p. 421.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Why this World



Acabei de ler Sopro de Vida, a biografia de Clarice Lispector da autoria de Benjamin Moser. O livro, Why this World no original, termina com a transcrição desta entrevista, a última da autora e tão densa que a própria terá pedido que fosse emitida apenas depois da sua morte. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Coisas que foram caindo em desuso - 10

"Quando conscientemente, aos treze anos de idade, tomei posse da vontade de escrever - eu escrevia quando era criança. mas não tomara posse de um destino - quando tomei posse da vontade de escrever, vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem me pudesse ajudar. 
Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar por assim dizer a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo. Os papéis se juntavam um ao outro - o sentido se contradizia, o desespero de não poder era um obstáculo a mais para realmente não poder. A história interminável que então comecei a escrever (com muita influência de O Lobo das Estepes de Herman Hesse), que pena eu não ter conservado: rasguei, desprezando todo um esforço quase sobre-humano de aprendizagem, de auto-conhecimento. E tudo era feito em tal segredo. Eu não contava a ninguém, vivia aquela dor sozinha. Uma coisa eu já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, não esperar um momento melhor porque este simplesmente não vinha. Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir."

 - Clarice Lispector, "Escrever", in A Descoberta, apud Benjamin Moser, Clarice Lispector - uma vida.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Boas descobertas

"- Depreciavam os teus esforços? Encolerizavam-se? Invocavam alguma forma de autoridade? O direito divino? 
- Mostravam-me o meu próprio reflexo no tanque e depois agitavam a água com uma vara de vedor, inventavam cadeias de nomes aliterativos que me soavam a impropérios, citavam-me fora do contexto com uma desfaçatez que se tornou lendária, escondiam um cadáver de pássaro sob o meu travesseiro. Perdoei-lhes a todos, perdoei-lhes com eloquência, deliberadamente, com as mãos e com a boca, com braçadas de gladíolos, em latim e vulgar, em verso, prosa e aforismo. Humilhei-os com a minha generosidade. A fama assentava-me com o aparato de uma dama da corte. Que belo! Que belo! Quando chegava o São João estava tudo esquecido, e quando se vindimavam as vinhas eu passava já por submissa. Cobriam-me os olhos com uma tira de gaze, era sempre eu a cabra-cega. Sobrava tecido que chegaria para rodear o pomar, enchia os caminhos de branco e empecilhava-me os movimentos. Apelos roucos e longínquos à calma e à temperança chegavam-nos como um trava-línguas rimado. Gostava de maçarocas, mas não de sardões; de camarinhas, mas não de azedas; dos tordos, mas não dos mochos; do ocaso, mas não do nascente." 

 - Alexandre Andrade, "Notícias do Segundo Círculo", As Não-Metamorfoses.

domingo, 10 de novembro de 2013

Do dia - 91

No dia 10 de novembro de 1958, João Gilberto chegou ao estúdio da Odeon para mais um round nas gravações de seu segundo compacto. Em agosto ele tinha lançado o compacto com Chega de saudade de um lado e Bim bom do outro. Assim se passaram apenas cinco meses, mas já estava na cara. A música brasileira nunca mais seria a mesma. A expectativa para o novo compacto era grande, mas a gravação, como qualquer coisa relacionada com João, estava complicada. Ele implicava com os arranjos de Tom, com o baterista, com o excesso de cordas.... 

O clima era péssimo. Desafinado, a música escolhida para o segundo compacto, tratava-se de uma brincadeira de Tom Jobim e Newton Mendonça em torno da voz de João. Uma piada sofisticada, claro, algo que depois os comunicólogos chamariam de metalinguagem. Como a emissão do cantor era muito diferente, estabelecera-se no país uma discussão de se ele era afinado ou não. Desafinado era a música sobre a música e os seus músicos, a dificuldade de ser entendido e anunciar o novo. Livros já foram escritos sobre ela, mas não se assuste. Hoje, aqui, não tem aborrecimento teórico. Isto é apenas um programa comemorativo daquele momento histórico e divertido da música brasileira. 

