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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Morte ao meio-dia

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

- Ruy Belo, Todos os Poemas.

sábado, 14 de setembro de 2013

The joy of writing


Wislawa, Szymborska, s/a, s/d. 

The joy of writing. 
The power of preserving. 
Revenge of a mortal hand.

— Wisława Szymborska


A propósito deste artigo. Somos tão felizes quanto os Sírios, ameaçados de guerra; as pessoas mais felizes vivem na Dinamarca, na Noruega, na Suiça, na Holanda e na Suécia. Este senhor explica porquê.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Do dia - 78

"Há circunstâncias em que a recusa é a única afirmação possível. Como os prisioneiros em greve de fome, presumo. Ou, menos dramaticamente, como aconteceu, em meados dos anos 50, no Café Gelo (...) Vivia-se nesse tempo em Portugal um ambiente suspenso e fechado. O fim da guerra não tinha trazido a democratização prenunciada pelos aliados e, pelo contrário, consolidara a ambiguidade pró-fascista do regime português numa militância anticomunista com eles partilhada. Tempo de expectativas frustradas. De esperança sonegada. O regime português não seria tão brutal como outros congéneres tinham sido e como outros ideologicamente antagónicos continuavam a ser. Mas, como os amores, essas coisas não são comparáveis por quem as padece. Havia vigilância policial, havia denúncias, havia torturas, havia prisões, houve execuções secretas. Houve tudo isso. E havia sobretudo uma generalizada redução de expectativas. Produzindo mais resignação do que revolta. As pessoas olhavam em volta quando falavam. Baixavam a voz para dizer o que não chegavam a dizer. Cada um era o seu próprio carcereiro.

O que todos nós, os do Café do Gelo, tínhamos em comum era uma atitude de recusa, uma partilhada vontade de quebrar amarras, um só sabermos o que não queríamos para podermos deixar um espaço livre para o que pudéssemos talvez querer. A recusa de normas estabelecidas era a nossa única norma. O questionamento de valores impostos o nosso único valor. As noites eram os nossos dias. Se vivíamos num mundo às avessas, tínhamos de viver no avesso das avessas. Estávamos todos muito zangados com o que queriam fazer de nós: o governo, as universidades, a família, as várias polícias, que não nos queriam deixar ser quem ainda não sabíamos que poderíamos querer ser, os intelectuais estabelecidos que nos queriam ensinar a ser quem não queríamos ser. (...)

Mas não é pela literatura nem pela pintura que recordo os do Gelo. É pelo que não queríamos ser onde não podíamos estar. O Manuel de Castro que se fez morrer alcoolizado com 30 e poucos anos. O José Escada que se deixou degradar por um angelismo inalcançado. O João Rodrigues que se atirou da janela por já não valer a pena não se atirar. O José Sebag que fingia suicidar-se para dessa vez não ter morrido até que um dia em que não se suicidou morreu. O José Manuel Simões que preferiu a indigência de Paris ao regresso à pátria porque era o mais puro de todos nós. Pouco antes de morrer o Simões meteu tudo o que possuía num envelope e escreveu no envelope: Sobras Completas."

 - Helder Macedo, sobre Servidões de Herberto Hélder, no JL desta quinzena.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A revolução é uma necessidade - 5

"Elevador pra Glória", 25 de Abril de 1974, Victor Valente©

25 DE ABRIL


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 26 de março de 2012

Diz que é uma espécie de épica - 3

"Quem viu na TV a imagem de um homem ensanguentado gritando "Liberdade! Liberdade!" em direcção à tropa do dr. Miguel Macedo que, como em 24 de Novembro último, espancou selvaticamente jovens que, em vez de acatarem o conselho do primeiro-ministro e emigrarem, se manifestaram na quinta-feira em Lisboa, não pode deixar de descobrir afinidades (até nas agressões a jornalistas e nos comunicados oficiais falando de "ordem e segurança" e culpando as vítimas) com o que aconteceu há 50 anos. E de inquietar-se."


Manuel António Pina, hoje, no JL

terça-feira, 6 de março de 2012

Maria Helena Vieira da Silva (1908 - 6 de Março de 1992)



A primeira vez que fui à Cinemateca foi por causa deste filme, por causa dela, do seu imenso talento, da sua generosidade extraordinária. Hoje é para mim importante recordá-la. Agora que o célebre "Para nascer, Portugal; para morrer, o Mundo." de António Vieira anda na boca de todos os políticos, opinion makers e afins vale a pena pensarmos no quanto sempre fomos capazes de receber o outro, but not our own.