Tom e Newton fizeram a composição para que, a principio, ela parecesse sair em defesa daquele "comportamento antimusical". Quem a ouvisse pela segunda vez, no entanto, perceberia. Ela possuía uma complexidade que só os muito afinados poderiam enfrentar. 


terça-feira, 13 de agosto de 2013

The Sin of Height

"Sarah Bernhardt confesses that she is temperamentally drawn to ballooning because 'my dreamy nature would constantly transport me to the higher regions.' On her short flight she is provided with the convenience of a plain, straw-seated chair. When publishing her account of the adventure, Bernhardt whimsically opts to tell it from the chair's point of view." 

 - Julian Barnes, "The Sin of Height", Levels of Life

domingo, 11 de agosto de 2013

Olímpia Jack

Na estrada que vai para Patrai e que está marcada no mapa com raminhos de oliveira e cachos de uva como os que produzia a terra prometida, estava Jack, o de Olímpia. Tinha mudado; os rios pedregosos e secos pareciam despertar-lhe estranheza; e olhava a paisagem humana das pequenas vilas sem ocultar que se surpreendia. Uma lucidez desesperante tinha alterado o seu espírito. O mundo emergia do caos, e a luz era ele agora quem a irradiava. Mas não reconhecia o que via.

- Não viajarei mais - disse ele, como se descobrisse uma identidade estranha que lhe pertencia. Vi-o andar no cais ao escurecer, e a sua figura esguia, o barco cheio de luzes e que não era o dele, comunicavam quase uma sensação de pobreza enganada pelo vil desprendimento. Da energia humana ninguém sabe ainda nada. Ela converte os homens em joguetes fantásticos, dá-lhes voz e razão, segreda-lhes as verdades ocultas no cosmos, e enche-lhes o vazio cérebro de respostas sublimes ao seu próprio destino. E faz com que a terra produza frutos maravilhosos, entre os quais a força do que se espera indefinidamente. 

 - Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dimitri e outras Fantasias.

domingo, 16 de junho de 2013

Do dia - 72


Berenice Abbott, Nora Barnacle-Joyce, Paris, c. 1928

Nora e Joyce conheceram-se a 10 de Junho. Mas o seu primeiro passeio terá sido a 16 de Junho, dia eternizado com sagrada exactidão em Ulisses, celebrando "a rapariga de cabelos-arruivados que veio ao meu encontro, que me tomou tão facilmente nos braços e fez de mim um homem" (carta de 7 de Agosto de 1909). 

Francisco Vale na Introdução a James Joyce - Cartas a Nora, Trad. José Miguel Silva, Relógio d'Água.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Gente gira - 12

Após a chegada de Joyce a Paris, em Junho de 1920, sucedem-se as conferências e traduções das suas obras. Hemingway recorda em Paris É Uma Festa o modo como ele era então considerado. Quase todos os escritores o reverenciaram à excepção de Gertud Stein, que não voltava a convidar quem dele falasse duas vezes, e de Djuna Barnes, a única que não o tratava por Mr. Joyce. A rigidez dos seus hábitos era lendária. Sylvia Beach sabia que ele apareceria na Shakespeare & Company "ao fim da tarde" e Hemingway que o podia ver a jantar no Michaux com a família, às nove horas, numa mesa onde o vinho branco estava banido - essa era uma das variadas superstições de Joyce, sendo a maior dela o medo das trovoadas, que o fazia desatar a correr.


Francisco Vale na Introdução a James Joyce - Cartas a Nora, trad. José Miguel Silva, Relógio d'Água

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Diz que é uma espécie de Artémis - 6

O que mais receio é, creio eu, a morte da imaginação. Quando o céu lá fora é apenas cor-de-rosa, e os telhados apenas negros: essa inteligência fotográfica que paradoxalmente diz a verdade, mas uma verdade inútil, a respeito do mundo. O espírito de síntese, a força "modeladora" que brota prolificamente e cria os seus próprios mundos com mais poder inventivo que Deus, eis o que eu desejo. Se ficar sentada e quieta, sem fazer nada, o mundo continuará a pulsar como um tambor bambo, sem o menor sentido. Há que caminhar, trabalhar, criar sonhos para os perseguir; a pobreza da vida sem sonhos é um terror inimaginável: é essa a pior de todas as formas de loucura: a loucura com delírios e alucinações seria um alívio boschiano. Estou sempre à escuta de passos na escada, e fico cheia de raiva quando não são para mim. Porquê, porquê, por que é que não posso ser asceta por algum tempo, em vez deste constante vacilar na fronteira entre o desejo de solidão absoluta, para ler e trabalhar, e - tanto, tanto - a sede dos gestos de mãos e palavras dos outros seres humanos. Bem, depois deste trabalho sobre Racine, deste purgatório de Ronsard, deste Sófocles, hei-de escrever: cartas, e prosa, e poesia, lá para o fim da semana; até lá, tenho que ser estóica. 

 - Sylvia Plath, "Apontamentos de Cambridge", Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos

domingo, 12 de maio de 2013

Diz que é uma espécie de Artémis - 4

Como eu invejo o romancista! 
Imagino-o - melhor será dizer "imagino-a", pois é nas mulheres que procuro um paralelo - imagino-a, portanto, a podar uma roseira com umas grandes tesouras, a ajeitar os óculos, a arrastar os pés entre chávenas de chá, a cantarolar, a cuidar da limpeza de bebés e cinzeirosm a absorver um raio oblíquo de sol, uma pontinha de ar fresco, e a sondar, com uma espécie de humildade e magnífica visão raio-X, a intimidade psíquica doz vizinhos - vizinhos no comboio, na sala de espera do dentista, no salão de chá da esquina. Para ela, para esta afortunada criatura, há lá alguma coisa que *não seja* relevante! Tudo lhe serve: sapatos velhos, maçanetas de porta, cartas enviadas por correio aéreo, camisas da noite de flanela, catedrais, verniz de unhas, aviões a jacto, caramanchões de roseiras e papagaios; pequenos tiques - chupar um dente, puxar a linha de uma costura - qualquer coisa, seja estranha ou imperfeita, requintada ou insignificante. Isto para já não falar das emoções, das motivações - essas formas ribombantes e tempestuosas. O seu negócio é o Tempo, o modo como o tempo se projecta para diante, volta atrás, floresce, definha e se desdobra em fotografias de exposição múltipla. O seu negócio são as pessoas no Tempo. E parece-me a mim que ela tem todo o Tempo do mundo. Se lhe apetecer pode levar um século, uma geração, um Verão inteiro. 

 - Sylvia Plath, "Uma Comparação," Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Papa verdadeiro, não o do preconceito

Bento XVI resignou, do meu ponto de vista, por nenhum motivo obscuro, mas por ser quem é e sempre foi: um racionalista (ele mesmo escreveu e disse várias vezes que não era um místico) que entende profundamente o valor da vida e do ser humano. Como intelectual, Bento XVI é superior; como dirigente da Igreja Católica deu cabo de todos os preconceitos daqueles que, à data da sua eleição, queriam vê-lo como um mero "pastor alemão". Eu não sou católico, mas aprendi a respeitar a coerência e a elevação onde quer que elas estejam, bem como a tolerância e a convivência como valores indispensáveis à compreensão mútua. E por ter lido e ouvido de viva voz o Papa, considero-o uma figura impar na nossa intelectualidade.

Para não enfileirar com aqueles que só conseguem elogiar na hora da despedida, cito um artigo que escrevi há quase três anos nas páginas do Expresso precisamente sobre este Papa, quando ele visitou Portugal e eu tive a oportunidade de o ouvir. E deixo algumas notas finais escritas há dois anos, quando tive a oportunidade de apresentar em Portugal o livro "A Luz do Mundo" que resulta da longa entrevista que o jornalista Peter Seewald lhe fez. Já agora, nesse livro Bento XVI colocava a hipótese de resignar mediante certas circunstâncias, entre as quais estas que o levaram à coerência de o fazer. Eis o que escrevi há três anos:

"Mas por que estranha razão, a cada passo, se ouve dizer que este Papa é um reacionário temível? O que Bento XVI quis dizer aos convidados do CCB, entre eles muitos pertencentes a outras confissões ou não professando nenhuma, foi simples: que cada um deve fazer da sua vida um lugar de beleza e que a Igreja está sempre a aprender a conviver e a respeitar os outros; "outras verdades, ou as verdades dos outros". A mensagem foi de uma profunda tolerância e de esperança que a "Verdade" possa iluminar cada ser humano. Quem se sente ameaçado por palavras assim? Já no avião, Bento XVI desarmara a polémica da pedofilia ao afirmar que a perseguição à Igreja não nasce dos seus inimigos, mas do seu interior. A frase, que parecerá revolucionária a quem nada leu sobre Cristo - a começar pela Bíblia - está, no entanto, em perfeita linha com a melhor tradição da Igreja. Em Fátima, o Papa defendeu - e bem - a liberdade de culto.

E assim, Bento XVI surge-nos infinitamente melhor do que aquilo que dele dizem.

E aqui se revela o preconceito.

Não o estafado preconceito que é arma de arremesso de todos os pós-modernos quando em causa está uma hierarquia de valores; mas o preconceito daqueles que, dizendo-se despreconceituosos, não resistem a um teste simples: fazer a crítica coerente ao que o Papa diz - e não a um conjunto de ideias pre-formatadas que ele jamais defendeu.

A luta central de Bento XVI é contra a desregulação do ethos, da ética - a mesma desregulação que elevou a ganância e a especulação a deuses de pés de barro que se estatelaram no primeiro abanão. É uma luta árdua contra a desvalorização da vida, da família, do esforço honesto e da esperança que pode e deve envolver não apenas os católicos. No CCB, também os líderes de outras confissões saudaram as palavras do Papa.

É difícil ir contra aquilo que se convenciona, em determinado momento, ser moda: o chocante, o grotesco, a desconstrução, a ganância, o egotismo. E, uma vez que a Igreja Católica continua a aprendizagem da convivência, mais do que possível é desejável o caminho comum."

E assim terminava o texto escrito no Expresso. Quero apenas colocar mais cinco notas, já escritas igualmente, mas que tenho vindo a confirmar:

1) Como Bernard-Henry Levy também eu penso e escrevi que tudo o que diz respeito ao Vaticano e ao Papa surge na imprensa e em certos círculos acompanhado de preconceito, desonestidade e até desinformação.

2) Posso testemunhar que Bento XVI tem razão quando afirma que ninguém faz, em concreto, tanto pelos pobres, pelos que passam mal e sobretudo pelos doentes de sida como a Igreja. Andei muito por África - cobri conflitos civis em Angola, Moçambique, África do Sul, Namíbia, Malawi, Congo, Zimbabwe e sei bem que nesse Continente, bem como noutras partes do mundo, a Igreja tem uma obra assinalável. Há nos locais mais recônditos, sujos, doentios, depressivos sempre alguém que, por nada ou quase nada em troca, está lá a ajudar os outros. Diria que 100% são crentes e desses a maioria cristãos e a maior parte católicos.

3) A reação do Papa às denúncias do escândalo da pedofilia foi esta, exatamente, que transcrevo (e não o que por aí anda a correr: "Desde que sejam verdade são bem vindas - a verdade, conjugada com o amor corretamente entendido é o valor primordial". Eis algo que é raro, senão impossível, ouvir de alguém responsável, nomeadamente na política.

4) A ideia da racionalidade na Fé (ou na crença) liga-se a uma questão pertinente que raras pessoas gostam de responder. Esta: se a cultura, ou o múnus da cristandade no Ocidente perder a sua força estruturante da sociedade quem ou o quê vai assumir o seu lugar?

5) Ratzinger tem toda a razão quando defende que a tolerância está em perigo com as doutrinas politicamente corretas. O seu exemplo é para mim paradigmático. Ei-lo "está a difundir-se uma nova intolerância (...) existem regras ensaiadas de pensamento que são impostas a todos e que são depois anunciadas como uma espécie de tolerância negativa. Como quem diz que, por causa da tolerância negativa não pode haver crucifixos nos edifícios públicos. Basicamente isto significa a abolição da tolerância"

Este texto vai longo, mas penso que vale a pena refletir sem preconceitos sobre esta figura e sobre o exemplo que ele dá a tanta gente. Ninguém é eterno e menos insubstituível. A dignidade dos cargos está relacionada com a dignidade de quem os exerce.

- Henrique Monteiro, Expresso, 12 de fevereiro de 2013